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Cláudia Guerreiro: “Desenhar é, essencialmente, olhar e saber olhar”

antónio pedro ferreira

É mais conhecida por ser a baixista dos Linda Martini, mas foi na Sociedade de Belas Artes que descobriu a primeira vocação. Ilustrações suas dão vida ao Peter Pan que o Expresso e a “Visão” editam, em versão de colecionador, e que já está à venda

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Ilustradora, escultora, baixista dos Linda Martini. Qual é a Cláudia que prevalece?
Sou música e ilustradora. Infelizmente, a parte da escultura ficou um bocadinho para trás. A escultura tem uma série de problemas, o espaço, o dinheiro, o tempo... A estrutura das coisas tem de funcionar. Num desenho pode fazer-se tudo, mas na escultura é preciso pensar muito para funcionar. O que não quer dizer que não volte a fazer escultura, mas será sempre uma coisa secundária. Não fico, especialmente, feliz com isso, mas é uma escolha minha.

Tudo áreas com difícil saída profissional. Isso significa que é obstinada?
Os cursos não se escolhem em função das saídas, escolhem-se em função daquilo que se gosta e se sabe fazer. Para se ser bem-sucedido naquilo que se faz. Podia ter ido para um curso com muita saída, como contabilidade, que iria ficar no desemprego porque seria tão má a fazer isso que não ia ter trabalho nenhum. Acho que devemos fazer aquilo de que gostamos, é claro que, dentro das coisas de que gostamos, podemos escolher aquela que tem mais probabilidades de sucesso. Entre escultura, desenho e música tudo parece um bocadinho periclitante. Estranhamente a música, que foi aquela em que não investi academicamente, foi o que acabou por funcionar melhor. As coisas depois levam o caminho que querem, que calha.

O sucesso é relativo, não é?
Completamente. O António Lobo Antunes falou disso, no outro dia, na Gala da Sociedade Portuguesa de Autores. Os pais queriam que ele fosse médico, senão não ia ser ninguém. E, no entanto, ele é o irmão mais conhecido de todos e não é por causa da medicina.

A ilustração agora está na moda?
Há muito tempo. Antigamente as pessoas que faziam as Belas-Artes eram pintores, escultores, ou iam pelo desenho mas não pela ilustração. E havia cursos alternativos para quem quisesse fazer ilustração. Hoje acho que as coisas se misturam um bocadinho, uma boa parte dos ilustradores pode nem ter curso ou vem dos cursos alternativos que, às vezes, são mais direcionados. E, se calhar, há muita gente que fazia bonecos – como algumas pessoas gostam de dizer – e hoje os bonecos já são ilustrações e já são respeitados. Isso é bom. É o fenómeno da moda, mas, pelo menos, agora reconhece-se a ilustração como algo importante, com alguma presença.

Crescer no meio de artistas ajudou-a descobrir a vocação?
A minha tia chama-se Noémia Cruz, o meu tio chamava-se Jorge Vieira. São pessoas conhecidas, ele mais do que ela, no meio da escultura. Mas não é por causa deles que desenho, sempre desenhei, desde pequenina. Comecei a fazer escultura muito cedo. A fazer bonecos que depois deixaram de ser só bonecos. Antes de querer fazer alguma coisa relacionada com artes quis ser cientista, quis ser cabeleireira, até à altura em que tive de escolher e foi muito fácil perceber o que queria.

Quando surgiu a música?
Era algo que também fazia desde pequena. O meu pai tocava guitarra em família. É alentejano e juntávamo-nos todos a cantar as modas alentejanas. Cantávamos todos e eu tocava flauta. A música de ouvido sempre foi muito fácil, já o resto muito difícil. Como tinha a facilidade do ouvido nunca tive de me esforçar para chegar à outra parte, pelo menos, com a exigência que me era pedida na altura. A música – embora nunca de modo académico – sempre esteve presente.

Faz questão de separar música e ilustração. Porquê?
Não gosto de desenhar coisas com música. É muito complicado trabalhar com música. Na verdade, parecem dois mundos diferentes. Estudei para ser escultora, mas as pessoas conhecem-me da música e não queria nada dar aquele ar de ‘ah, esta agora também faz umas ilustrações’. É chato quando se faz um investimento tão grande numa parte da vida. Há uns anos, fiz uma exposição na galeria do Desassossego, em Beja, e não foi muito fixe porque as pessoas compravam-me ilustrações por ser a baixista dos Linda Martini. Compravam porque gostavam da banda. As coisas só se cruzam porque as pessoas são as mesmas. E só as junto de cada vez que faço a capa de um disco da banda.

Desenhar também é interpretar?
Completamente. Sou muito literal. Sou literal com a forma. No livro do Peter Pan, há vários exemplos. Há uma parte do texto em que se fala da comissura do lábio da mãe da Wendy, em como escondia um beijo, e tudo isto é subtil, não é direto. E depois, mais à frente, o livro fala do beijo como um dedal e que a senhora tinha a boca cheia de dedais. É claro que isto não tem nada que ver com uma boca cheia de dedais, no entanto não podia deixar passar. Agarro nisso e gosto de explorar essa imagem, que não faz sentido nenhum. Tenho dificuldade em interpretar de um modo mais subtil.

O que gosta mais de desenhar?
Pormenores. Odeio desenhar personagens. O Peter Pan foi muito difícil por causa disso. Entrei logo em parafuso, porque é só personagens do princípio ao fim... O meu Peter Pan é diferente da primeira à última página, não tenho jeito para repetir caras de pessoas.

No desenho também tem de se praticar para ser melhor?
Sim, completamente. Como não?! Desenhar é, essencialmente, olhar e saber olhar. Há maneiras de fazer as coisas, há medidas. Um espaço negativo não é igual a um espaço positivo. É um trabalho como outro, não é só vocação. É por isso que não se respeitam as artes. Há pessoas que não precisam de trabalhar tanto para o conseguir, outras não.

Para si foi fácil ou teve de se esforçar?
Desenho desde pequenina, gosto de desenhar. Mas o curso de desenho da Sociedade de Belas Artes ensina mesmo a desenhar. O mestrado em ilustração científica, o curso de escultura, isso tudo ajuda a ir aprimorando o trabalho. Só que eu já queria fazer isso, já tinha a mão para a coisa. Quando tinha 17/18 anos — e estava a fazer o curso de desenho — foi quando desenhei melhor, porque desenhava todos os dias. Andava sempre com o caderninho, depois deixei de andar e deixei de estar atenta. Gostava de querer desenhar mais, mas só o faço, praticamente, quando sou obrigada.

Já desenhou o seu filho?
No primeiro dia de vida dele.