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As discotecas são o maior ponto de interesse. A viagem inclui cartões de entrada livre e bebidas grátis para todas as noites

rui ochôa

Na semana em que tanto se tem falado dos desmandos feitos em viagens de finalistas, recuperamos dos Arquivos Expresso a reportagem que publicámos na revista do Expresso de 29 de março de 2008, na qual se contava o que 15.000 mil portugueses foram fazer a Lloret de Mar: o que, há muito, fazem os finalistas - gozar uns dias longe dos pais. Já então se mostrava como havia mais álcool e sexo, mas a maior novidade não estava no que os jovens faziam, mas no imenso negócio que roda em torno deles

Joel denuncia a sua origem minhota logo à primeira frase. Está no meio da avenida principal, mãos nos bolsos e olhar atento a quatro mulheres que, de saia do tamanho de um cinto e saltos de agulha, tentam impingir folhetos para uma «noite de diversão». O alvo são centenas de estudantes ensonados saídos aos magotes de camionetas, que depois de horas de viagem os despejam para o primeiro embate com Lloret de Mar, a localidade balnear espanhola situada uns 60 quilómetros acima de Barcelona.

“Descobri isto no ano passado”, diz, ao lado das mulheraças - três brasileiras e uma húngara que trouxe diretamente da Maia e que, agora, ombro a ombro com o empresário, ainda tornam mais pequeno o seu metro e meio de altura.

O empresário Joel

O empresário Joel

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«Isto» que Joel, de Guimarães - ou Joenski, para o mercado espanhol - descobriu é «um negócio que dá muito dinheiro». Uma espécie de fórmula mágica que junta a fome com a vontade de comer e cria um mundo quase perfeito. Os estudantes portugueses querem uma viagem de finalistas com tudo a que acham que têm direito, e Joel - como outros - tenta dar resposta e, no mesmo lance, «ganhar algum».

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O minhoto nem trabalha nisto, ganha a vida em Guimarães às voltas com «máquinas de precisão, daquelas que fazem com que as camisolas da Nike não tenham costura». Mas, aos 25 anos, descobriu que quer mais da vida e tocou de arranjar um hóbi que lhe abra um futuro risonho. Juntou as quatro raparigas e criou as «chearleaders», uma espécie de «entertainers» para todo-o-terreno de discoteca. Criou laços com dj portugueses e passou a trazê-los para Espanha para diversificar a oferta da noite. Este ano, para a sua entrada no mercado de Lloret e das viagens de finalistas, juntou dois disc-jockeys, as «chearleaders» e Merche Romero e vendeu-os em pacote a uma discoteca que precisava de programas para a «semana dos portugueses».

Manolo, o responsável do espaço, diz que «correu bem», mas os estudantes são gente movediça, não param num só sítio e pouco se liga a esta oferta «cultural», tão semelhante à existente na porta ao lado e na outra a seguir. E na seguinte.

As cheerleaders, três brasileiras e uma húngara, que o ‘empresário’ Joel trouxe da Maia para animarem a noite dos estudantes

As cheerleaders, três brasileiras e uma húngara, que o ‘empresário’ Joel trouxe da Maia para animarem a noite dos estudantes

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A verdade é que, no dia da chegada, nem as pernas bem à mostra das «chearleaders» chegavam para animar os estudantes. Derreados por uma viagem que chegou a demorar 26 horas, desciam das camionetas vergados ao peso do sono e das malas que arrastavam pela avenida principal até aos hotéis. A rua ficou cheia de carrinhos de bagagem e estudantes portugueses a precisar de descanso. Mas, aos 17 anos, a recuperação é rápida - e uma hora depois, já um grupo de Ermesinde ocupava uma esplanada junto ao mar, derrubando copos de cerveja e fazendo brindes em série a cada transeunte que passasse. Eram dez e meia da manhã.

Comerciantes esfregam as mãos

A chegada destes portugueses é bem vinda e esperada por comerciantes que esfregam as mãos e fecham os olhos, enquanto vendem bebidas alcoólicas de tamanho extralarge sem pedir bilhete de identidade, como manda a lei. Para a estância balnear, a chegada dos estudantes representa a quebra dos longos meses de jejum do Inverno e, nesta semana de invasão lusitana, reabrem-se cafés e hotéis em busca de receita certa. «Fomos a uma loja comprar baton do cieiro e o homem disse que não tinha isso, mas sim todo o álcool que precisássemos», diz Maike Lopes, de 17 anos, estudante de Línguas e Literaturas em Lagos. Veio para Lloret divertir-se e os pais «não puseram limites nem condições».

