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Seis recrutas dos Comandos fazem queixa-crime ao MP

Vinte e dois recrutas do curso 127 foram assistidos na tenda 
do Campo de Tiro de Alcochete

Tiago Miranda

Soldado Nuno O. poderia ter sido a terceira vítima mortal do curso 127. Investigação fez 14 arguidos

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Venceram o medo de serem olhados de lado pelas chefias militares e de poderem vir a ser prejudicados na carreira. Desde o início da investigação às mortes dos recrutas Hugo Abreu e Dylan Silva, em setembro do ano passado, seis colegas do curso 127 dos Comandos apresentaram queixa-crime no Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa. O objetivo dos jovens militares é que a Justiça civil abra “um procedimento criminal sobre o que se passou na Prova Zero”, explica uma fonte próxima do processo.

Nem todos avançaram com a queixa logo da primeira vez que foram inquiridos, “por medo”, pedindo algum tempo para poder pensar sobre o assunto ou aconselhar-se com um advogado. Muitos acabaram por formalizar a denúncia mais tarde à procuradora Cândida Vilar, titular do processo. “Eles agora vão aparecendo, com receio de que não se faça Justiça. Sabem que podem vir a ficar com sequelas para a vida”, acrescenta a mesma fonte.

Estes queixosos fazem parte do extenso rol de 150 testemunhas já ouvidas nos últimos sete meses pela Polícia Judiciária Militar e pelo MP. Os depoimentos têm sido determinantes para as autoridades perceberem com nitidez o filme dos acontecimentos de 4 de setembro de 2016, dia do primeiro treino físico dos aspirantes a Comandos, no Campo de Tiro de Alcochete. O comportamento de 14 arguidos do processo, oficiais e sargentos responsáveis pela organização do curso 127 é o oposto: excetuando o médico Miguel Domingues, nenhum quis prestar declarações à procuradora. “Há mais ou menos um código do silêncio”, resume um responsável. Silêncio que não se estende à cadeia de comando do Exército que segundo o Expresso apurou “não tem colocado qualquer entrave à investigação”.

Esta semana, a magistrada do DIAP interrogou os quatro arguidos mais recentes do caso, o último dos quais esta quinta-feira. Tal como os anteriores, foram indiciados pelo mesmo tipo de crime: abuso de autoridade por ofensas à integridade física, punido com penas entre 8 e 16 anos de prisão. Mas lista de suspeitos não está fechada e vai haver “em breve” mais pessoas a serem constituídas arguidas, todas elas com responsabilidades na última Prova Zero.

Entre os nomes mais recentes sob investigação está o sargento Lenate Inácio, suspeito de ter dado várias bofetadas a um instruendo, depois de o ter obrigado a ficar, em prancha, como castigo por ter vomitado depois do almoço no dia da recruta. Ao capitão Rui Monteiro, o comandante da Companhia de Formação do Regimento dos Comandos ouvido esta segunda-feira no DIAP, também são atribuídos vários episódios de violência durante a Prova Zero. Testemunhas relatam que deu estaladas a um instruendo que estava caído no chão, prostrado pelo cansaço e pelo calor extremo que se fazia sentir naquela tarde em Alcochete. Terá feito o mesmo a outro recruta, também inanimado, abrindo-lhe depois os olhos com os dedos. Segundo dados da investigação, este oficial recusou que o Grupo dos Graduados, de que fazia parte o furriel Hugo Abreu, dormisse da noite de 3 para 4 de setembro. E terá faltado à verdade ao assegurar ao instrutor do processo disciplinar realizado ao caso pelo Exército que os recrutas tinham bebido dois litros de água antes e depois do pequeno-almoço.

Podia haver outra vítima

Outro nome podia ter-se juntado às duas vítimas mortais do curso 127. O Expresso sabe que o soldado Nuno O. correu risco real de vida, um facto comprovado pelas perícias médico-legais realizadas aos militares do curso hospitalizados, vítimas do golpe de calor. O recruta foi transferido do Regimento de Comandos — depois de passar dois dias na enfermaria do campo de Alcochete — para as urgências do Hospital das Forças Armadas (HFAR), e ainda no mesmo dia para o Hospital da Cruz Vermelha. Voltou ao HFAR dia 8, para os Cuidados Intensivos, com sintomas de rabdomiólise grave, desidratação e problemas renais. Acabou por ficar internado durante vários dias com “graves lesões corporais que o puseram em perigo de vida”.

Nas próximas semanas haverá novidades. Entre os militares que já foram anteriormente constituídos arguidos está o diretor da Prova Zero, o tenente-coronel Mário Maia, que terá de regressar de Angola, onde está a dar formação militar, para ser interrogado durante o período das férias da Páscoa por suspeitas do crime de insubordinação por desobediência.

As autoridades querem perceber por que razão não obedeceu às ordens do general Faria de Menezes, comandante das Forças Terrestres, que exigiu a suspensão imediata da recruta, logo após a morte do primeiro jovem militar, Hugo Abreu. Tal não aconteceu. No dia seguinte, realizaram-se treinos, ainda que ligeiros no Campo de Tiro de Alcochete.

Este militar acusou entretanto o Exército de ter mudado o guião da Prova Zero, à sua revelia, já depois da morte de Hugo Abreu. Alegação negada pela hierarquia das forças armadas.