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O coração é verde

É uma prática milenar, agora em franca expansão. Seja porque 
é mais sustentável para o planeta ou porque é tida como mais saudável, são cada vez mais os que optam por ser vegetarianos

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

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Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Rita Vlinder, psicóloga de 27 anos que vive em Braga, é vegan há dez anos. No decurso de um gap year nos EUA, uma discussão sobre o uso de peles de animais levou-a a tomar consciência de que o mesmo princípio ético se aplicava à alimentação. De um momento para o outro, retirou da sua dieta todos os produtos de origem animal, tanto por uma questão de “benefício nutricional, como de consciência ecológica”. Ela, que sofria de várias doenças “crónicas e descritas como incuráveis — doença celíaca, fibromialgia, sinusite, anemia, hipotiroidismo, enxaqueca crónica”, garante: “Nunca mais tive uma crise.”

Parece bom demais para ser verdade, mas Rita assegura que passou “muito tempo internada em hospitais”, e depois de enveredar por esta opção alimentar, isso nunca mais aconteceu e por isso atribui as suas melhoras ao veganismo. Explica que é muito mais do que uma dieta alimentar — é antes “um estilo de vida, que pressupõe a 
não-violência em relação aos animais. Além do que comemos, um vegan também tem atenção com o que veste e o que calça, recusa atividades como ir ao circo ou ao jardim zoológico, ou produtos que tenham sido testados em animais”. Se em 2007, era difícil ser vegan em Portugal, agora “é muito fácil, até em Braga”, explica. “Há um restaurante vegan, vários restaurantes vegetarianos, tenho imensos amigos vegan...”, conta. Ela, que fundou a Associação Vegan em Portugal, em 2009, assegura que hoje são seguramente 10.000 a partilhar a mesma opção.

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Se somarmos a esses números os do Centro Vegetariano, de 2007, que dão conta de 30.000 vegetarianos em Portugal, obtemos 40.000 portugueses que se recusam a comer carne. Mas o número peca por defeito. Passaram dez anos, e a julgar pela oferta de restaurantes vegetarianos, percebemos que o facto de existirem, só em Lisboa, quase 30 espaços destes reflete certamente a procura. Inegável é que o número de vegetarianos está a aumentar no mundo — só a Índia, o país em que este regime alimentar está mais enraizado, conta 375 milhões de vegetarianos. Seja por uma questão de sustentabilidade do planeta ou por não compactuar com o sofrimento animal, certo é que o fenómeno é crescente.

As preocupações com a saúde não serão alheias a esse crescimento. Cada vez mais estudos científicos associam o consumo elevado de carne (nomeadamente vermelha, fumada ou os enchidos) ao aumento dos cancros do cólon e do reto. Outros, conhecendo algumas das práticas na criação de gado (das rações com antibióticos e hormonas injetadas, para garantir crescimentos mais rápidos), recusam comer carne. E há quem inclua nesta recusa uma série de derivados. Francisco Varatojo, 56 anos, fundador do Instituto Macrobiótico de Portugal, em 1987, garante que alimentos como os produtos lácteos são altamente nocivos para o homem. “A caseína”, explica, “a proteína do leite da vaca, está na origem de muitas doenças modernas. Se mais de 10% da nossa alimentação forem compostos por produtos lácteos, as probabilidades de vir a ter cancros da próstata, dos ovários e da mama aumenta exponencialmente”, defende. “Essa foi, aliás, a razão pela qual a universidade de Harvard retirou os produtos lácteos da sua roda alimentar, em 2013”, assegura. E cita a obra científica “The China Study”, de T. Colin Campbell and Thomas M. Campbell, nutricionistas da Universidade de Cornell (EUA), que analisaram a relação entre o consumo de produtos animais, incluindo lacticínios e doenças como as cardiovasculares, a diabetes, os cancros de mama, próstata e intestinos.

Vegan, crudívoro, macrobiótico

Para quem não conhece os termos exatos e suas implicações, vale a pena explicar alguns conceitos: ser vegetariano significa não comer nenhum tipo de carne, peixe ou marisco.
Por sua vez, ser vegan é uma opção mais restrita, que exclui qualquer alimento de origem animal — como lacticínios, ovos e mel.

Há ainda os crudívoros, que só comem alimentos crus, germinados ou cozidos até 40 graus Celsius, temperatura que não mata as enzimas. Finalmente, ser macrobiótico é outra coisa. Segundo Francisco Varatojo, “se ser vegetariano é definido pelo que não se come, a alimentação macrobiótica tem na sua base cereais integrais, vegetais e leguminosas, sopas...” Para ele, o essencial é o equilíbrio da dieta alimentar de cada um. De vez em quando, Francisco come peixe. Até porque, diz, “há vegetarianos que fazem uma alimentação saudável — e outros que não”.

Para Varatojo, duas razões principais justificam o crescimento exponencial do vegetarianismo: o surgimento da internet, que ajudou a divulgar os estudos existentes sobre os malefícios do consumo de carne; e a sustentabilidade do planeta. “É muito mais fácil não haver fome no mundo com culturas vegetais”, avança. “Ou há uma inflexão grande dos nossos hábitos de vida, ou estamos metidos num grande sarilho.”

