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Entre o grande e o pequeno ecrã

Como está o consumo de conteúdos em Portugal e no mundo? Do dinheiro gasto com idas ao cinema aos contratos de televisão e serviços de streaming, fomos ver como andam as indústrias dos sonhos

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

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Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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A televisão, essa caixinha mágica que conta ao mundo o que se passa no mundo, continua a crescer e a ganhar magia do lado da ficção — através de produções mais caras, a lembrar a indústria cinematográfica —, mas será que pode substituir a sétima arte? Poderão as salas de cinema estar prestes a tornar-se fantasmas do passado? O cenário negro, de que em poucos anos apenas restarão grandes espaços abandonados com cadeiras de veludo gasto e empoeirado, já foi pintado várias vezes, mas os cenógrafos (ou melhor, os analistas) também se enganam.

Pelo que os números contam, não há que temer. Apesar do crescimento de novas formas de consumir conteúdos — e de os filmes chegarem cada vez mais rapidamente às plataformas de streaming e aos videoclubes dos operadores de televisão —, o cinema continua a cativar e está muito longe de morrer (ou de perder a magia maior que o caracteriza). No último ano, não foi registada qualquer quebra de espectadores em sala (à escala mundial) e até se assistiu a um pequeno aumento no número de entradas. De acordo com a Associação de Cinema dos Estados Unidos da América (Motion Picture Association of America, MPAA), as 164 mil salas de cinema de todo o mundo (que são mais 8% do que há um ano), registaram 34,1 mil milhões de euros de receitas de bilheteira em 2016.

Há vozes que se levantam quando o que está em causa é defender o cinema e uma delas é a do diretor da associação norte-americana. Aquando da apresentação do relatório anual estatístico sobre consumo global de cinema em sala, Christopher J. Dodd aproveitou para deixar algumas palavras de encorajamento à indústria (e para afastar qualquer pessimismo). “O aumento continuado das receitas de bilheteira demonstra que a sala de cinema continua a ser a primeira opção dos espectadores para verem uma boa história”, disse. E o mundo ouviu. Em Hollywood, terra maior do cinema que quase todos veem, há muita vontade de acreditar em Dodd. E também não há razões para desconfiar do antigo senador do Connecticut.

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Embora a China já tenha ultrapassado os Estados Unidos em número de bilhetes vendidos, a potência ocidental e o Canadá ainda formam a principal região da distribuição cinematográfica e querem continuar a manter o seu lugar no pódio. É lá que se registam as maiores receitas (fixadas em 10,5 mil milhões de euros, contra os 6,1 mil milhões de euros do gigante asiático), com 71% população (246 milhões de pessoas) a ter ido pelo menos uma vez ao cinema. Pode parecer pouco, mas não é — e a realidade é bem diferente da registada noutras regiões do globo.

Numa indústria que vive de criar sonhos, há pesadelos que teimam em manchar os resultados. Na Europa, no Médio Oriente e em África (a MPAA agrupa as regiões numa só), as receitas de bilheteira desceram dois por cento em 2016 para os 8,8 mil milhões de euros e foram vários os fatores a contribuir para o resultado. No Médio Oriente, a guerra pode ser uma das responsáveis, tal como a pobreza em África também desempenhará o seu papel. No entanto, e apesar dos problemas que o mundo enfrenta, o Velho Continente também é capaz de dar boas notícias.

O Media Salles, projeto financiado pela Comissão Europeia que analisa os dados de 35 mercados europeus, já deu a conhecer os dados preliminares das suas análises estatísticas relativos a 2016 e o cenário é mais animador do que se podia esperar. No último ano, a venda de bilhetes aumentou, mesmo que o crescimento de 2% (Portugal está acima da média e cresceu 2,5%) seja tímido. Com os valores de bilheteiras fixados em 1276 milhões, o melhor comportamento foi registado pelos países do centro e do leste europeu — onde as idas ao cinema duplicaram desde 2005.

No entanto, e apesar das mexidas no ranking dos países mais cinéfilos, os 19 países ocidentais continuam a liderar o mercado europeu (com 892,9 milhões de entradas), ainda muito à frente dos 16 que formam o grupo central, leste e bacia mediterrânica (onde foram vendidos 383,1 milhões de bilhetes). De acordo com o Observatório Europeu do Audiovisual, Portugal contribuiu com 14,8 milhões de espectadores e 76,6 milhões de euros em bilheteira nas 553 salas de cinema de que dispõe.

