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E se João Paulo II percebeu mal o terceiro segredo de Fátima?

Fátima transformou-se numa referência absoluta para João Paulo II

Rui Ochôa

O autor de um novo livro sobre Fátima, que foi ao festival Fronteira discutir a pós-verdade, diz ao EXPRESSO que João Paulo II terá entendido mal o terceiro segredo de Fátima ao ver no seu drama pessoal a consumação da profecia

Luís M. Faria

Jornalista

Quando foi vítima de um atentado a 13 de maio, o Papa João Paulo II atribuiu à Virgem Maria o facto de ter sobrevivido. No ano seguinte, veio a Fátima agradecer, e soube-se depois que vira no seu drama pessoal a consumação de uma parte do terceiro segredo de Fátima, então ainda não relevado publicamente. O segredo fala de um bispo vestido de branco (o Papa) que é morto a tiro.

João Paulo II, no seu próprio entendimento, só não morrera porque a Virgem desviara a bala fatal. Mas nem toda a gente ficou convencida com essa interpretação do segredo. E se o que é profetizado no segredo ainda estivesse por acontecer? Se houvesse um Papa, algures no futuro próximo ou longínquo, condenado a morrer vítima de um atentado a tiro? Essa é a ideia que dá título ao novo livro de João Céu e Silva, jornalista do DN: "Fátima - a profecia que assusta o Vaticano" (ed. Porto Editora).
Quando lhe perguntamos o que motivou a obra, rapidamente se torna claro que a sua perspetiva não é a de um místico. Fala de uma série de livros sob o título comum "O ano que mudou Portugal", na qual publicou já obras sobre 1961 e 1975.

No caso de 1917, explica, a Porto Editora pediu-lhe que fizesse sobretudo Fátima. O livro inclui uma cronologia com eventos de outro género, mas centra-se de facto naquilo que o autor considera um dos grandes acontecimentos do século vinte. "Não é um livro tradicional. Fi-lo como uma reportagem. A maioria dos livros são a favor ou contra, esgrimem argumentos. Penso que hoje em dia isso já não esta na ordem do dia. Já não se põe em causa".
O livro aborda múltiplos aspetos, sem esquecer a questão bastante terrestre das opacas finanças do Santuário. O facto central, porém, continua a ser a fé. "Desde o princípio, muitos religiosos vieram ver Fátima", continua. "Hoje há seis milhões de visitantes, na sua maioria peregrinos. O livro faz o histórico, diz como tudo aconteceu”. O autor consultou a documentação crítica de Fátima, mergulhou na bibliografia para perceber e explicar. Na Cova da Iria, diz, “não havia quase ninguém, apenas algumas famílias. Na primeira aparição, só estavam os pastorinhos. A igreja de início não quis ligar-se àquilo que aparecia em Fátima. Naquela época, aliás, havia dezenas de aparições em todo o país. O tempo de guerra era propício, e com a República a igreja tinha sido colocada à margem".
Em suma, explica Céu e Silva, "os padres acolhiam de bom grado qualquer situação sobrenatural. Fátima foi a única bem-sucedida naquele ano”. O livro termina dizendo que excedeu todas as expectativas. “Hoje toda a gente lá vai, incluindo presidentes e primeiros-ministros. O selecionador nacional, quando ganhou em Franca, foi a Fátima agradecer. Nenhum português questiona o que é Fátima. Há quem olhe para ela com desdém, e pronto".
Quanto a saber o que pensar das aparições, é com cada um. O livro contém entrevistas separadas com vários atuais responsáveis da Igreja, incluindo o reitor do Santuário, que refere "cinco pretensas aparições e uma certa (o Milagre do Sol)"; o bispo Carlos Azevedo, para quem se deve falar em visões e não em aparições; o padre Mário Oliveira, há muito um contestatário de Fátima, e outros para quem é duvidoso que a Virgem tenha aparecido em Fátima (ou acham expressamente que não). Em contraponto, nota Céu e Silva, o teólogo espanhol Javier Monserrat diz que "em questões do sobrenatural tem de se aceitar. Muita gente tem um confronto com o divino".

