Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

500 anos de Páscoa

Mapa do plano para o Dia D, ou seja para o desembarque na Normandia em 1944

FOTO DR

Episódios passados nos dias de Páscoa, desde 1517 até... 2017, dia que este ano ainda não chegou mas para o qual se prevê, além das improbabilidades, uma greve dos trabalhadores das empresas de distribuição, comércio, escritórios e serviços “pela conciliação da vida familiar com a profissional e pelo trabalho digno”

1967, 26 de março

Foi um domingo ansioso pela "promessa" anunciada para a segunda-feira seguinte. A notícia do desassossego era a possibilidade de se dar a "maré do século". O mar ia descer, dizia-se, ao "nível zero" das cartas hidrográficas e pôr a descoberto sepulturas pré-históricas no Havre, vestígios de florestas da era terciária, destroços dos 12 navios do almirante Anne Hilarion de Costentin, conde de Tourville, de 50 anos, afundados em 1692 pelos ingleses e o "cemitério marítimo" do desembarque das tropas aliadas em 1944, ao largo da praia de Arromanches, na Normandia.

E confirmou-se parcialmente, embora em Portugal "tenha sido uma desilusão", aqui "não assumiu proporções dignas de nota", mas, por exemplo, no Mont Saint Michel, em França, milhares viram as águas recuar cerca de dez quilómetros. O fenómeno acontece de 18 em 18 anos, mais ou menos. A próxima maré está prevista para 2033. A última foi em 2015 e atraiu aos locais do costume milhares de curiosos (tal como em 1967).

O general Fernando Tamagnini, em 1917

O general Fernando Tamagnini, em 1917

d.r.

1917, 8 de abril

Nesta Páscoa, o general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva escreveu no seu Diário de Campanha: "Chegou a comunicação oficial dos ingleses da morte do soldado e dos ferimentos dos outros. Afinal, não foram estilhaços da granada que o mataram. Caiu sobre o abrigo em que os homens estavam uma granada que fez abater o tecto e o soldado ficou com a cabeça esmigalhada e os outros, feridos", apontou, acrescentando: "Aquele pobre soldado que estava abrigado à retaguarda morre esmagado por um desabamento! C'est la guerre! [É a guerra!]" Tamagnini de Abreu, nabantino de 61 anos, comandava a Divisão de Instrução Corpo Expedicionário Português, mobilizada em Tancos para lutar ao lado dos Aliados contra os alemães, referia-se à morte do soldado António Gonçalves Curado, natural da Barquinha, a primeira vítima da I Guerra Mundial do segundo CEP que se encontrava há pouco mais de um mês na Flandres.

1867, 21 de abril

Não importava ser o dia em que se comemora a ressurreição de Jesus Cristo, havia que conquistar o ponto estratégico na margem esquerda do rio Apa. Vivia-se o maior conflito armado internacional na América do sul -- Guerra da Tríplice Aliança ("Guerra de la Triple Alianza") -- que envolvia o Brasil, a Argentina e o Uruguai, unidos contra o Paraguai. O exército brasileiro, comandado pelo coronel Carlos de Morais Camisão, de 46 anos e que morrerá de cólera no mês de maio seguinte, resolveu avançar pelas linhas paraguaias e tomar conta do Forte de bela Vista. A tropa "inimiga" retirou-se, antes, porém, incendiou a aldeia e da "sólida estacada de madeira". A guerra, iniciada em 1864, acabaria em 1870, e aquele território pertence agora ao Estado de Mato Grosso do Sul. Neste dia, em Portugal, nasceu o compositor, maestro e empresário Carlos Maria Ferreira Calderon que desde cedo se dedicou à música, tendo frequentado o conservatório, em que obteve distinção em todos os exames. "Iniciou a sua carreira de compositor com música religiosa e depois musicou bastantes peças teatrais que obtiveram grandes êxitos", conforme se lê no catálogo da Coleção de Miscelâneas de Teatro, publicado em 1974 pela Universidade de Coimbra. Calderon foi também agente exclusivo em Portugal da Transoceanic Trading Company (marca de discos Odeon).

Retrato de William Carr Beresford, por sir William Beechey em 1815

Retrato de William Carr Beresford, por sir William Beechey em 1815

d.r.

