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“O nosso dinheiro vale o mesmo que o das mulheres mais magras”

Para a Barbie feita à sua imagem, a manequim Ashley Graham (à esquerda) teve uma exigência: as coxas da boneca teriam de se tocar

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A indústria da moda portuguesa está a falhar a um segmento considerável das mulheres? Quem não se vê representada nas capas de revista ou não encontra roupa para comprar diz que sim. Modelos, bloggers, agências e lojas de roupa fazem ao Expresso o ponto de situação em que está a indústria – se é que existe – da moda portuguesa para “meninas com genes gulosos”

A primeira exigência de Ashley Graham para os moldes em que se basearia uma Barbie à sua imagem foi clara: “O que eu exigi foi que as ancas dela se tocassem”. Depois, foi um pouco mais longe: “Pedi celulite, mas acho que não vou ter nenhuma.” Conseguiu lingerie própria para a sua boneca, os olhos felinos e a réplica das curvas que têm conquistado a indústria da moda. À Barbie feita à imagem da modelo plus size só ficaram a faltar as capas da “Vogue”, onde este mês Ashley foi protagonista, ou da “Sports Illustrated”, onde fez notícia por ser a primeira plus size de biquíni.

Embora Ashley seja um caso notório de sucesso, e cada vez mais marcas internacionais coloquem modelos plus size nas passerelles e campanhas, os preconceitos não parecem ter ficado para trás. Exemplo disso foi a polémica que eclodiu recentemente quando a Nike lançou uma linha de roupa para mulheres plus size, com roupa até ao tamanho 3XL em 85 modelos específicos.

Ashley Graham é um dos nomes mais conhecidos da indústria plus size. Em fevereiro desfilou em Nova Iorque para a coleção outono 2017 de Michael Kors

Ashley Graham é um dos nomes mais conhecidos da indústria plus size. Em fevereiro desfilou em Nova Iorque para a coleção outono 2017 de Michael Kors

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Se é verdade que a linha foi muito elogiada na imprensa, os comentários negativos sobre as manequins que protagonizaram a nova campanha encheram o Facebook da Nike. “A Nike passou para a brigada do politicamente correto que tem de manter as pessoas felizes, a seguir vão estar todos a apoiar pessoas gravemente obesas”, escrevia um utilizador. “Pensava que a Nike era uma marca de roupa desportiva. [Estas modelos] não parecem fazer nada de atlético”, concordava outro.

As críticas à marca parecem estar em linha com o preconceito que estas mulheres dizem sentir na indústria ou na aventura que é procurar peças de roupa favorecedoras – apesar de investigações recentes indicarem que 67% das mulheres americanas vestem tamanhos plus size (normalmente acima do 44 europeu), estes casos parecem reforçar que ver estas mulheres a representar marcas ou a protagonizar campanhas ainda não é regra.

“Ainda se olha para as gordas como vítimas”

Em Portugal o caso é mais grave, com uma indústria atrasada nesse sentido, defendem as modelos plus size portuguesas que conversaram com o Expresso. Maria Inês Abreu Peixoto já trabalha há vários anos como modelo. Excluindo uma última experiência remunerada, diz “sempre ter sentido” falhas entre os profissionais que trabalham com estas modelos: “Sempre senti que não havia grande dedicação por parte dos profissionais para que o resultado fosse minimamente bom. Acho que ainda se olha para as gordas como vítimas - ainda que na maioria das vezes o sejam, por situações motivadas pela discriminação - e qualquer expressão dada à visibilidade de uma gorda tem sempre uma necessidade de drama a acompanhar.”

Leilane Ferreira e Cláudia Silva, fundadoras do bloque Mulher XL, que também organiza castings e desfiles

Leilane Ferreira e Cláudia Silva, fundadoras do bloque Mulher XL, que também organiza castings e desfiles

d.r.

As situações multiplicam-se – são vários os relatos de trabalhos sem pagamento, conforme descrito no blogue português Mulher XL, que desde 2009 se dedica a organizar desfiles e castings. “Quando começámos este blogue era tudo novidade, fomos convidadas várias vezes a ir à televisão, sempre nos foi pedido que levássemos alguma loja ou marca connosco para realizar um desfile”, escrevem Leilane Ferreira e Cláudia Silva, autoras do blogue. “No princípio convidávamos leitoras que quisessem desfilar (…). Apesar de nenhuma ter formação para tal, estavam ali a representar uma marca, que por sua parte ganhava visibilidade e por consequência vendia infinitamente mais. O que ganhavam as modelos ? Nada”.

Questionada sobre se o tratamento das modelos plus size se compara ao que recebem as restantes colegas, Maria Inês não mostra dúvidas em dizer que não, lembrando que se vivesse da moda “já não teria casa”: “A começar nos cachets que por norma (não) apresentam e a acabar na exposição ao ridículo, às críticas e ao olhar analítico. Em termos de valores, julgo que deve haver uma ideia generalizada de que estamos em missão, em detrimento de sermos profissionais na área.”

Pagas com descontos ou despesas de deslocação

A experiência de Melanie Estrada, que se tornou modelo também através de um concurso, é semelhante – apesar de nunca se ter sentido “discriminada na indústria”, só tem “dois a três trabalhos por ano”. “O facto de não morar na capital, por vezes, não ajuda”. Quanto a viver da moda, a resposta é a mesma: “Os poucos trabalhos que fiz ou são pagos em descontos nas próprias lojas ou apenas pagam as despesas de deslocação - e outros, nada.”

