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Sociedade

Número de centenários vai subir cinco vezes

Marcos Borga

A esperança média de vida em Portugal vai ganhar dez anos até 2080, revelam as projeções do Instituto Nacional de Estatística. Nas mulheres será acima de 92 anos e nos homens de 87

Estavam a dar os primeiros passos quando terminou a Primeira Guerra Mundial e tinham pouco mais de 20 anos quando viram rebentar a Segunda. Nasceram num país sem eletricidade e já tinham atingido a meia-idade quando assistiram ao homem chegar à Lua na televisão. Viveram os 48 anos de ditadura e levam quase 43 de democracia. Assistiram à criação da União Europeia e ainda estão vivos para ver o Reino Unido partir. Em Portugal há 4287 portugueses com pelo menos um século de vida. O número mais do que duplicou em cinco anos e vai aumentar cinco vezes até 2080. Nessa altura, serão quase 22 mil os portugueses centenários.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o seu peso na população – isto é, o número de residentes com 100 ou mais anos por cada 100 mil habitantes – vai disparar dos atuais 41,5 para 283. Na viragem do milénio, não ultrapassava os 5,6.

Segundo as projeções do INE divulgadas na semana passada, até 2080 a esperança de vida dos portugueses ganhará um bónus de dez anos: os homens chegarão, em média, até aos 87 e as mulheres ultrapassarão os 92 anos. Viver até soprar as 100 velas tornar-se-á vulgar, garante o diretor do Centro de Investigação em Genética Molecular Humana da Universidade Nova de Lisboa, José Rueff: “A não ser que surja uma epidemia, uma guerra ou outro fator que interfira de forma substancial com a esperança de vida, ela chegará aos 100 anos. Viver um século será normal.”

Um estudo do Instituto de Estatísticas do Reino Unido, divulgado em 2013, concluiu mesmo que um terço dos bebés nascidos nesse ano poderá viver pelo menos cem anos. A subida acentuada da esperança de vida obriga a repensar toda a sociedade, sublinha Maria João Valente Rosa, diretora do portal de estatísticas Pordata. “Não podemos continuar a olhar para a vida com as mesmas lentes que usávamos no passado. Não faz sentido continuar a ver os 65 anos como o início da chamada terceira idade.”

A demógrafa defende que as pessoas terão de reformar-se cada vez mais tarde, mas a jornada de trabalho ao longo da vida terá de ser menos intensa, com horários mais curtos ou menos dias por semana, para que as pessoas possam ter mais tempo para a família, para o lazer e para continuar a apostar na formação. Se vamos trabalhar ao longo de 60 ou 70 anos, mudar de carreira duas ou três vezes será normal.

Bagão Félix: “Sistema de saúde será o mais afetado no futuro”

As projeções do INE conhecidas esta semana revelam que a população portuguesa poderá diminuir de 10,3 milhões de habitantes em 2017 para 7,5 milhões em 2080, enquanto o número de idosos (portugueses com 65 ou mais anos) aumentará de 2,1 para 2,8 milhões de pessoas. Face ao decréscimo da população jovem no mesmo período e ao aumento da população idosa, o índice de envelhecimento mais do que duplicará, passando de 147 para 317 idosos por cada 100 jovens, e só deverá estabilizar em 2060, quando as gerações nascidas num contexto de níveis de fecundidade abaixo do limiar de substituição de gerações (2,1 filhos por mulher) já se encontrarem no grupo etário dos 65 ou mais anos.

O economista António Bagão Félix, que já foi ministro da Segurança Social e do Trabalho e das Finanças, considera que o sistema de saúde “será provavelmente o mais afetado no futuro” com o envelhecimento da população. “O custo dos cuidados continuados vai ser muito elevado, porque começamos a ter uma quarta idade e qualquer dia uma quinta idade.” Os gastos em diagnósticos e terapêuticas vão disparar e, “devido aos desenvolvimentos tecnológicos na área da saúde, os cuidados unitários (por pessoa) vão ser certamente mais caros”. Partindo do princípio de que o Estado continuará a ser o principal fornecedor dos serviços de saúde, o impacto no Serviço Nacional de Saúde (SNS) será significativo.

