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Mitos, factos, expectativas: o que se faz mesmo numa viagem de finalistas?

David Ramos/ getty Images

Mafalda Neto: “As viagens de finalistas são boas mas perigosas”. Pedro Geadas: “Ninguém no perfeito juízo é um vândalo quando está na noite”. Catarina Cunha: “Não é mito: o álcool é realmente barato e as drogas leves são facilmente acessíveis, no entanto está longe de ser decadente”. Catarina Costa: “É a oportunidade perfeita para testarmos a nossa maturidade ”. Priscilla Rosa: “Um segurança andava pelos corredores a tentar criar distúrbios apenas para que os meus colegas se revoltassem e, consequentemente, lhes pudessem tirar a caução”. Cláudia Santana: “Tirando um ou outro excesso, como estragar uma casa de banho ou um grupo de alunos que esteve desaparecido durante algumas horas, não tivemos grandes problemas”. Depois de quase mil alunos terem sido expulsos de um hotel em Espanha, fomos ouvir o que se faz mesmo numa viagem de finalistas

Mafalda Neto, 24 anos, Figueira da Foz
Destino: Benalmadena (Espanha), em 2010

“Sempre ouvi dizer que a viagem de finalistas seria uma loucura, com muito álcool, festa e discotecas à mistura. No entanto, escolhemos ir para Benalmadena e não Lloret del Mar, precisamente para evitar ambientes já muito afamados por excesso de álcool.

Acho que consegui equilibrar bem entre saídas à noite e aproveitar a cidade. Normalmente, acordava a tempo do pequeno-almoço do hotel, aproveitava a tarde na praia ou na piscina do hotel e à noite era quando reuníamos a malta toda da escola para beber e sair. Todos fazíamos o mesmo: beber, praia, rir, música, barulho. Também todos celebrámos a vitória do Benfica contra o Braga.

Havia excessos e no hotel onde estava não foi exceção. Bebida a mais, pouco respeito pelo material do hotel, fumar dentro do quarto, por exemplo. Uma das noites a polícia foi chamada por causa de um grup, sei que estiveram em risco de ser expulsos por vandalismo, com colchões pelos corredores e muito barulho até tarde. Os funcionários eram ótimos e bastante tolerantes.

Chocou-me um pouco, logo na primeira noite, ver um rapaz muito embriagado sentado ao balcão de uma discoteca aos beijos com uma rapariga. A situação foi avançando até ao ponto de ele já estar com o pénis de fora das calças. Os amigos aperceberam-se e salvaram-no.

Na altura ainda era muito nova e inocente para grandes aventuras. Se fosse agora, divertir-me-ia muito mais, talvez. Aproveitava mais a noite e todos os minutos que lá estivesse.

As viagens de finalistas são boas no sentido em que reforçam as amizades que vêm do secundário e darão sempre histórias para contar nos anos vindouros entre aqueles amigos de sempre. Porém, são também perigosas, pois permitem aos jovens uma liberdade a que poucos estão habituados.”

Getty Images

Pedro Geadas, 23 anos, Moura
Destino: Benalmadena (Espanha), em 2011

“Sempre ouvi os mais velhos, o meu irmão e os amigos, falarem da viagem de finalistas como algo muito especial. Como somos de um meio mais pequeno, a viagem de finalistas é uma forma de viajar com os amigos antes de entrar na faculdade e cada um seguir rumos diferentes. Claro que os relatos envolviam bebida e diversão… nada de extraordinário.

A minha viagem foi uma experiência inesquecível. Aos 17 anos, estar com os amigos no estrangeiro sem a pressão das aulas e sem pais é uma forma de nos libertarmos do dia-a-dia e aproveitar mais a vida. Estivemos uma semana em Espanha a sair à noite todos os dias. Bebe-se muito, é verdade. Mas não existem só copos nas viagens de finalistas. Fomos a parques de diversões, convivíamos no hotel, na piscina ou nos quartos.

Eu saí, bebi e convivi. Nunca fui de arranjar confusões e sempre vi o estar longe de casa como uma oportunidade de mostrar que tinha cabeça e que merecia confiança. O meu grupo de amigos fez o mesmo. Partimos um candeeiro a jogar a bola dentro do quarto. Ninguém vandalizou nada e devolveram-nos o dinheiro da caução. Fomos bem acolhidos e as pessoas foram pacientes, porque albergar jovens em viagem de finalistas não é fácil.