Macrobiótico desde os 16 anos — numa altura em que não se falava de vegetarianismo em Portugal —, tudo começou depois de Varatojo ler um livro sobre nutrição. Praticava muito desporto e por curiosidade começou a mudar a sua alimentação em casa. “Não foi fácil”, assegura. Família e amigos não conheciam aquela prática alimentar, e como tal, reprovavam-na. Tornou-se macrobiótico e foi tirar o curso aos EUA. “Fomos a primeira turma de macrobiótica”, conta. Houve alterações imediatas no seu organismo, recorda. “Cólicas e diarreias intestinais desapareceram completamente, assim como a minha sinusite. Passei a dormir menos horas e a sentir-me muito mais alerta”, resume. Para Varatojo, que nunca provou “um hambúrguer nem uma Coca-Cola”, a própria constituição do homem moderno afasta-nos da carne: “A nossa anatomia não é a de um carnívoro. Temos mão de recoletor, e não temos dentição de carnívoro — só temos quatro caninos, versus 20 pré-molares e molares.”

No seu entender, “a vida social” é a parte mais difícil, e que mais leva as pessoas a desistirem. Mas hoje as opções são muito vastas. Que o diga Duarte Gonçalves, chefe crudívoro há cinco anos. Aos 34 anos, vegetariano há oito, Duarte não tem mãos a medir face aos pedidos de workshops e catering que lhe chegam desde que criou o site, “Projeto Alimento Desperto”, há três anos e meio. Milhares de pessoas já visitaram o site, e muitas procuram os seus workshops. Não há só vegetarianos entre os seus alunos, afiança, e a faixa etária predominante anda entre os 30 e os 50 anos. Cada vez mais pessoas procuram “receitas alternativas, sem glúten ou lactose”. E se pensa que uma alimentação crudívora tem de ser desenxabida e sensaborona, desengane-se. É só “dar nomes que as pessoas conhecem”, com produtos vegetarianos, assegura. Duarte faz hambúrgueres de lentilhas, de amêndoas, de cogumelos, de sementes de girassol, ou de batata doce. A sua alimentação inclui “imensos vegetais, muita fruta – principal fonte de hidratos de carbono —, sementes, germinados, algas, fermentados e sopas, frias ou quentes”. Descobriu alguns produtos ‘milagrosos’: “lentilhas, tahini, cacau cru, sementes de chia, caju, tomate seco ou miso”, uma pasta de cereais fermentados que condimenta e dá sabor à comida. Entre os pratos que mais se vendem, estão a lasanha feita de curgete, com várias camadas (pistáchios e espinafres, tomate fresco e seco, e macadâmia e caju), as sopas e os sumos extraídos a frio, ou o cheesecake de caju, coco e cacau (feito sem queijo, com uma base de trigo sarraceno e tâmaras). Na sua alimentação diária, Duarte não come açúcar, mas inclui vários fermentados, como combucha (um chá fermentado que tem uma bactéria que dá à bebida propriedades probióticas, que ajudam ao trânsito intestinal).

Prato vegetariano obrigatório

Este ano, numa iniciativa única a nível europeu, o PAN (Partido Pessoas, Animais, Natureza) conseguiu aprovar um projeto-lei que prevê a introdução de um prato vegetariano obrigatório nas cantinas portuguesas. A partir de maio, as cantinas escolares e universitárias, as unidades hospitalares, os estabelecimentos prisionais e os lares terão de ter pelo menos uma refeição “isenta de qualquer produto de origem animal”.

Mas atenção: também há potenciais malefícios numa dieta vegetariana, alerta a médica nutricionista Isabel do Carmo. Se pelo aspeto positivo, este é habitualmente um regime “com pouca gordura — desde que não inclua fritos —, rico em vegetais, logo, com vitaminas e sais minerais importantes, como o ácido fólico, e em proteínas vegetais”, o principal aspeto negativo é “o défice em vitamina B12”, que nem os vegetais nem as leguminosas contêm, explica a médica. “Esta vitamina é necessária para a formação dos glóbulos vermelhos e atua como enzima nos processos de produção de neurotransmissores cerebrais”, continua. “Se forem ovolactovegetarianos, poderão ir buscar alguma vitamina B12 aos queijos e à gema do ovo, mas dificilmente obterão um nível suficiente. Quanto ao ferro, as leguminosas (feijão e soja) são ricas nesse mineral, mas este ferro de origem vegetal é muito mal absorvido pelo ser humano, que não tem no seu intestino a enzima própria dos herbívoros.” Finalmente, “relativamente à soja e ao líquido de soja a que se chama leite, é toda transgénica”, alerta a médica.

“Numa alimentação saudável, devemos ocupar metade do prato com vegetais e só comer carne vermelha duas vezes por semana”, defende Isabel do Carmo. E deixa um truque para se entender qual o melhor critério de consumo de vegetais: “O critério do arco-íris. As cores correspondem a sais minerais ou vitaminas diferentes. Assim, devemos comer cor-de-laranja, amarelo, encarnado, verde, roxo e vários tons de verde.”

Um facto parece inegável. Consumimos, hoje, demasiados recursos face àquilo que o planeta é capaz de produzir. Os mares estão esgotados, castigados pela pesca intensiva, muitas espécies correm risco de extinção e, em terra, há décadas que produzimos espécies animais em cativeiro — algumas em condições degradantes — para alimentar a população mundial. Mesmo assim, vivemos num mundo profundamente desigual, onde a obesidade dos países ocidentais contrasta com o risco de fome de 20 milhões de pessoas em países em vias de desenvolvimento, segundo dados da ONU.

Será que ainda vamos a tempo de repensar isto tudo?