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Com mais quatro amigas, faz parte do pequeno lote de privilegiadas que viajou de avião, passando a dura prova da longa viagem de camioneta. Eram mais 80 euros e a família pagou o extra, como avançou com os 375 euros necessários para dez dias de estada com pensão completa. Melhor ainda, o pacote inclui o desejado «golden card» de acesso livre a discotecas - com o sugestivo nome de «Lloret non-stop» e que inclui o bónus extra de 35 bebidas grátis.

Maike, como Jessica, Patrícia, Andreia e Mafalda, sai à noite desde os 14-15 anos. Os pais autorizam, sabem que as filhas bebem e, desde que não sejam devolvidas a casa em estado impróprio, toleram e deixam passar. Avançam mesmo com dinheiro e com cartão de crédito para o que vier a ser necessário durante a estada.

O “emplastro”, que veio a Lloret pela mão de uma das agências de viagem

O “emplastro”, que veio a Lloret pela mão de uma das agências de viagem

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As contas de quase todos os estudantes são semelhantes: gastam tanto pela estadia, viagem e hotel como com o dinheiro de bolso para os extras E, claro, esses extras começam logo pelo álcool. Logo à chegada, a primeira paragem de muitos estudantes foi em lojas e supermercados, de onde recolheram vasilhame suficiente para abrir um negócio de bebidas. De regresso ao quarto de hotel, faziam-se as misturas até que a hora H de saída para a primeira noite fosse atingida. Há um clima de liberdade total. Os estudantes - muitos deles pela primeira vez longe dos pais - sentem-se à solta, sem professores ou adultos a acompanhá-los e com uma viagem que nem sequer tem o aval da direção das escolas.

A semana mais louca do planeta

Prometiam as agências que seria «a semana mais louca do planeta» e os estudantes - únicos interlocutores no negócio - acreditaram e vieram prontos para tudo. O que inclui bebedeiras, «curtes», sexo e convívio. «Tudo o que vier por ascendência», diria uma das raparigas de Lagos. E vem muito, como a organização aprendeu com anos de experiência. Tanto que, agora, os estudantes pagam mais um euro de diária nos hotéis, para cobrir a presença de dois seguranças permanentes, que fazem a ronda noturna, evitando distúrbios, vandalismos e roubos. Da equipa de piquete dos guias de viagem - que estão 24 horas na rua - fazem também parte dois enfermeiros, que circulam num carro identificado com uma cruz vermelha.

Na avenida principal há discotecas porta-sim-porta-sim. Os excessos do álcool são visíveis: só na primeira noite houve 15 comas

Na avenida principal há discotecas porta-sim-porta-sim. Os excessos do álcool são visíveis: só na primeira noite houve 15 comas

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Luís e Ricardo não são bem enfermeiros. Estudantes de Psicologia Criminal, um deles com um curso de primeiros socorros, servem para dar as primeiras assistências, chamar ambulâncias e servir de tradutores perante as autoridades espanholas. Acodem casos tão diversos como os excessos de álcool, os cortes, as intoxicações alimentares e febres. Mas também os esquecimentos de última hora. Algumas raparigas chegam, de manhã, aflitas com o síndroma do «day after» e à procura da pílula do dia seguinte. Ao terceiro dia de estadia, um grupo de cinco esperava resposta.

Pílula do dia seguinte

«Há muita falta de informação e facilidade no acesso ao medicamento», diz Luís. Algumas estavam a tomar a pílula anticoncecional, mas não queriam correr riscos. «Não ouvem o que lhes digo», não querem saber dos efeitos secundários, vão à farmácia e compram. «No ano passado, esgotaram as pílulas do dia seguinte em Lloret», diz Luís. E apesar de a lei tornar obrigatório o encaminhamento para uma consulta no posto de saúde, antes da venda desta «bomba» de emergência, o certo é que, também aqui, os olhos se fecham. Lloret está nas mãos dos portugueses.

rui ochôa

Logo na primeira noite, foram 15 os comas alcoólicos que deram entrada no hospital. Ainda não eram onze horas, à frente de um dos hotéis da avenida principal, um grupo de raparigas gesticulava e gritava, enquanto outra, inanimada no passeio era agarrada pelos cabelos por uma amiga, que lhe dava estalos na cara, sem qualquer efeito. «Ela não come nada», diz uma miúda na cara do polícia Lopez, que compunha as luvas fluorescentes enquanto pedia calma. «Dá-lhe duas tortillas e aspirinas e passa», diz o polícia, enquanto se esperava pela ambulância. A miúda, no passeio, parecia uma figura de cera.

O guarda, juntando os dedos, explicava como casos daqueles eram o pão nosso de cada dia. Só nessa noite, já lhes tinha perdido a conta - e é igual ao litro se eram portugueses ou não. «Son crios borrachos, non tienen nacionalidad.» São iguais aos outros, que vomitam em pleno passeio, saem aos «esses» das discotecas, brancos como a cal das paredes.

