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Hóspedes de quatro patas

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Quando planear as suas férias, não se esqueça de contemplar as do seu animal doméstico. Não faltam opções de alojamento para os seus amigos de patas e bigodes, repletas de conforto e mimo

Sempre que fica hospedada no hotel, “Lua”, uma cadela Labrador, conhece tão bem os cantos à casa que abre sozinha a porta da piscina. “Lua” é uma das clientes VID — “Very Important Dog” — habituais do Hotel Mais Animais, na Maia, que abriu ainda não fez dois anos. Como os donos viajam muito, começou a pernoitar ali aos três meses e meio, e “já olha para isto como a sua segunda casa”, garante Sara Curvelo, médica veterinária. Os “rapazes e raparigas” que ali passam temporadas são tratados como lordes. O conceito de VID surgiu para aqueles cães que têm um ‘trono’ residente no sofá de casa, e se recusam a ficar numa box como a que existe nos hotéis para cães tradicionais, com maiores ou menores dimensões. Assim, a alternativa criada foi um quarto individual, com nove metros quadrados, sofá, quadros nas paredes, a recriar o ambiente de casa, e webcam ligada 24 horas por dia, que permite ao dono ficar descansado e ir vendo o seu animal (ou “rapaz”, como Sara lhe chama).

Contudo, “o espaço não é de todo o mais importante”, continua a médica. “Todos os cães têm uma hora de tratamento personalizado, e uma vez por semana, uma ida à piscina”. Podem ainda usufruir do terreno, de 4000 m2, para correr à vontade. Neste momento, os meses de julho e agosto no hotel já estão esgotados — são 5 quartos VID (a €26/noite) e 10 quartos standard, a €15/noite. A maioria dos ‘clientes’ são repetentes, e a média de estadia ronda uma a duas semanas. A crise económica parece não ter afetado o negócio, afirma Sara, que acredita que cada vez mais pessoas recorrem a hotéis para deixarem os seus amigos de quatro patas.

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A mesma crise, em 2009, não impediu Maria Irene Reis de mudar de vida e de tentar unir o útil ao agradável. Dona de gatos desde sempre, e conhecedora dos seus hábitos, criou o Hotel dos Gatos, em Grijó, no norte do país, inteiramente a pensar nestes felinos domésticos, tão ariscos em sair do seu ambiente. Trocou a desgastante área financeira por uma nova ocupação, que queria que fosse “também um hóbi”. Com um investimento inicial de 50 mil euros, construiu 24 quartos individuais para gatos no terreno da casa onde vive. “Todos têm cama e comedouro, casa de banho e água engarrafada, mas na verdade os gatos só lá estão à noite, quando dormem”. O restante, passam-no em sofás e nos recreios do primeiro andar do hotel, cheio de objetos para brincar e arranhar. “Do que os gatos hospedados mais gostam é do recreio, que têm arranhadores, telhados... E estão sempre sob supervisão”. Cá fora, quando está bom tempo, há um vasto espaço ao ar livre, com piscina de bolas, como as festas de anos dos petizes sem pelo.

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Os seguros de responsabilidade civil dos animais estão incluídos na diária (de €6/noite na época baixa, e €7,5 na época alta). “Natal, Páscoa e os três meses de verão são alturas de lotação esgotada”, esclarece Maria Irene, que conta ainda com uma forte afluência em feriados e fins de semana. Mas há mais mimos para os ‘Garfields’, como escovagens, banhos e até massagens e sessões de reiki, “em casos de agressividade ou depressão”. “Resulta bastante”, assegura. “Até já há veterinários a indicarem reiki para os animais”. No primeiro ano de hotel, Maria Irene, dona de três gatos, ‘herdou’ outros nove, de pessoas que não voltaram para levar o seu animal. A partir daí, passou a pedir uma caução de €100, e nunca mais voltou a ter o mesmo problema. Até porque agora, relembra, o abandono de animais já configura crime. Para quem não quer que o seu gato saia do próprio ambiente, o Hotel para Gatos também tem serviço de pet-sitting. Assim, os felinos nem sequer saem de casa enquanto o dono vai de férias.

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Quando Sérgio Paiva criou o Hotel Veterinário Monte dos Burgos, no Porto, ao mesmo tempo que a Clínica, há 11 anos, havia muito pouca oferta nesta área. Hoje, com 16 boxes para cães (€15/noite) e 7 boxes para gatos (€11/noite), tem muitos clientes que reservam com antecedência, para garantir vaga. “A partir de junho, começa a ficar difícil assegurar lugar”, conta. As suas boxes têm aquecimento no inverno e ventilação no verão, e quando os animais chegam, trazem os objetos pessoais, para facilitar a adaptação. E já foram vários os casos de cães que regressaram a casa e ficaram deprimidos por terminarem as férias, partilha Sérgio.

Mais a sul, o Jardim Zoológico de Lisboa retomou uma tradição antiga — até ao início da década de 90, tinha hospedagem para cães — e criou o Pet Hotel, em 2012. A dirigi-lo desde o início, António Vidigal conta que o espaço, com 23 boxes para cães, 10 boxes para gatos e alguns espaços para outros animais (roedores, coelhos, chinchilas, catatuas...) também tem lotação totalmente esgotada nos quatro principais períodos de férias escolares (Carnaval, Páscoa, Natal e os três meses de verão). “No caso dos cães, há uma procura muito elevada ao longo de todo o ano, ao fim de semana”, diz o engenheiro agropecuário, que afiança que o Pet Hotel conta cerca de 1500 clientes, 300 dos quais habituais. Aqui, contudo, só se oferece alojamento — não há mergulhos de piscina nem massagens... Os cães passeiam duas a três vezes por dia, num pátio de cerca de 200 m2, mas os gatos, por exemplo, nunca saem das suas boxes individuais, de dois metros quadrados.

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Já na Quinta Monte dos Vendavais, em Cascais, espaço não falta. Tem amplas zonas arborizadas, onde os cães podem escolher vários parques de passeio. As boxes para os melhores amigos do homem têm seis a oito metros quadrados de área coberta, bebedouro automático e podem ser aquecidas no inverno (€14,5/noite, em época alta). Para os gatos, confinados ao seu espaço durante o dia, as boxes são aquecidas, têm música ambiente, alcofas em patamares e possibilidade de varanda (€13/noite, em época alta). Há lugar para muitos: são 138 boxes para cães e 54 para gatos. A piscina é outro dos pontos fortes da quinta, que tem “sempre ocupação ao fim de semana, e é popular ao longo do ano inteiro”, assegura Patrícia Duarte, médica veterinária que ali trabalha desde 2012. A melhor garantia de que os animais gostaram da estadia é a alegria com que reconhecem o espaço, numa segunda hospedagem. Quem usa a expressão “vida de cão”, vai provavelmente repensá-la.