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O meu reino por um chocolate

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Lisboa e Porto estão cada vez mais doces com as lojas dedicadas ao chocolate. Um produto criado há milhares de anos pelas civilizações asteca e maia e que continua a ser um pedaço de felicidade para trincar e pedir por mais...

Um prato colorido rodopia veloz no balcão. “O que vê aqui, madame? Diga a primeira coisa que lhe vem à cabeça quando olha para o prato”, diz a menina à senhora que acaba de chegar à loja: “Uma mulher a cavalgar um cavalo selvagem”. Risos. “Resposta tola”, comenta a senhora desconfortável com a resposta que acaba de dar. “Não há respostas tolas” — afirma a dona do espaço que sorri, com a mesma doçura dos chocolates que vende, e aponta para uma taça cheia deles ao fundo numa prateleira. “Aqueles ali ao fundo são para si. Chocolate com pimenta. Um doce com aventura no paladar...”. E ainda lhe passa um saco com outros sabores, para que o marido ganhe outro fogo na intimidade. Talvez muitos se recordem desta cena do filme “Chocolat” (de Lasse Hallström, 2001), com a atriz Juliette Binoche a protagonizar uma forasteira que abre uma chocolataria em Lansquenet, uma vila francesa que vê de súbito os seus costumes conservadores serem abalados pela tentação e fascínio do chocolate e o que ele passa a provocar nos paladares dos seus habitantes.

Na loja Bettina & Niccoló Corallo, no Príncipe Real, come-se (ou melhor degusta-se) chocolate artesanal com 70 a 100% de cacau, de sabores únicos que lhe vão ficar na memória e que combinam na perfeição com o café ou mesmo um copo de vinho tinto

Na loja Bettina & Niccoló Corallo, no Príncipe Real, come-se (ou melhor degusta-se) chocolate artesanal com 70 a 100% de cacau, de sabores únicos que lhe vão ficar na memória e que combinam na perfeição com o café ou mesmo um copo de vinho tinto

mário joão

A pequena loja Bettina & Niccoló Corallo, no Príncipe Real, anda há anos a provocar emoções aos lisboetas e forasteiros de todos os cantos do mundo com chocolates com 70% a 100% de cacau puro. Elizabete Martins (também conhecida como Bettina Corallo), aprendeu o negócio do cacau com o ex-marido Cláudio Corallo, nas plantações da ilha do Príncipe (nas plantações do Terreiro Velho), e, tal como a personagem de Binoche, costuma sugerir os seus chocolates de acordo com o que cada cliente anseia ou precisa. “Há muitos clientes que vêm procurar aqui uma boa dose de bem-estar, de energia, de felicidade. E eu tenho várias hipóteses de felicidade para cada paladar. Há uma tablete com 70% de caramelo, com pedacinhos de cacau por cima e flor de sal, que cria um prazer muito interessante na boca, que dá essa tal alegria que procuram. Para quem prefere sabores diferentes, mais intensos, aconselho as tabletas com pimenta e flor de sal que dão bom humor e acompanham bem com amigos e vinho tinto. Quem precisa de um conforto especial, no inverno, sugiro um cacau quente e que leva muitas pessoas a regressar às memórias de infância...”, conta Bettina que é também ela um doce e diz-nos que há mesmo quem prefira levar da loja os cacaus torrados puros, algo amargos, mas com o seu sabor original.

Era uma vez o chocolate...

Desde sempre o chocolate é associado ao prazer, ao bem-estar e ao consolo emocional. Há quem veja nele luxúria e desejo. As antigas civilizações asteca e maia consideravam-no um alimento dos deuses, com propriedades medicinais. Isto há 1400 a.C. Através de imagens encontradas em pinturas e manuscritos medievais sabe-se que as favas de cacau eram cultivadas e utilizadas na Mesoamérica pré-colombiana tropical (América Central) pelos olmecas, maias, toltecas e astecas. De onde provém o nome original do chocolate — cacauatl ou xocolatl. Existem pinturas de mulheres maias ajoelhadas sobre pedras retangulares com três pés — os ‘metates’ — a moerem as favas de cacau para produzirem uma bebida amarga, o licor de cacau, com consistência de manteiga, utilizado no fabrico da bebida espumosa, o cacauatl, que combatia o cansaço.

A história do chocolate na Europa começa com a conquista do México, no século XVI, pelos espanhóis e com o comércio estabelecido entre estes dois lugares. Antes do gosto pelo seu sabor, foram-lhe de imediato reconhecidos os benefícios para a saúde. Mesmo assim, os espanhóis presentes no México levaram algum tempo para se acostumarem à bebida de cacau. Hernán Cortés, que comandou a conquista do império asteca, em 1519, teve de impor aos espanhóis o seu uso, pois, como escreveu ao imperador Carlos V: “Uma taça da preciosa bebida permitia aos homens caminhar um dia inteiro sem necessidade de outros alimentos”.