1817, 6 de abril

O marquês de Campo Maior -- general inglês e marechal general português -- não quis esperar por segunda-feira para a tornar pública, até porque os governadores do reino, em nome de João VI a viver no Brasil, tinham assinado na véspera a portaria. A Ordem do Dia do domingo de Páscoa, emanada nesta data pelo secretário de Lord Beresford, José Vital Gomes de Sousa, referia-se ao pagamento imediato soldos dos oficiais destacados nos regimentos, isto enquanto se não regulava "de um modo fixo o sistema mais conforme com o espírito do alvará de 21 de fevereiro de 1816" (regulamento de ordenanças), portanto, há um ano que se esperavam as regras de funcionamento... "Manda El-Rei Nosso Senhor que na Contadoria Fiscal da Tesouraria Geral das Tropas se formalize uma relação conforme ao modelo designado no dito alvará, que compreende todos os Oficias destacados nos Corpos a que pertencem, que atualmente se acham aqui [Quartel General do Pátio do Saldanha] residentes, ou seja em diligência, ou frequência das aulas. extraindo a dita relação à vista dos assentamentos, que devem ter os referidos oficiais, habilitando-se estes a receber com os atestados do estilo. E que aos Oficiais das Brigadas de Artilharia se faça o pagamento por meio de relações, que os referidos Chefes de cada Brigada formarão, cingindo-se ao disposto no parágrafo doze do mencionado alvará a respeito dos Corpos do Exército". No dia 2 de maio, sairia finalmente a portaria que regulava o pagamento na tesouraria das tropas.

1767, 19 de abril

Satisfeito, na certa, o governador da Baía resolveu aproveitar este domingo de Páscoa para enviar uma missiva ao secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Francisco Xavier Mendonça Furtado, irmão do marquês de Pomba, sobre a execução da carta régia de 30 de junho de 1766 nos seus domínios, isto é, obrigar a que todos os ourives abandonassem a profissão, o rei, através do seu "braço direito" Sebastião de Carvalho e Melo, proibira o ofício no Brasil, país à data sob o domínio português. Dizia António Rolim de Moura Tavares, primeiro conde da Azambuja, em breve seria nomeado vice-rei do Brasil e governador do Rio de Janeiro, que, pela sua parte, tudo fora cumprido. Informava, portanto, estarem já incorporados nas tropas “todos os aprendizes e oficiais de ourives, brancos e pardos forros, que havia na cidade". E acrescentava: “Fora desta Cidade, principalmente na Villa da Cachoeira e de Santo Amaro, me consta também haver alguns Ourives, os quais hei de mandar notificar, para virem fazer os termos, ordenados por S. M., depois de se lhe haver demolido as forjas e sequestrado os instrumentos de oficio". A ordem real para o Brasil não se restringia aos ourives, proibia ainda os fiadores de ouro, seda e algodão tecido.

1717, 28 de março

Páscoa sem acontecimentos de monta. Era papa Clemente XI, desde 1700, o chamado "pontífice da conciliação". Durante o "reinado", que durou até à sua morte em 1721, com 71 anos, elevou a capela real a basílica patriarcal de Lisboa, em 1716, ficando a antiga diocese dividida em duas até 1740, ano dai reunificação, reconhecendo assim o auxilio prestado pela Armada Real Portuguesa aos Estados Pontifícios, contra os turcos, que o levou à vitória na Batalha de Matapão.

Jan Marek Marci, médico e cientista

Jan Marek Marci, médico e cientista

d.r.

1667, 10 de abril

Páscoa triste em Praga, República Checa. Joannus Marcus Marci ou Jan Marek Marci, médico, cientista, antigo reitor da Universidade de Praga, a maior e mais antiga do país, foi fundada em 1348, morreu neste dia, aos 72 anos. Homem notável, nascido em Landskron, na Boémia, filho do secretário deste distrito agora austríaco, licenciara-se em medicina nesta escola no ano de 1625. Ainda começara a estudar para jesuíta, mas abandonou a carreira religiosa antes do noviciado, e tornou-se um grande defensor da independência da universidade face ao domínio dos jesuítas que queriam controlar as faculdades de direito e de medicina. Curiosamente, quando estes tomaram o poder pretendido e renomearam a Universidade com o nome de Carlos Fernando, MArci seria nomeado reitor, isto em 1662. Anos antes, também batalhara contra os suecos que atacaram Praga em 1648, no âmbito da Guerra dos 30 Anos, mas ficaram-se por saquear o castelo. Em 1658, foi agraciado com o grau de cavaleiro do Sacro Império Romano-Germânico, aliás, Marci foi médico pessoal dos imperadores Ferdinando III e de Leopoldo I. Diz-se que pouco antes deste dia, teria sido admitido na Companhia de Jesus...