No entanto, vi malta a fazer asneiras, a partir coisas, andar à porrada e a tomar outras cenas. É como tudo. Quando vamos sair em Lisboa ou noutro local qualquer, há sempre pessoas que têm mais dificuldade em manter uma determinada postura sem fazer figuras tristes. Quando somos conscientes e sabemos o nosso lugar e sabemos estar, tudo fica mais fácil.

Ninguém no perfeito juízo é um vândalo quando está na noite, é necessidade de afirmação de algumas pessoas que não têm possibilidade de o fazer no meio onde vivem. Há idades para viver as coisas e a viagem de finalistas permite antever um pouco as noites da faculdade e abrir os horizontes a uma nova fase que aí vem.”

David Ramos/ Getty Images

Catarina Cunha, 24 anos, Seia
Destino: Lloret del Mar (Espanha), em 2011

Lloret de Mar era um dos destinos preferidos dos estudantes e tinha fama de muitos excessos. Fui no ano imediatamente a seguir à morte de um estudante português e, nessa altura, o clima não era de todo o melhor. O feedback de quem já lá tinha estado era muito bom.

Ao contrário do que é habitual, não fui com o meu grupo de amigos mais próximo, mas o balanço foi muito positivo, porque acabou por ser uma oportunidade para conhecer e aproximar-me de outras pessoas, algumas até da minha escola e com quem nunca tinha falado. São dias bastante intensos e conheci algumas pessoas que são minhas amigas atualmente. Os dias resumiam-se a passear, praia, piscina e noite.

Sei que foram cometidos alguns excessos, sobretudo a nível de álcool. Nada de alarmante, perfeitamente normal dadas as circunstâncias. Estava toda a gente ali para o mesmo: divertir-se e conhecer novas pessoas. E Lloret é uma festa 24 horas por dia ao longo de uma semana, mas mais comedida do que a maioria das pessoas pensa (e do que as imagens dos meios de comunicação passam). E não se está sempre bêbedo!

Não é mito: o álcool é realmente barato e as drogas leves são facilmente acessíveis. No entanto, o cenário está longe de ser decadente. Aquilo que mais me chocou foi ter assistido a um momento muito íntimo a três numa festa da espuma de uma discoteca cheia de gente. Não conhecia as pessoas envolvidas, mas lembro-me que eram de diferentes nacionalidades. Mas foi um caso pontual.

Aquele é um momento inesquecível na vida de um estudante. É a despedida do secundário e acaba por assinalar o encerrar de um ciclo e início de outro num contexto totalmente diferente: a faculdade. Além disso, é, para muitos jovens, a primeira oportunidade de passarem férias com amigos longe de casa.”

Imagem oficial do Hotel Pueblo Camino Real, em Torremolinos

Catarina Costa, 21 anos, Cascais
Destino: Salou (Espanha), em 2013

“A minha viagem prometia ser tudo! Num resort de cinco estrelas, com direito a spa, sauna, piscinas, jacuzzi, praia privada, imensos sunsets e festas todos os dias com bar aberto. Tudo isto por um preço bastante acessível. Podíamos ainda passar um dia em Barcelona e outro no parque de diversões PortAventura.

De facto tínhamos direito a tudo o que prometiam. Foi a primeira experiência a viver só com amigos, durante alguns dias. Todos os dias íamos à praia ou à piscina. À noite íamos às festas, que todos os dias tinham um tema diferente e bar aberto. No meio de tudo isto tudo, só dormia duas ou três horas por dia.

Vi excessos a serem cometidos. Bebi como toda a gente, mas nunca fiquei fora dos limites. Acho que me portei bem. De dia, não acontecia nada de extraordinário: as pessoas iam à piscina e à praia. Nos sunsets, havia muitos jovens pintados com tintas próprias para a pele e algumas raparigas seminuas (mas isso não é só lá que se vê). De noite, as coisas já fugiam ao normal: havia quem ficasse muito mal por beber demasiado e/ou fumar drogas, gente a envolver-se com mais do que uma pessoa e até malta que não conseguia levantar-se tal era a bebedeira.

Por exemplo, um colega meu envolveu-se sexualmente com uma rapariga que não conhecia de lado nenhum. O mais estranho é que em vez de o fazer no seu bungalow, foi para o do vizinho. Quando chegamos da festa, o vizinho julgou que estava a ser assaltado. Entrou pela porta a dentro e… deparou-se com uma situação inesperada.

