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Será que chegou a altura de dizermos adeus ao Twitter?

As críticas ao Twitter não são novas – os poucos caracteres, as ofensas discriminatórias e os anúncios que interrompem a cronologia são queixas recorrentes. Para combater tudo isto, chegou o Mastodon – que é quase o mesmo que dizer o Twitter 2.0, uma plataforma alternativa que copia as partes boas e corrige o que irrita os utilizadores (pelo menos é o que anuncia). E tem-se dito que todos os miúdos “cool” estão a mudar para lá

Uma confusão frenética de mensagens, misturadas com screenshots e longas listas de textos curtos, numerados, que tentam concluir uma ideia ou raciocínio. Muitos, muitos pequenos textos sobre Trump – mas também muitos ataques, piadas consideradas ofensivas por boa parte dos utilizadores, conflitos sobre o que é ou não aceitável e um mar de trolls virtuais. Anúncios, muitos anúncios. E cronologias que deixaram de ser cronológicas, tal como aconteceu no Facebook e no Instagram: bem-vindos ao Twitter versão 2017.

Esta é a descrição do que o Twitter é hoje, modificado em boa parte por interesses comerciais e a necessidade de fazer dinheiro numa altura em que as redes sociais se criam à velocidade da luz. Mas e se todos esses problemas pudessem ser resolvidos por uma plataforma só – uma plataforma quase como o Twitter, com o aspeto e os ícones do Twitter, mas sem o frenesim, os ataques, os trolls, os anúncios (e, já agora, que permitisse escrever um pouco mais do que 140 caracteres por mensagem)?

Tanto se falou nos últimos tempos dos inúmeros problemas do Twitter, a maioria dos quais enunciados nos primeiros parágrafos, que alguém pegou na ideia e fez isso mesmo: uma nova (espécie de) rede social cuja base é sobretudo imitar tudo o que é bom no Twitter e corrigir o que é mau, chamando para lá – para o Mastodon – os utilizadores que estão fartos do símbolo do passarinho azul (no Mastodon diz-se, como piada, que quando o número de utilizadores atinge um novo pico já se sabe que o Twitter voltou a fazer asneira).

A ideia é tão simples que bastou a Eugene Rochko, um jovem alemão, fazer uma conta no site de angariação de fundos Patreon com um pedido simples: doações que chegassem aos 800 dólares por mês, para poder pagar as despesas de alojamento do Mastodon e as aparentemente modestas despesas do próprio. Então, há cerca de seis meses, Rochko arregaçou as mangas e criou uma espécie de rede social – que não é bem isso, mas já lá vamos – e cujo website principal já se encontra hoje fechado a novos registos devido ao “tráfego excecionalmente alto” (mas também há outras formas de criar conta).

Boots, noots e awoos: o novo mundo do Mastodon

Vamos pedir-lhe que se adapte a partir de agora a um mundo de conceitos tecnológicos que provavelmente não conhece, porque o Mastodon é inovador de várias formas desde a própria criação, o que para alguns analistas poderá precisamente alienar as massas das redes sociais, com palavras como “código” ou “salas privadas”, além de termos próprios a substituir os termos do Twitter (um “boot” é um tweet, mas também pode ser designado por “toot”, “noot” ou “awoo”; um retweet, que é uma partilha de um tweet, chama-se “boost”; um vulgar gosto passa a ser um favorito, como era nos primeiros tempos do Twitter).

Mais do que uma rede social, o que Rochko se encarregou de criar foi um protocolo que pode ser implementado num número infinito de “instâncias”, que podem ser instaladas e mantidas por qualquer pessoa. Agora em português: o Mastodon, no seu site principal mastodon.social, já angariou mais de 41.700 adeptos com contas ali criadas; mas o seu código aberto, ou de “open source”, permite que se registem contas também em outros sites (contam-se neste momento 477 destas “instâncias”, reunindo um total de quase 150 mil utilizadores) associados à mesma plataforma, embora as suas personalidades variem: nalgumas instâncias fala-se de tecnologia, outras são dedicadas aos memes, e por aí fora.

“O conceito de open source pode incentivar a comunidade de developers a desenvolver utilizações e ferramentas interessantes para a plataforma, já que o seu código está disponível, e a plataforma pode, teoricamente, ser alojada em qualquer servidor”, explica ao Expresso Ricardo Simões, especialista em redes sociais na empresa Triciclo. Ou seja, há vários sites em que pode entrar, registar-se com uma conta Mastodon e passar a fazer parte dessa comunidade – e vários deles funcionam numa lógica federada, ou sejam, estão interligados e terá a possibilidade de ver as mensagens (ou “toots”, ou “noots”, ou “awoos”, conforme o site que escolher) publicadas por utilizadores dos restantes sites.

