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Operação Marquês: primo de Sócrates escapa a notificação

José Paulo Pinto de Sousa com o primo José Sócrates em Benguela, a 5 de abril de 2006

João Carlos Santos

Angola não consegue notificar o último arguido da ‘Operação Marquês’. Investigação continua 
a ouvir testemunhas

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Editor de Sociedade

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

José Paulo Pinto de Sousa tem conseguido escapar com uma agilidade surpreendente à ação da Justiça portuguesa. A carta rogatória enviada para Angola, onde o primo direito de José Sócrates vive e trabalha há largos anos, já chegou à Procuradoria-Geral daquele país, mas tem sido impossível notificar aquele que será o 29º arguido do processo.

Uma fonte da PGR de Angola admite que a carta rogatória “já chegou há algum tempo” ao país, mas não foi ainda cumprida. Porquê? Porque quando foi contactado pela primeira vez, José Paulo, que também é conhecido por Bernardo, deu a morada da clínica Girassol, em Luanda, onde estaria internado. Mas quando foi contactada pelos serviços da PGR angolana, a direção da clínica esclareceu que o empresário português tinha lá estado para uma consulta, mas nunca foi internado.
Na segunda tentativa, e de acordo com a mesma fonte da PGR de Angola, o empresário deu uma morada na província de Benguela, onde mora e tem negócios, que se revelaria “fantasma”. Isto é, sem ninguém. Uma fonte judicial portuguesa que não quer ser identificada, acredita que, mesmo assim, a notificação de José Paulo “está para breve”.

O Expresso tentou por várias vezes contactar José Paulo Pinto de Sousa que não respondeu aos telefonemas e às mensagens enviadas para o telemóvel.
O Ministério Público português acredita que o empresário terá aceitado funcionar como testa de ferro do primo. Deixou usar as contas bancárias para fazer chegar, pelo menos, 5,5 milhões de euros que recebeu do empresário luso-angolano Helder Bataglia. O destinatário do dinheiro seria Carlos Santos Silva, o outro testa de ferro. Na perspetiva da investigação foi o mesmo que entregar o dinheiro a José Sócrates.

Segundo a edição da revista “Sábado” desta semana, que divulga o último interrogatório ao ex-primeiro-ministro português, e as provas que o MP acredita ter reunido, José Paulo Pinto de Sousa seria o herdeiro de 80 por cento do saldo de uma conta da empresa offshore, a Belino Foundation, caso Carlos Santos Silva morresse. Esta conta chegou a ter um saldo de 9,8 milhões de euros. Segundo esta versão, que Sócrates desmentiu veementemente ao procurador Rosário Teixeira, José Paulo atuaria como “fiduciário” do primo. Isto é, Sócrates era na verdade o herdeiro do dinheiro caso uma fatalidade acontecesse a Santos Silva.
Apesar de já ter sido referenciado no caso Freeport, José Paulo nunca foi ouvido em qualquer processo e nunca foi formalmente suspeito. Agora, o MP quer acusá-lo no caso mais importante da Justiça portuguesa.

Testemunha ouvida

Quando decidiu adiar mais uma vez o prazo para o despacho final da investigação, a procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, referiu que a falta de resposta à carta rogatória enviada para Angola era uma das razões do adiamento. Até ao final de abril, a equipa terá de fazer um novo relatório para justificar um adiamento até ao final de junho.

Mas agora, três anos depois do início formal da investigação, o Ministério Público continua a chamar testemunhas. No final do mês de março, a equipa de investigadores ouviu como testemunha Alexandre Ferreira, ex-companheiro da jornalista e agora advogada Inês Serra Lopes. O objetivo seria esclarecer vários pagamentos em dinheiro vivo que Serra Lopes recebeu de Carlos Santos Silva, um dos principais arguidos do processo.

Contactada pelo Expresso, a ex-diretora do “Independente” mostrou-se surpreendida porque “nunca” foi “ouvida”, mas confirmou ter sido paga pelo empresário e gestor do Grupo Lena, que chegou a ser proprietário do “Jornal i”, onde a jornalista trabalhou depois de o “Independente” ter fechado. “Em 2007 ou 2008, já não sei precisar, fui contratada para retomar a ‘Grande Reportagem’ (revista), mas o projeto acabou por não ir para a frente.”

Inês Serra Lopes “não” se “lembra” se recebeu ou não em dinheiro vivo, nem de quanto recebeu no total e diz que parte foi para pagar aos autores do projeto gráfico da reformulação da revista. “Há uma coisa que quero deixar clara: as minhas crónicas e opiniões estão escritas e publicadas e nunca fiz um frete ao Sócrates”, garante a agora advogada.