Fosse agora, ou no auge dos meus 17 anos, era impensável envolver-me com alguém desconhecido. Talvez me tenha portado demasiado bem, tendo em conta o que se espera das viagens de finalistas.

Sou totalmente a favor das viagens de finalistas, sobretudo as de 12° ano. É o final de um ciclo. Marca a etapa em que nos despedimos uns dos outros e seguimos os nossos sonhos e objetivos. É a oportunidade perfeita para testarmos a nossa maturidade e a vontade de independência. Certo que é tudo pago pelos pais, mas vivemos alguns dias sozinhos e somos responsáveis por gerir o dinheiro, fazer refeições e deixar tudo como encontrámos. Infelizmente há quem não pense assim e é assim que acontecem os excessos. As bebedeiras e barulho são normais, o resto parte de cada um.”

Joe Raedle/ Getty Images

Priscilla Rosa, 24 anos, Aveiro
Destino: Lloret del Mar (Espanha), em 2011

“Antes da viagem de finalistas foram-me passadas ideias muito distintas: por um lado, a escola que não era a favor de irmos sozinhos e tendo organizado uma outra viagem com acompanhamento de professores; por outro, tinha o testemunho de pessoas que já tinham ido em anos anteriores e que se tinham divertido sem problemas.

Muitos achavam que íamos para Lloret del Mar perder o juízo e fazer asneiras, quando na realidade cada um iria comportar-se de acordo com os seus princípios e decisões. O hotel era muito grande e por isso estavam hospedados imensos estudantes portugueses de várias escolas.

Uma noite, o segurança andava pelos corredores a tentar criar distúrbios apenas para que os meus colegas se revoltassem e, consequentemente, lhes pudessem tirar a caução. Isso nunca chegou a acontecer, pois mantivemos a calma. Até fizemos queixa dos seguranças na receção, mas não deu em nada.

Talvez pelas histórias que já me tinham contado, da minha parte não houve excessos. De outras pessoas não posso dizer o mesmo, mas não aconteceu nada de mal. Vi muitas pessoas que pela primeira vez se viam longe dos pais, por isso estavam desejosos de experimentar coisas novas, beber e festejar a liberdade.

Cheguei a ver pessoas a fazerem tatuagens só porque sim. Talvez a tatuagem foi o que mais me chocou. E, depois, também ver pessoas de outras escolas completamente bêbedas e perdidas. Uma vez, fui visitar o hotel de uns colegas e foi um choque, o apartamento estava completamente sujo.

A questão não está nas viagens, está nos jovens. Há de tudo e não precisamos de ir a Espanha para verificar isso. Uns mais consistentes que outros e alguns completamente desprovidos de noção e valores. Também há jovens influenciáveis, que acabam por fazer coisas que não iriam fazer por iniciativa própria. Se formos com a atitude certa e as pessoas certas, tem tudo para ser uma boa viagem.”

David Ramos/ Getty Images

Cláudia Santana, 24 anos, Cascais
Destino: Praga (República Checa), em 2011

“Todos me diziam que ia ser a viagem da minha adolescência, que iria ser a melhor semana da minha vida, porque seria a primeira com os meus amigos. E, realmente, foi espetacular. A cidade é lindíssima e conhecemos lugares fantásticos.

Não tive uma viagem de finalistas com um destino comum. Em Praga tivemos também presente a vertente cultural e foi a minha primeira viagem internacional, abrindo-me o apetite para descobrir outros países e culturas. Visitámos museus, saímos à noite, passeamos de barco pelo rio, fomos a um campo de concentração. Durante o dia fazíamos várias atividades culturais, que eram opcionais e à noite divertíamo-nos pelos bares da cidade.

Tirando um ou outro excesso, como estragar uma casa de banho ou um grupo de alunos que esteve desaparecido durante algumas horas, não tivemos grandes problemas. Claro, havia sempre quem abusasse mais no álcool, que se comportasse de forma mais excessiva e que fumasse dentro dos quartos.

Talvez por ter sido um dos meus primeiros contactos com aquela realidade, fez-me alguma impressão ver alunos alcoolizados, a cometerem alguns excessos e com comportamentos menos normais. No geral, todos se divertiam sem passar os limites.

Em muitos casos, a viagem de finalistas é sinónimo de estar longe dos pais pela primeira vez, num país diferente e com os amigos, com tendência para um tipo de exagero que normalmente não teriam noutras circunstâncias.”

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