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“Isto vai agitar as coisas”: o primeiro homem a liderar a Vogue britânica

Edward Enninful tinha apenas 16 anos quando foi convencido a pôr o Direito de parte e experimentar a carreira de modelo. Quase 30 anos depois, acaba de ser escolhido como editor da Vogue britânica – é o primeiro homem a assumir o cargo e o terceiro negro a liderar qualquer publicação do grupo Condé Nast. Há muita gente apanhada de surpresa: “A moda é sobre mudança - deve ser surpreendente e desafiante. Fomos todos surpreendidos. Agora espero que também sejamos desafiados”

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Edward Enninful não sabia que a sua vida estava prestes a mudar quando apanhou o metro naquele dia. A caminho da escola, percorrendo a linha londrina de Hammersmith and City, o jovem de 16 anos reparou que um homem o olhava fixamente. Tentou não se assustar e seguir caminho. Quando finalmente chegou ao destino, a estação de King’s Cross, o homem entregou-lhe um cartão com o seu contacto: “O meu nome é Simon Foxton e adorava que trabalhasses como modelo para mim”.

O inusitado encontro entre Enninful e Foxton, conhecido estilista e colaborador nas revistas de moda i-D e Arena, aconteceu há 30 anos – nessa altura, Enninful não fazia ideia de que o seu futuro passaria pela indústria da moda, convencido que o destino o levaria à advocacia, mas Foxton insistiu que aproveitasse o seu aspeto “bem parecido” para aparecer em sessões fotográficas. Agora, três décadas depois, Foxton pode estar seguro de que fez a aposta certa naquele dia, no metro de Londres, já que Enninful acaba de ser anunciado como novo editor da Vogue britânica.

O feito de Enninful, que na altura lá conseguiu convencer uma mãe reticente e um pai religioso e com dúvidas sobre a nova carreira a deixá-lo tentar a sua sorte, é histórico por vários motivos: não só esta é a primeira vez nos 101 anos de História da Vogue que um homem assume o cargo de editor, como é apenas a terceira vez em todas as publicações do grupo Condé Nast – a que a Vogue pertence – que uma pessoa negra assume a liderança.

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“Imagens bonitas, com bom timing – e algumas vezes controversas”

Ser um pioneiro não é, na verdade, uma novidade para Enninful, que desde aquele encontro com Simon Foxton conseguiu conquistar boa parte dos nomes mais importantes da moda e quebrar várias barreiras. Na altura, depois de ter sido fotografado para Foxton, tornou-se assistente do estilista; rapidamente foi apresentado ao fundador da i-D, Terry Jones, passando a ajudar nas sessões fotográficas da revista.

O jovem, que nascera no Gana e emigrara com a família – o pai, oficial do Exército, a mãe, costureira, e os seis irmãos – para o Reino Unido em criança, podia não estar habituado nem ter grandes ambições na área, mas não demorou a destacar-se. Como adolescente, Enninful trabalhou como modelo e fez amizades com os outros jovens promissores da moda – Naomi Campbell é “como uma irmã” para Edward, Kate Moss ajudou-a no ano passado a organizar uma festa em homenagem ao amigo.

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Ao mesmo tempo que impressionava com a personalidade calorosa e a facilidade de fazer amigos que hoje todos lhe elogiam, Enninful subiu rapidamente na carreira: aos 18 anos tornou-se o mais jovem editor de uma revista internacional, a i-D, abandonado o curso de artes que frequentava; aos 19 voltou a fazer História, passando a diretor de moda da revista, um cargo que conservou durante os 20 anos que se seguiram.

Os voos tornaram-se cada vez mais altos para Edward, que em 1998 passou a colaborar com a Vogue italiana e depois com a edição norte-americana. Em 2011 chegou à W Magazine, mudando-se para Nova Iorque, para liderar a conhecida revista e exibir o principal talento que quem o conhece – hoje em dia, todos os grandes nomes da indústria, incluindo o amigo Marc Jacobs – lhe aponta: a capacidade para criar imagens surpreendentes, imagens que a jornalista de moda do “The Guardian” Lauren Cochrane descreve como “imagens bonitas, com bom timing – e algumas vezes controversas”.

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“Temos de mudar o sistema por dentro. É o que estou a tentar fazer”

O talento para a parte visual vem interromper uma tradição de editoras dedicadas à palavra e às reportagens na Vogue britânica, pelo que a escolha está a ser interpretada por uma mudança de estratégia da revista histórica (como dizia a diretora de moda e principal crítica de moda do “The New York Times”, Vanessa Friedman, no Twitter: “Isto vai agitar as coisas”). Mas a preferência pelo visual não deverá ser a única coisa a mudar na Vogue britânica, que fez notícia em 2015 por colocar a modelo Jourdan Dunn – uma das musas de Enninful, a par de Campbell, Rihanna ou Ruth Negga – na capa: foi a primeira vez que uma modelo negra fez capa sozinha na revista desde 2002, numa edição em que Campbell foi fotografada.