Melanie Estrada faz trabalhos como modelo há anos, mas muitas vezes é paga com “descontos nas lojas ou despesas de deslocação”

Melanie Estrada faz trabalhos como modelo há anos, mas muitas vezes é paga com “descontos nas lojas ou despesas de deslocação”

d.r.

Falamos de modelos plus size, mas a verdade é que nem é sempre fácil encontrá-las – em Portugal não há muitas agências que trabalhem com elas. Thais Ribeiro, publicist da Next Models, assegura que a agência está aberta a essa hipótese, garantindo ao Expresso que existe “todo o interesse em criar esse departamento” numa altura em que reconhece uma procura crescente por parte dos clientes para “catálogos de marcas de roupa, incluindo biquínis”. Na L’Agence, Elsa Gervásio concorda: “No caso de a procura justificar, temos abertura para no futuro contemplarmos” a abertura ao plus size.

Maria Inês chegou a ser uma modelo agenciada pela Glow Models (cujo site parece estar desativado). Mas classifica a experiência como “nula”. “A única vez que me recordo de ter tido alguma hipótese de trabalho por via da agência, enviaram uma mensagem a dar as indicações e que eu iria a um casting para ser uma namorada feia e gorda. A pessoa que lá estava agradeceu a minha presença mas disse que eu era a ‘antítese’ do que procuravam, pelo que não fui escolhida. No fundo acredito que, para a minha agência, gorda é sinónimo de feia, para os parâmetros da sociedade”, explica. Melanie Estrada corrobora: “Nenhum dos trabalhos que realizei até hoje foi através da agência”.

“Mulheres maiores estão sedentas por moda jovem e moderna”

Mas nem só de modelos se faz uma indústria que ainda parece pouco consolidada – ela faz-se sobretudo das mulheres que precisam de comprar roupa e não a encontram. Ao Expresso, Leilane e Cláudia sublinham que em Portugal há “pouquíssimas ofertas” e ainda num estilo “mais conservador”: “Temos que convencer as marcas que as mulheres maiores estão ‘sedentas’ por moda jovem e moderna”.

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No ano passado, o coapresentador do programa americano “Project Runaway”, Tim Gunn, publicava uma reflexão no “Washington Post” em que falava sobre fazer compras com mulheres plus size, uma experiência “horrivelmente insultante e desmoralizadora”. Essa impressão chega a Portugal, e em 2000 levou Emília Martins e Carla Martins a criarem a loja Manual da Moda, em Matosinhos, “como resposta a uma necessidade” de mulheres que definem ao Expresso como “meninas com genes gulosos”. Fartas de recorrer a costureiras, preocuparam-se em “dar prioridade às marcas nacionais (…) desde o tamanho 36 ao 50, podendo chegar, em certos modelos, até ao 54”.

Emília Martins e Carla Martins fundaram a loja Manual da Moda em 2000. No ano passado, criaram a versão online

Emília Martins e Carla Martins fundaram a loja Manual da Moda em 2000. No ano passado, criaram a versão online

d.r.

Associado à loja surgiu em 2014 o blogue com o mesmo nome e já em 2016 a loja online homónima - tudo graças à boa adesão das leitoras e clientes. “Eu acho que Portugal devia analisar o tipo de população que tem e concentrar-se em satisfazer as necessidades”, refere ao Expresso Isolina Martinho, do blogue Armário XL da Iso. “ Normalmente, e pelo que me dizem - e podemos comprovar na altura das promoções - os números médios e grandes são o primeiros a desaparecer...”.

A blogger Isolina Martinho diz que a indústria portuguesa devia “concentrar-se em analisar a população que tem”

A blogger Isolina Martinho diz que a indústria portuguesa devia “concentrar-se em analisar a população que tem”

d.r.

Algumas das maiores cadeias de roupa internacionais parecem ter-se dado conta de que o plus size pode ser mais do que um nicho – recentemente abriu a loja irmã da Mango, Violeta, com roupas para tamanhos maiores. Em Portugal, mais algumas cadeias oferecem opções: exemplo é a C&A, que oferece tamanhos que vão do 34 ao 62. “Os tamanhos grandes são considerados do 46 ao 62, de onde provêm mais de 50% das vendas a nível geral”, detalha ao Expresso Guilhermo Clano, Retail Planner Manager da marca. “[As clientes] adquirem os nossos produtos com frequência, já que muitas vezes não os encontram noutras lojas”.

Leilane e Cláudia deixam um desejo: “Esperamos que os empresários percebam o quanto esta indústria é lucrativa e que o nosso dinheiro vale o mesmo que o das mulheres mais magras”. O balanço de Melanie é claro: “O público esteve muito tempo formatado a ver modelos skinny, e acredito que ainda haja uma certa reticência.” Há trabalho a fazer na indústria: “As agências estão bastante limitadas. No entanto, até consigo entendê-las, porque não existe trabalho para nós. Tudo conjugado, não ajuda. Mas este será um processo lento e gradual, trata-se de mudar mentalidades, e tudo isso leva o seu tempo.”