Na época, para melhor conservação durante o transporte marítimo, foi adotada uma forma de preparo que já era conhecida dos guerreiros astecas durante as suas longas marchas: o pó era prensado em forma de biscoitos ou tabletas que, no momento do consumo, eram derretidos em água.

Pouco a pouco, o gosto pelo chocolate ganhou a preferência da nobreza europeia. O sabor foi sendo modificado para ir ao encontro do paladar europeu, sendo-lhe adicionado baunilha, canela, anis, malaguetas e pimenta preta. No início era servido quente e só os ricos se podiam dar ao luxo de o beber. Com o passar do tempo todas as nações europeias começaram a criar plantações nas suas colónias, para cultivo de cacau e açúcar.

A primeira fábrica de chocolate europeia surge em Baiona, no sudoeste da França, em 1761. Depois, em 1778, é inventada a primeira máquina hidráulica para esmagar e misturar a pasta de chocolate e, logo depois, surge outra fábrica de chocolate com máquinas a vapor em 1819, passando a produzir em massa barras de chocolate sólido acessíveis a todos. E o resto é história...

Até 1800, o cacau era apenas produzido na América Latina, no início do século XIX, quando se previa que Portugal iria perder a colónia no Brasil, D. João VI quis salvar o rendimento que Portugal tinha graças ao cacau e decretou que as famosas plantas de cacau da região da Baía deveriam ser transportadas para a sua pacata colónia de São Tomé e Príncipe.

Sempre soubemos que comer chocolate nos fazia sentir bem e que é uma intensa experiência sensorial. Além das suas lendárias qualidades afrodisíacas, o chocolate contém feniletilamina, que o cérebro utiliza para produzir serotonina, que produz o tal bem-estar.

E como sabe tão bem leva-nos tantas vezes ao pecado da gula. É um quadrado primeiro, que é um regalo para os sentidos, e depois mais outro porque sabe tão bem, e mais outro, e outro até chegarmos num ápice ao fim da tableta, agarrados ao papel de prata, com os dedos achocolatados e (tantas vezes) um sentimento de culpa e arrependimento.

Mas como escreveu Pessoa, perdão, Álvaro de Campos, “come chocolates, pequena; come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.” E ele estava coberto de razão. Assim como os povos mais antigos do México, quando se referiam ao cacau como um alimento medicinal, porque está provado que o chocolate preto é um dos alimentos mais ricos em antioxidantes, com efeitos benéficos para o corpo.

Em Portugal, o mercado do chocolate vale cerca de 200 milhões de euros por ano. Os períodos de maior consumo são, claro está, o Natal e a Páscoa. Mas não somos o povo mais guloso. Na verdade, somos a nação que menos chocolate consome da Europa. Cada português consome em média 1,7 quilos de chocolate por ano, enquanto em Espanha cada cidadão consome 3,5 quilos e na Alemanha e Reino Unido chegam a ser consumidos 11 quilos de chocolate per capita, por ano.

Em Lisboa e no Porto são já muitos os espaços dedicados exclusivamente aos apreciadores desta iguaria, seja em estado bruto, misturada com bombons e bolos, ou mesmo na sua versão líquida, o reconfortante cacau quente, ou na sua versão fria, os gelados e sorvetes. A fazer com que a vida seja mais doce. Como escreveu Alice Vieira, em “Chocolate — Histórias para ler e chorar por mais”: “Para que a dor não mate inventou-se o chocolate.”

Lisboa


Bettina & Niccoló Corallo
Se gosta mesmo de chocolate (e de café, já agora) tem de visitar esta loja no Príncipe Real e provar um dos seus produtos de artesanais de excelência. Há três anos que Elizabete Martins (mais conhecida por Bettina) e os seus filhos Niccoló e Anadeo, servem um bocado de céu em forma de tabletes de chocolate com as mais variadas combinações (sempre com mais de 70% de cacau), além de bombons, chocolate quente e cafés variados de origem selecionada. Depois de Bettina ter estado com o ex-marido Claudio Corallo mais de 40 anos envolvida na experiência da produção de cacau e café nas ilhas de São Tomé e Príncipe, e com quem abriu a primeira loja de chocolate em Lisboa, em 2008, no Príncipe Real, voltou há três anos ao negócio de chocolate, mas desta vez em nome próprio para servir o que tão bem sabe fazer. Aconselhamos a tablete de chocolate 100% com cereja ou o chocolate de 75% de cacau com laranja cristalizada da Calábria. Mas ainda há o saboroso chocolate com pimenta e flor de sal e... é melhor ficarmos por aqui...

