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Sociedade

“Os pais estão a deixar-se tiranizar pelos filhos”

Rui Duarte Silva

O modelo familiar atual prefere os afetos e centra-se nas crianças e nos jovens, o que torna mais difícil impor a autoridade. Para a socióloga Sílvia Portugal, é essa a razão que justifica a desculpabilização que os pais fizeram dos incidentes durante a viagem de finalistas ao sul de Espanha

O que nos revela a reação desculpabilizante dos pais?
Tem muito a ver como é hoje exercida a autoridade e a disciplina na família. A autoridade é uma questão central. E o que se entende que os jovens devem ser ou fazer. Os pais não querem aquilo que tiveram: a autoridade patriarcal, o poder da disciplina, as sanções físicas, que era o modelo educativo da geração dos pais destes jovens. Vêm de uma geração em que a autoridade era inquestionável e não havia espaço para liberdade. Não querem para os filhos o que eles tiveram. As mudanças foram muito rápidas e as pessoas não encontraram ainda o seu lugar de pais na família.

Que modelo de família temos hoje?
É mais democrática. Substituímos o modelo de autoridade patriarcal por um mais democrático, no qual as mulheres e as crianças ganharam voz. Hoje, as crianças são o centro. E os pais não sabem muito bem o que querem ou, pelo menos, não sabem como fazer. Não sabem como conciliar uma família onde todos têm voz e é dominada pelo afeto com uma família que integre modelos de autoridade e disciplina. Não são passados modelos muito claros do que deve e do que não deve ser. Porque olhamos de fora e é muito claro que o que aconteceu foi um ato de vandalismo. Não é desculpável e, no entanto, os pais desculpam-nas.

Ainda é possível haver autoridade?
Claro. E tem de haver. E tem de haver disciplina. E isso pode ser compatibilizado com uma família mais democrática e com uma família de afetos. As pessoas não conseguem encontrar esse modelo que concilie dois modelos que, à partida, parecem inconciliáveis. Chegamos ao caricato de vermos livros de autoajuda para pais — escritos por psicólogos — que aconselham a dizer não aos filhos. É algo que soa estranho, os pais que têm que ler estes livros passaram a infância e juventude a ouvir dizer não, e agora têm muita dificuldade em dizer não aos filhos.

Isto é reflexo da tão falada crise de valores?
Não é uma questão de crise, mas sim de mudanças. Uma série de mudanças, muito rápidas, que aconteceram na família e na sociedade como um todo. Há aqui uma mudança de valores e representações acerca do que deve ser a família. Contudo, vemos que ao longo da história a família esteve sempre em crise. Mas resiste e adapta-se.

Os pais têm menos condições para exercer a parentalidade?
Sim. A nível do emprego, da precariedade, das longas jornadas de trabalho. Isto implica muito menos tempo para a família. O trabalho tomou conta da vida das pessoas. No pouco tempo que têm evitam o conflito. E exercer autoridade implica conflito. É necessário para marcar as diferenças de papéis, para dizer que os pais são pais e não são amigos.

Já chegámos ao ponto em que os filhos mandam nos pais?
Temos uma geração de progenitores que foi tiranizada pelos seus pais e agora se deixa tiranizar pelos seus filhos. Tem de lidar com situações muito adversas, suas e dos seus filhos. Tivemos uma realidade, sobretudo depois do 25 de Abril, em que as gerações tiveram sempre uma vida melhor do que as anteriores. Ora, estes pais e estes jovens não têm esta expectativa. É a primeira vez que enfrentamos um momento em que as gerações a seguir podem ter condições de vida piores do que a anterior. E isto é muito angustiante, cria muita incerteza. E os pais tentam compensar os filhos.

Nos últimos dias, também vimos outro fenómeno. Pais a dizer que nunca tiveram comportamentos daqueles e que os seus filhos jamais o fariam. É uma hipocrisia?
É um clássico, são sempre os filhos dos outros. Isto acontece muito nos discursos sobre a família: descoincidência entre aquilo que as pessoas acham que devia ser e, na prática, fazem exatamente o contrário. Não lhe chamaria hipocrisia. Tem a ver com estas tensões que são quotidianas e estruturais.

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    Mafalda Neto: “As viagens de finalistas são boas mas perigosas”. Pedro Geadas: “Ninguém no perfeito juízo é um vândalo quando está na noite”. Catarina Cunha: “Não é mito: o álcool é realmente barato e as drogas leves são facilmente acessíveis, no entanto está longe de ser decadente”. Catarina Costa: “É a oportunidade perfeita para testarmos a nossa maturidade ”. Priscilla Rosa: “Um segurança andava pelos corredores a tentar criar distúrbios apenas para que os meus colegas se revoltassem e, consequentemente, lhes pudessem tirar a caução”. Cláudia Santana: “Tirando um ou outro excesso, como estragar uma casa de banho ou um grupo de alunos que esteve desaparecido durante algumas horas, não tivemos grandes problemas”. Depois de quase mil alunos terem sido expulsos de um hotel em Espanha, fomos ouvir o que se faz mesmo numa viagem de finalistas