O ex-ministro lembra que hoje há países onde “no último ano de vida de uma pessoa se gasta tanto em cuidados de saúde com em todos os anos anteriores, exceto o primeiro”. E reconhece que “a pressão da opinião pública vai ser maior sobre a Segurança Social, porque é baseada em transferências financeiras, enquanto a saúde é baseada na prestação de serviços, tal como a educação”. Isto significa que o impacto do envelhecimento será menos visível, traduzindo-se em tendências como “o aumento das filas de espera nos hospitais, serviços de menor qualidade ou medicamentos menos comparticipados”.

A sustentabilidade da Segurança Social – isto é, a existência no futuro de trabalhadores ativos em número suficiente para sustentarem com os seus descontos as pensões dos reformados – estará ameaçada por duas tendências demográficas: a esperança de vida à nascença e a idade de reforma “tendem a aumentar”; e a taxa de fecundidade, mesmo no cenário mais otimista adotado nas projeções do INE para 2080 – 1,75 filhos por mulher – “não vai chegar para renovar gerações”, objetivo que só seria possível a partir do número mágico de 2,1 filhos por mulher.

“Neste momento já nasceram praticamente todas as mulheres portuguesas que até 2040 vão ter filhos, mas são em número inferior à geração anterior”, constata Bagão Félix. Portanto, “não é só haver menos filhos, mas menos mães, que têm os filhos mais tarde, o que significa que do lado da natalidade a inércia é brutal”. Se o principal adversário do equilíbrio do sistema de pensões é a demografia, “o principal aliado tem de ser a produtividade”. Ou seja, espera-se que a população em idade ativa, que vai cair de 6,7 para 3,8 milhões de pessoas até 2080, “seja mais produtiva para equilibrar o sistema”.

Não há só más notícias

Mas nem tudo será mau na regressão demográfica projetada para Portugal pelo INE, mesmo no cenário mais otimista. Se a população ativa vai encolher desta maneira e ficar tão concentrada, “é provável que o desemprego venha a ser muito inferior”, constata o ex-ministro. Se assim for, “o Estado vai poupar nos subsídios de desemprego, embora a geografia das profissões vá ser completamente diferente da atual”. E poupará também nas despesas do sistema de educação, com a previsível redução da população jovem em idade escolar.

O crescente debate político sobre a sustentabilidade da Segurança Social não está, no entanto, apenas relacionado com o futuro. “Hoje temos problemas nesta área porque o PIB é praticamente o mesmo desde o início do século”, argumenta Bagão Félix. Mas até 2080 o aumento da produtividade da população ativa portuguesa poderá não ser suficiente como uma espécie de “estabilizador automático” do sistema de pensões. “Por essa razão têm de existir políticas profundas de estímulo da poupança nos próximos anos, que compensem a redução das expectativas da população ativa para a reforma.”

Portugal vai ser “um dos países mais envelhecidos do mundo se nada for feito por um governo corajoso, que enfrente os problemas demográficos por todo o lado”, avisa Manuel Villaverde Cabral, acrescentando que “mesmo quando os governos pagam estudos sobre o assunto estes não servem para nada”. O fundador do Instituto do Envelhecimento (IE) alerta que as pensões futuras, “apesar das perdas financeiras que o país sofreu durante a crise, serão sempre mais altas porque as pessoas que vão morrer agora são mais qualificadas e, por isso, mais bem remuneradas”. No fundo há uma relação entre esperança de vida e qualificação.

O IE é um centro de investigação criado no âmbito de uma parceria entre a Fundação Gulbenkian e o Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, que conta ainda com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Villaverde Cabral afirma que não há representação política ou social das pessoas idosas “em nenhum órgão consultivo, quanto mais num órgão decisório, o que é gravíssimo” face à regressão demográfica que Portugal enfrenta. “Isto é o resultado histórico de um baixo nível de instrução entre os mais velhos e de uma grande dificuldade em fazerem-se ouvir.” O professor jubilado do ICS defende o desenvolvimento de políticas de envelhecimento ativo para contrariar as tendências atuais, de modo a que os idosos “possam viver mais anos com mais saúde”.