Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

GNR resgata 1185 refugiados no Mediterrâneo

Missão de salvamento de militares portugueses nas águas do sul da Grécia

DR

Cristiano Ronaldo foi a chave para um dos últimos salvamentos em águas gregas. Em 2017 há mais missões

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Era noite cerrada, primeiras horas da primavera, quando os radares detetaram movimento nas águas calmas do Mediterrâneo. Os militares a bordo do barco de patrulha, praticamente parado no mar, apercebem-se de um barulho ao longe, típico de uma embarcação lenta. Como se encontrava a navegar ainda em águas turcas, só lhes restava esperar. A expectativa durou cerca de uma hora, altura em que a embarcação entrou em mar grego. Em poucos minutos, confirmavam-se as suspeitas: tinham apanhado um bote apinhado de refugiados. A bordo iam 22 pessoas, entre elas seis crianças, uma delas com um ano. E também uma mulher grávida.

“Já tinha estado numa missão de resgate no sul de Espanha e estava preparado psicologicamente para o que ia encontrar. Mas emociona sempre ver crianças e grávidas naquela situação. É sinal de que estão a fugir de acontecimentos graves, em desespero”, conta o sargento-ajudante Dias, de 46 anos.

O grupo de nacionalidade síria fugia da guerra no seu país. Tensos, os migrantes foram saindo um a um da embarcação de borracha. Os poucos que sabiam falar inglês foram perguntando de que país eram oriundos os militares e, à resposta de que vinham de Portugal, surgiram os primeiros sorrisos naquela madrugada. Da boca daquelas pessoas nascidas a mais de cinco mil quilómetros de Lisboa saiu um nome português: Cristiano Ronaldo. Em poucos segundos os migrantes falavam entre si dos feitos do jogador do Real Madrid, enaltecendo os êxitos do craque. A tensão transformou-se rapidamente em alívio coletivo. “O facto de sermos do país do Ronaldo ajudou a suavizar o salvamento. Não tenho dúvidas disso”, conclui o militar da GNR.

Resgates na Grécia e Itália

Esta foi uma das mais recentes ações de resgate da patrulha da GNR ao largo da costa grega, numa missão conjunta com a FRONTEX (Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira). Há precisamente um ano que os militares portugueses atuam nestas ações de resgate a migrantes clandestinos oriundos do Norte de África e Médio Oriente.

De acordo com dados oficiais, a Unidade de Controlo Costeiro da GNR salvou 1185 refugiados desde abril do ano passado (821 em colaboração com a Hellenic Coast Guard e Hellenic Police). Foram também detidas quatro pessoas suspeitas de auxílio à imigração ilegal. “A 1 de maio está prevista uma nova missão em território grego para as ilhas de Kastelorizo e Samos”, revela o gabinete de comunicação da Guarda ao Expresso.

Também a Polícia Marítima tem colaborado com a agência europeia e prepara-se para regressar ao Mediterrâneo na mesma data da GNR: uma equipa vai para a ilha de Lesbos, na Grécia, e a outra para o sul de Itália. De outubro de 2015 a setembro de 2016, a Marinha resgatou 3674 pessoas das águas. Ou seja, no total, as duas forças de segurança portuguesas ajudaram a resgatar quase cinco mil refugiados em menos de dois anos.

Na operação da GNR realizada na noite de 21 de março, quem conduzia a embarcação de borracha saída da Turquia com 22 pessoas a bordo era um angariador de migrantes, já referenciado pela polícia marítima de Atenas por organizar outras viagens clandestinas até ao sul da Europa. Nunca tinha sido apanhado em flagrante mas desta vez não conseguiu fintar as autoridades. O homem, turco, ficou preso. O seu bote de borracha, preparado para fazer mais travessias, também já não saiu da pequena ilha grega de Samos. Uma detenção considerada “importante” para a GNR mas ainda assim insuficiente para estancar o tráfico de pessoas. No Mediterrâneo, o mar é também de gente desesperada.