1617, 26 de março

Diego de Silva y Mendoza ou Diogo da Silva, marquês de Alenquer e duque de Franca Vila, como o designavam passa a primeira das suas quatro páscoas em Portugal. Passa-a em Elvas, onde chegara "na véspera da Páscoa de Flores" já como novo vice-rei de Portugal. Só no dia 1 de abril, se instalaria em Lisboa, principal cidade do reino dual. O monarca Filipe III de Espanha e II de Portugal nomeara o filho filho do português Rui Gomes da Silva, Príncipe de Éboli, e de Ana de Mendoza y La Cerda para um mandato que foi mais curto do que se previa. O seu Governo criou granes descontentamentos e, em 1621, o rei morria e o vice-rei seria substituído. Talvez não tivesse muito jeito para político, já que foi um eminente poeta espanhol. Como se refere numa nota a propósito do estudo da expressão "Páscoa Florida", este ano de 1617 teve por dominical a letra A, por número áureo o 3 e Epacta XXIII, o que significava, feitas as contas, que a Páscoa caiu a 26 de março.

1567, 30 de março

Morreu o pintor Domenico Brusasordi, aos 52 anos. Italiano de Verona, é filho de um outro pintor, Agostino Riccio, do qual, curiosamente, não restou qualquer obra para ser apreciada. Artista do Renascimento, enveredou pela corrente maneirista, arte que atingiria a sua maturidade no século seguinte. "Este estilo, nascido em Itália, marcou a transição da linguagem renascentista para uma nova estética reinterpretativa do classicismo, refletindo uma conjuntura de mudança social, política e religiosa", lê-se numa entrada da Infopédia. "O Maneirismo é um movimento de elites, pois as obras de arte são pensadas e produzidas para o consumo e desfruto particular dos mais cultos e mais abastados, atraídos pelo colecionismo emergente", acrescenta a mesma em "A Arte dos Séculos XVII e XVIII". Ao contrário do sucedido com o pai, em cujo ateliê se formou, Brusasordi deixou inúmeras pinturas e uma prole de filhos, todos eles pintores, dos quais se destacaram Felice Ricco, Giovanni Battista e Cecilia Brusasordi.

S. Vicente, a pintura cujo aparecimento nos Estados Unidos causou enorme surpresa

S. Vicente, a pintura cujo aparecimento nos Estados Unidos causou enorme surpresa

d.r.

1517, 12 de abril

Carlos de Lisboa, descendente de flamengos, escolheu este dia para fazer a sua profissão de fé, e fê-la no Mosteiro de Santa Maria do Espinheiro, em Évora, onde . Pintor afamado na época, solicitado pelo rei D. Manuel I, tornou-se lendário. Falecido em 1540, voltou a despertar atenções mais fortes 418 anos depois quando o Metropolitan Museum of Art, nos Estados Unidos, recebeu por herança duas pinturas sobre madeira. A que representava São Vicente, e tinha pertencido , terá sido reconhecida pelo conservador do museu que logo a fotografou e enviou a um amigo português. A pintura, antes pertencente a uma cidadã norte-americana, foi atribuída a Frei Carlos por Luís Reis Santos, professor na universidade de Coimbra. Em 2006, as duas tábuas que constituem a pintura, cuja descoberta foi grande uma surpresa, estiveram expostas no Museu Nacional de Arte Antiga, que as comprou, integradas numa exposição "Frei Carlos e o Belo Portátil" que reuniu 20 obras do pintor luso-flamengo mais poético. "Tem essa característica dos bons pintores flamengos, como Van Eyck e Roger Van der Weiden: consegue um apurado realismo da forma e simultaneamente uma idealização poética. Junta o real com o ideal", na opinião do comissário da mostra de Lisboa.O artista religioso "tem uma produção em circuito fechado. Terá só feito obras para os conventos da sua ordem, a dos monges de São Jerónimo", segundo o comissário da mostra, segundo José Alberto Seabra Carvalho que descreve a pintura ainda presente no MET desta forma: "Representado como um jovem esbelto, este São Vicente, que enverga o hábito próprio dos diáconos ricamente adereçado, tem na mão esquerda a palma do martírio e o livro fechado, magnificamente encadernado com cantos e fechos em metal e, na direita, a grande nau miniaturizada. No canto inferior esquerdo do painel, algo mais insólito: um caracol fora da casca, símbolo de renascimento, não invulgar na iconografia da Ressurreição de Cristo ou em imagens funerárias, provável alusão, neste caso, ao mártir que, com o sacrifício da própria vida, alcança a vida eterna na corte celeste".

  • Os guardiães muçulmanos do túmulo de Jesus

    O local que abriga o túmulo de Cristo é, desde há séculos, protegido por duas famílias muçulmanas. Os Joudeh guardam as chaves do Santo Sepulcro e os Nusseibeh estão encarregados de abrir e fechar a porta exterior do templo. Ao Expresso, Adeeb Joudeh explica todo o ritual