A ideia parece esquisita, porque não se parece com nada com o que vemos no Facebook ou no Twitter, plataformas centralizadas que reúnem num só site todos os seus utilizadores e conteúdos – mas a ideia é mesmo essa. No site principal do Mastodon, este apresenta-se como um “servidor de rede social gratuito, uma alternativa descentralizada às plataformas comerciais, que evita o risco de uma única empresa monopolizar a sua comunicação”. “Portanto, poderá ser mais isenta e livre de rumos ou decisões que os seus concorrentes habitualmente tomam com o intuito de aumentar as receitas”, analisa Ricardo Simões, para quem a “independência de interesses comerciais” poderá mesmo ser o principal fator diferenciador para o Mastodon.

Proibida a entrada de nazis

Há outra característica que distingue em grande parte o Mastodon e atrai fãs por oposição ao Twitter, que tem vindo a ser cada vez mais criticado pela forma como lida com os trolls, que vão de pessoas que usam simbologia nazi disfarçadas por trás de personagens de anime a constantes ataques pessoais e humilhações a utilizadores. No Mastodon, o código de conduta tem regras muito claras que proíbem “conteúdo ilegal na Alemanha e em França, como a negação do Holocausto ou a simbologia nazi”, além de sexismo, discriminação ou xenofobia, permitindo também bloquear e denunciar contas.

Na Medium, Rochko escreve que “as comunidades mais pequenas são menos propensas a alojar comportamentos tóxicos. Podem pensar nisto como um trabalho de moderação da rede inteira que é distribuído por inúmeros administradores de comunidades independentes mas compatíveis, o que é uma escolha melhor do que uma única empresa de muitos milhões de utilizadores com uma pequena equipa de segurança”.

No Mastodon há ainda a opção de utilizar os “avisos de conteúdo” para alertar sobre o conteúdo de algumas mensagens, como spoilers, conteúdos ofensivos, mas também conteúdos que os utilizadores não estejam interessados em ver sobre política (algumas queixas referem a imensidão de comentários sobre Trump que proliferam no Twitter).

As diferenças não se ficam por aqui – se entrar no Mastodon, é provável que se lembre de uma das mais populares aplicações do Twitter, o Tweetdeck, que separa a informação que lhe pode interessar – notificações, feed (que pode ser local, apenas da “instância” onde se registou inicialmente, ou incluindo também as instâncias federadas para ter mais variedade) e contas que desejar abrir – em colunas que vê simultaneamente no ecrã do seu computador ou no telemóvel, se usar aplicações específicas para o Mastodon, como a Amaroq. Para entrar, terá de especificar qual a instância em que está registado (sendo que pode efetuar registo em várias delas) e só depois indicar o seu nome de utilizador – o aspeto final da sua identificação vai parecer qualquer coisa como um endereço de email.

Estará o Mastodon preparado para conquistar as massas?

As colunas, as palavras mais técnicas, o aspeto menos direcionado às massas – mas também a ausência de uma administração, de um CFO, de anúncios a interromper a sua cronologia – distinguem o Mastodon como uma plataforma menos comercial, dirigida a utilizadores cansados do frenesim e das ofensas no Twitter. Mas também se perde com a troca: o pequeno número de utilizadores, que sugere que o Mastodon ainda é um nicho para comunidades interessadas em tecnologia ou nas suas políticas de privacidade – o Motherboard refere que há grande adesão na comunidade LGBTQ -, lembra que será difícil, por agora, encontrar por ali os seus amigos ou as suas celebridades preferidas, perdendo algumas das características mais apelativas da fonte de inspiração: o Twitter.

“Apesar de ter tido um percurso atribulado, o Twitter tem uma base sólida de utilizadores em vários mercados. Algumas das dificuldades do Twitter têm sido encontrar forma de monetizar a plataforma e moderar a discriminação mantendo a sua isenção”, lembra Ricardo Simões. “Como fator diferenciador, é essencial frisar que o Mastodon é assumidamente antinazi e que os comentários discriminatórios relacionados com esta temática são, alegadamente, imediatamente eliminados - resta saber que recursos serão utilizados para fazer estar moderação quando a plataforma crescer. Ou seja, ainda que o Mastodon tenha tido uma cobertura mediática gigante e uma boa receção junto de algumas comunidades, parece-me prudente deixar passar o mediatismo inicial para analisar o potencial impacto desta nova plataforma”, avisa o especialista.