Na rua, a recitar Pessoa de cor

Mais adiante, um grupo eufórico de São Pedro do Sul cantava e saltava, enquanto David Teixeira, apresentado como «um génio» e média de 18 a Ciências, recitava de cor passagens de Fernando Pessoa. A rua é deles até de manhã. Dos portugueses, claro. E para que dúvidas não restassem, o quadro é completado com Fernando Jorge da Silva Santos, o «emplastro» do Futebol Clube do Porto. Tem 37 anos e a sua fama resulta do dom único de ser atraído como um íman para todas as câmaras fotográficas e de imagem que lhe surjam num raio de cinco quilómetros. «Um golpe de génio», confessa Miguel Nicolau, um dos responsáveis da SporJovem, a empresa líder de mercado no negócio das viagens de finalistas.

A invasão portuguesa dura cinco dias, durante os quais Lloret quebra o longo jejum de inverno, reabrindo hotéis e restaurantes

A invasão portuguesa dura cinco dias, durante os quais Lloret quebra o longo jejum de inverno, reabrindo hotéis e restaurantes

rui ochôa

Azar, porque a ideia partiu de Nuno Macedo, da concorrente Mundo Jovem, outra das agências que disputa taco-a-taco o mercado de Lloret de Mar e a quem todos os outros tiram o chapéu depois de verem o sucesso do «emplastro». Com uma camisola da agência vestida e olho em qualquer telemóvel ou máquina fotográfica que exista nas redondezas, Fernando avançava implacável e exigia ficar em todos os retratos. Não restam dúvidas de que nos álbuns de fotografia de quase todos os 15 mil estudantes que passaram este ano em Lloret haverá um anúncio subliminar e, claro, à borla...

Target apetecível, profissão de “desgaste rápido”

«Este é um target muito apetecível, e muitos aproveitam esta oportunidade de negócio», diz Filipe Paulino, colega de Miguel Nicolau na SporJovem. Ambos entraram nesta carreira depois de uma viagem de finalistas passada em Lloret de Mar. No ano seguinte, foram convidados a voltar, a captar associações de estudantes, a acompanhá-los e a recolher dividendos. A proposta foi tão tentadora que mudaram de agulhas no seu projeto de vida, alteraram o percurso académico e aqui estão como profissionais encartados.

Os anos vão-lhes pesando nas diretas, nas poucas horas de sono e nas andanças contínuas pelos hotéis, para evitar problemas nos cinco dias que duram as viagens de finalistas. «Costumo dizer que é uma profissão de desgaste rápido, como a dos futebolistas», diz Filipe Paulino, agora responsável pela delegação do Norte da SporJovem.

130 autocarros e uma equipa de cem pessoas

O dono da agência, Orlando Sagaz Pinto, também está no terreno, ou não fosse esta semana dos estudantes em Lloret o ponto alto do seu negócio. Orlando desfia números espetaculares: só a sua agência trouxe sete mil estudantes, mais de 130 camionetas, uma equipa de cem pessoas e doze carros. Um sucesso, com sabor a pouco. «Sentimos, pela primeira vez este ano, que há crise em Portugal», diz Orlando, rodeado por três telemóveis a partir dos quais controla as operações. «Só no ano passado paguei 4800 euros de roaming. Este ano distribuí telemóveis espanhóis.»

O negócio das viagens estudantis é próspero, mas «atingiu um limite de crescimento», diz Orlando. Não cabem mais do que 20 mil jovens numa só semana nesta localidade e há que encontrar alternativas. «É difícil. Não há muitos Llorets por aí», com preços baixos, muitas camas e disponibilidade para abraçar de uma assentada esta invasão de jovens, dar-lhes muitas discotecas, noites em branco e bar aberto.

Um milhão de euros, um “ótimo negócio”

Nos próximos anos, porém, manter-se-á este destino - até porque «está na moda e é o que eles pedem» -, mas já há ideias de explorar um mercado ainda virgem: as «viagens de finalistas de quarto e nono anos». Os programas «serão diferentes», explica Filipe Paulino, mas é o futuro. Está na mira reduzir para os dez anos o target dos clientes e relançar as perspetivas do negócio.

A morte de Lloret está anunciada, mas não é para já. A moda não despegou dos estudantes, que reduzem a categoria de «irrisórios» os outros destinos propostos pelas agências. Mas há mais outra razão de peso: Orlando tem local cativo nos próximos três anos e pretende rentabilizar o investimento feito. Assume que fez um «ótimo negócio», reservando a maior discoteca local, com direito às receitas de uma semana de entradas por quatro anos seguidos. Pagou um milhão de euros pelo direito de utilização das semanas de finalistas até 2011. Quando se vê - todas as noites - os estudantes colados às paredes em longas filas que esgotam as três mil entradas de lotação da discoteca Colossos, percebe-se que não está ali para perder.