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O ativismo de Enninful para as questões de raça é conhecido no meio – através das suas palavras diretas sobre o problema da diversidade no mundo da moda, mas muitas vezes também através de ações concretas. Afinal, foi ele o responsável por coordenar a edição de 2008 da Vogue italiana em que só apareceram modelos negras, e que depressa se tornou uma edição bestseller, com a Condé Nast a ver-se obrigada a imprimir 40 mil cópias-extra. E também foi ele, já na W, que em fevereiro não teve medo de assumir uma posição política e dirigir o vídeo “I am an Immigrant”, em que 81 nomes da indústria da moda diziam estas mesmas palavras, num conjunto de imagens simples e a preto e branco – tudo em resposta à tentativa de Donald Trump de colocar em vigor uma lei anti-imigração.

“Ele tem consciência da falta de exemplos de modelos negros e plus size na indústria e acredito que vai continuar a esforçar-se por representá-los nos media”, assegura ao Expresso Ruth Marciniak, diretora do programa de marketing de moda internacional na British School of Fashion.

O próprio Enninful já assegurou que esta é uma preocupação prioritária no passado: “Precisamos de pessoas de origens étnicas diversas em todas as partes da indústria. Precisamos de mais diversidade, nas escolas, nos estágios, nos mentores. Isso é o que estou a tentar fazer. Essa é mesmo a solução, temos de mudar o sistema por dentro”, disse, citado pelo “The Guardian”. “É muito fácil dizer ‘oh, há um modelo negro neste espetáculo, ou um modelo negro ou asiático numa campanha fotográfica, por isso preenchemos as quotas’. Não, deveria haver uma conversa continuada. Nem sequer devia ser assunto, quanto a mim. Beleza é beleza.”

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Ao Expresso, Nilgin Yusuf, diretora criativa da escola de media e comunicação do London College of Fashion, fala de uma escolha “muito progressiva que é razão real para celebrar”: “A moda pode e deve ser mais diversa – tal como os media – e é dominada por uma estética muito ‘branca’. Ele consegue casar a alta costura e os conceitos sofisticados com a meritocracia e um entendimento da sociedade diversa inclusiva”.

Em sintonia com a restante indústria, Yusuf revela que o entusiasmo é difícil de conter: “Sinto-me tão entusiasmada com esta escolha como me senti quando Sadiq Khan se tornou mayor de Londres e Obama presidente dos Estados Unidos. A moda é sobre mudança - deve ser surpreendente e desafiante. Fomos todos surpreendidos. Agora espero que também sejamos desafiados.”

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Um criativo das redes sociais

A preocupação com a diversidade não será a única mais valia – e novidade – que Enninful trará à revista, com Ruth Marciniak a lembrar qualidades como “o seu interesse em moda de rua e o amor pelas redes sociais”. Foi a própria Condé Nast, no anúncio da escolha de Enninful para suceder à atual editora, Alexandra Sulman, no cargo há 25 anos, que lembrou: “Edward é um editor moderno, não apenas brilhante no meio tradicional impresso, mas como talento criativo no digital. É um adepto praticante do vídeo e aplica o seu talento para a beleza no Instagram”. Nessa rede social, Enninful conta com cerca de meio milhão de seguidores – e no passado já colaborou com a nova vaga de modelos saídas das redes sociais, como as irmãs Gigi e Bella Hadid.

Os elogios têm sido constantes desde que o nome de Enninful foi anunciado – incluindo os de Shulman, que fala do seu sucessor como alguém que trará à revista “uma nova estética excitante e criativa”. Reconhecimento já não lhe faltava – vencedor de um Isabella Blow Award para criadores de moda nos British Fashion Awards de 2014, no fim do ano passado foi homenageado pela própria monarquia britânica como um Officer of the Most Excellent Order of the British Empire (OBE), num dia que classificou como “um dos mais especiais” da sua vida e em que a amiga Naomi Campbell o acompanhou.

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Aos 45 anos, Enninful chega ao que pode ser considerado o topo da carreira, nos comandos da mais prestigiada revista de moda britânica e com elogios que chegam de todo o espetro da indústria – mas também de pessoas que o conhecem desde pequeno, de vizinhos a familiares, e que asseguraram esta semana à imprensa britânica que Edward continua a ser o mesmo miúdo que foi descoberto, há quase 30 anos, a andar pelo metro de Londres: “humilde”, “caloroso” e com “os pés bem assentes na terra”.