Rua da Escola Politécnica, 4 

De 2ª a sábado das 11h às 19h. Tel. 213 862 158

O melhor bolo 
de chocolate do mundo
Foi depois de uma viagem feita a Paris no final dos anos 80, que Carlos Braz Lopes decidiu recriar um bolo de chocolate que lhe tinha ficado na memória. Não conseguiu fazer igual, mas fez um à sua maneira que passou a chamar “o melhor bolo de chocolate do mundo”, uma mistura acertada de merengue e chocolate. E logo passou a ser a sobremesa preferida dos amigos e dos clientes do seu restaurante no mercado de Santa Clara e, mais tarde, na sua loja Cozinhomania, em Campo de Ourique, onde realizada cursos de culinária. Mas em 2002 percebeu que a galinha dos ovos de ouro (neste caso de chocolate) estava em apostar no seu bolo que gozava de grande fama e abre ao público um pequeno espaço de esquina, também em Campo de Ourique, que passou a ser conhecida como a loja do melhor bolo de chocolate do mundo. Uma marca que já tem lojas franchisadas em Espanha, Austrália, Angola e Brasil. Pode não ser o melhor bolo de chocolate do mundo, mas que é bom, lá isso é.

Rua Tenente Ferreira Durão, 62A

De 2ª a sábado, das 9h às 19h30. Tel. 213 965 37

Porto


Theo Kakaw
Uma loja de chocolates dentro de um hospital? Sim, é possível no Hospital da CUF do Porto. Imunes a censura clínica, os chocolates e bombons da Theo Kakaw são todos livres de glúten, confecionados artesanalmente a pensar no doce prazer dos celíacos. Alexandra Fontes resolveu há cinco anos trocar as aulas de português e alemão por um negócio próprio, a meias com o marido, engenheiro informático no desemprego. Afinaram o conceito de chocolates sem adição de açúcar, substituído pelo adoçante natural maltitol (150 gramas €10.50), outros sem lactose, e uma variada gama com certificação biológica, feita com cacau 100% orgânico, cultivado em plantações livres de químicos e fertilizantes, no Peru. Muito requisitados na Theo Kakaw (nome inspirado no termo theobroma — manjar dos deuses em grego e na expressão maia kakaw) são ainda os finíssimos quadradinhos de chocolate e fruta biodesidratada. São os Napolitanos, de frutas bem portuguesas como a pera Rocha, maça de montanha do Douro, laranja do Algarve, banana da Madeira e ananás dos Açores. De sabores nacionais, destaque também para os chocolates de tomate com manjericão ou de azeitona e tomilho-lima.

Hospital CUF Porto, piso 0, Estrada da Circunvalação.
2ª a 6ª das 10h às 19h. Tel. 966 474 914

Arcádia
Desde o longínquo ano de 1933 que a Arcádia se confunde com a história da Invicta, sobretudo nas gulosas épocas do Natal e Páscoa. Na família do fundador Manuel Bastos há três gerações, a icónica marca de chocolates portuense avança de vento em popa pelas mãos dos irmãos João e Margarida Bastos. A metamorfose do negócio multiplicou-se numa rede de 23 espaços com o símbolo Arcádia, 10 das quais em franchising, que migraram até Lisboa, Estoril e Cascais. A última loja Arcádia de rua abriu em Santa Catarina, instalada noutra joia da coroa da cidade, o Grande Hotel do Porto. No seu portefólio estão cerca de uma centena de tentações, sem negligenciar as famosas Línguas de Gato (210 gramas/€ 11), de chocolate negro e de leite, com e sem açúcar, e 70% cacau ou os pioneiros bombons de vinho do Porto de 10 anos, desenvolvidos com um enólogo das Caves Calém.

Rua do Almada, 63, Porto.
2ª a 6ª das 9h30/19h; sábado das 9h às 00h. Tel. 222 001 518 

Também em Lisboa (Campo de Ourique, Mercado 
da Ribeira, Belém, Avenida João Crisóstomo)

Equador
No mundo Equador todas as coleções desta marca de chocolates estão recheadas de contos que acompanham as suas coloridas e elegantes embalagens, preciosismo de formação do designer gráfico Celestino Fonseca e da mulher, a escultura Teresa Almeida. São os culpados com direito a absolvição desta tentadora marca de chocolates artesanais que nasceu com vendas online, fixou raízes desde 2010 na Rua Sá da Bandeira, replicou-se na turística Rua das Flores dois anos depois e acaba de abrir novas portas na Rua Sousa Viterbo, junto ao Mercado Ferreira Borges. Pelo meio, o sortido de quase 100 referências em torno do cacau, das tabletes às trufas e bombons atravessaram a Ponte D. Luiz até ao El Corte Inglés, em Gaia, viajaram em parceria até ao Chiado, Rua da Misericórdia, em Lisboa, e elevam voo na classe executiva da TAP. A produção está confiada ao irmão de Celestino, Miguel Tedim, mestre chocolateiro após formação intensiva em França, Itália e Espanha. Em curso está a criação de uma plantação própria de cacau numa roça em S. Tomé.

Rua Sá da bandeira, 637.
Segunda a sábado 11h às 19h30. Tel 967 296 166
Também em Lisboa, no Chiado

Isabel Paulo