A IMPORTÂNCIA DA TELEVISÃO

Mesmo que quase todos gostem de cinema, a verdade é que a televisão — nas suas mais diversas formas — continua a desempenhar um papel fundamental no entretenimento e na informação diária. Portugal não é exceção à regra e os consumidores nacionais não se contentam com uma oferta limitada. A vontade de ter acesso a um número maior de conteúdos televisivos é grande e, de acordo com o estudo “Serviço de Distribuição de Sinais de Televisão por Subscrição 2016”, cerca de 79,7% dos subscritores têm acesso a mais de 80 canais, com a subscrição de canais premium a fixar-se nos 15,3% (menos 3,3 pontos percentuais em termos homólogos). A verdade é que tudo isso tem um preço. No ano passado, foram gastos mais de 1,8 mil milhões de euros (150 milhões/mês) em serviços de televisão por subscrição, com a despesa média mensal dos clientes que subscrevem pacotes a atingir os 42,2 euros.

Os portugueses permanecem no top de subscritores de ofertas de televisão por subscrição no mercado europeu e 2016 fechou com 3,67 milhões de assinantes (mais 145 mil ou 4,1% do que no ano anterior). No mesmo relatório, citado acima, a Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM) explica que o crescimento assinalado foi “impulsionado sobretudo pelas ofertas suportadas em fibra ótica, que atingiram o valor máximo histórico de 1,057 milhões de assinantes” e que cresceram 28,6%. A fibra já representa 28,8% do total de assinantes, mas ainda não chegou à maioria. A televisão por cabo (36,7%), que manteve o número de assinantes do ano anterior (1,347 milhões), ainda é a rainha.

Quanto ao cord-cutting, ato de deixar de contar com televisão paga em casa e optar por vê-la apenas através da internet, não tem grande expressão em Portugal (e em causa estarão vários fatores). Do número reduzido de canais na televisão digital terrestre à oferta dos operadores, são várias as explicações possíveis. E algumas delas até têm que ver com avanços tecnológicos. As boxes de televisão portuguesas estão equipadas com funcionalidades mais cativantes do que as disponíveis noutros mercados e fazem com que os consumidores se mantenham ligados aos operadores. Das gravações automáticas de programas aos videoclubes integrados, passando pela possibilidade de aceder aos conteúdos transmitidos nos últimos sete dias, são várias as funcionalidades das quais já poucos prescindem. Por outro lado, 90,4% do total de assinantes (3,322 milhões) dispõem do serviço integrado num pacote que associa a televisão à internet, ao telefone e mais recentemente ao telemóvel (os chamados pacotes de double play, triple play e quad play).

Se a televisão continua a cativar a maior parte dos subscritores, o mesmo não pode dizer-se dos serviços de streaming. De acordo com o estudo “Serviços Over-the-Top (OTT)”, também divulgado pela ANACOM, a população portuguesa ainda não está formatada para pagar por conteúdos disponibilizados através da internet e apenas 9% dos utilizadores de internet em Portugal visualizam “conteúdos de vídeo a partir de serviços a pedido”. Serão apenas 2% as pessoas em Portugal que, com dez ou mais anos, subscrevem o serviço da Netflix, ao passo que os outros serviços de televisão em streaming (FOXPlay e NPlay) captam menos de 1% da população. Por estarem disponíveis há pouco tempo, ainda não há dados referentes às plataformas Filmin e Amazon Prime Video. No entanto, a baixa popularidade dos serviços não faz com que os portugueses não utilizem a internet para ver filmes e séries — 47% dos utilizadores de internet portugueses entre os 15 e os 45 anos fazem-no mais do que uma vez por semana —, mas optam por plataformas gratuitas, mesmo que algumas sejam ilegais.

SOLUÇÕES PARA O FUTURO

Apesar das boas notícias nas frentes cinematográfica e televisiva, continua a ser necessário apostar na renovação e esta está a ser feita a todo o gás. Numa indústria em que a tecnologia também dita as soluções criativas dos estúdios, o último ano foi, segundo a MPAA, bastante importante para o futuro do cinema, com a chegada de novas tecnologias às salas. O número de ecrãs digitais aumentou 18%, com os de grandes dimensões e qualidade superior (Premium Large Format, PLF) a aumentarem 11%. De acordo com os últimos dados disponibilizados, a tendência dos grandes ecrãs não se cinge aos telemóveis e os espectadores procuram cada vez mais experiências cinematográficas imersivas.

O caminho rumo à digitalização total também está a ser feito na Europa, embora não se registe um crescimento tão elevado (explicado pela fase final de digitalização em que o continente se encontra). De acordo com o “Digitalk: Ideas, Experiences and Figures”, elaborado pela Media Salles, o número de salas equipadas com tecnologia digital só aumentou 3%, mas são vários os países prestes a chegar aos 100%. Hoje são praticamente 38 mil as salas que dispõem de sistemas de projeção digital no espaço europeu, com a percentagem média de penetração a fixar-se nos 96%.

Para Christopher J. Dodd, a receita para o sucesso da sétima arte é só uma e não há nada que vença a fórmula. “A indústria cinematográfica continua a dar cartas porque todas as partes — produção, distribuição e exibição — continuam a inovar, de forma a dar vida a novas histórias no grande ecrã”. A máxima do cinema também se aplica à televisão e o público continua à procura de novas formas de entretenimento.