João Céu e Silva lembra que Fátima sempre foi olhada com desconfiança. "Depois os portugueses passaram a respeitar Fátima e a ir lá. Fátima foi usada como boia de salvação durante a guerra colonial, por exemplo". Logo em 1928, no 13 de maio, tinham lá estado mais de cem mil pessoas. "A multidão era tão grande que o Osservatore Romano fala da quantidade. Os portugueses encontraram ali uma das poucas formas de fazerem promessas. A própria azinheira ficou depenada, para as pessoas levarem relíquias".
Embora vista como um fenómeno popular, Fátima é visitada por muita gente das elites. Quaisquer que sejam as suas opiniões, os responsáveis da Igreja, de modo geral, nada fazem para dissuadir a devoção, seja em relação ao significado dos segredos - em especial o terceiro - seja no que respeita aos milagres alegadamente observados pelos pastorinhos.

Céu e Silva afirma que "os grandes teólogos nunca se preocuparam com Fátima" e que a Igreja em si não se preocupa muito com aparições, só as reconhecendo em casos extremamente raros. Mas nota: "Mal os papas deixaram de estar fechados no Vaticano, vieram a Portugal prestar vassalagem a Nossa Senhora. Não vêm por acaso. Vêm por causa do terceiro segredo, por terem algum receio de serem eles os visados. A primeira coisa que o Papa João Paulo II faz, logo que acorda na clínica Gemelli após o atentado, é mandar vir o segredo. Ratzinger faz o comentário, e Francisco consagra o seu pontificado a Nossa Senhora de Fátima, uma semana depois de ser eleito. E pede para a imagem de Nossa Senhora ir ao Vaticano".

Distinguir mentira e fé

Por acaso ou não, Céu e Silva abordou estes temas numa recente discussão sobre os limites da verdade (ou da falsidade). Realizado em Castelo Branco, no contexto do festival literário Fronteira, era um debate sobre o tema, agora na moda, da pós-verdade e do papel da ficção. Embora o autor tenha lá falado do seu livro, diz que não existe nenhuma conexão entre Fátima e a pós-verdade. Fiel a distinções muito relevantes para o jornalista que é, esclarece que a pós-verdade tem a ver com mentira, enquanto Fátima tem a ver com fé.

O Fronteira este ano restringiu as suas sessões públicas a um único dia - basicamente, uma única tarde longa - devido à concorrência de outros eventos culturais nos dias vizinhos de um jogo de futebol potencialmente decisivo no campeonato nacional, que limitou a possibilidade de debates à noite. Em contrapartida, terão sido ampliadas as idas às escolas, a outra componente importante deste tipo de festivais.
Ao debate sobre pós-verdade, no qual participaram Fernando Pinto do Amaral e Jaime Rocha, seguiu-se um sobre o papel dos escritores como eventuais líderes, onde Rui Cardoso Martins recordou que "algumas das melhores expressões do século XXI foram inventadas por idiotas" (ele deu como exemplo os 'factos alternativos'). Depois houve um debate sobre a razão que o público tem ou não e uma entrevista de vida com Álvaro Laborinho Lúcio, o ex-magistrado e diretor do CEJ que se tornou presença constante nestes festivais. Laborinho evocou o tempo da sua juventude na Nazaré, quando ia estudar diariamente em Alcobaça, a 12 kms de distância de casa. Como a carreira que apanhava ia acabar em Torres Novas, esta cidade tornou-se durante algum tempo a sua utopia pessoal.
A última mesa do Fronteira foi uma conversa com os atores Vitor de Sousa e Lídia Franco, onde não faltaram as reminiscências teatrais e televisivas. Antes, no debate sobre a eventual razão do público, tínhamos ouvido uma lembrança diferente. O autor Miguel Miranda falou do momento em que finalmente sentiu que se tinha tornado um escritor. Foi quando a sua editora o levou à Feira de Frankfurt, a mais importante no mundo editorial. A certa altura, um polícia foi ter com ele e perguntou: "Miguel Miranda?". O escritor respondeu que sim, surpreendido por a sua fama ter chegado tão longe. Então o polícia estendeu-lhe o B.I. que ele tinha deixado cair...