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Governar no feminino. Só 18 países são liderados por mulheres. Sabe quais?

Os países que já tiveram mulheres como chefes de Estado ou chefes de Governo são um oásis num mundo político dominado por homens

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Entre Majuro, a capital da República das Ilhas Marshall, na Micronésia, e Santiago do Chile, na América do Sul, distam 13.027 quilómetros. Não há voos diretos entre as duas cidades. São necessárias, pelo menos, 15 horas (tantas quanto a diferença horária) para ir de uma a outra. Majuro é um daqueles lugares tropicais paradisíacos. Santiago é uma cidade cosmopolita. A única semelhança entre países tão distantes e distintos reside em Hilda Heine e Michelle Bachelet, as respetivas Presidentes. As Ilhas Marshall e o Chile pertencem ao restrito grupo de 18 países onde há uma chefe de Estado ou uma chefe de Governo. Ser liderado e governado por uma mulher é caso raro — ocorreu apenas em 50 países (ver gráfico).

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Atualmente, há 10 países com chefes de Estado mulheres (Chile, Croácia, Estónia, República das Ilhas Marshall, Libéria, Lituânia, Malta, Ilhas Maurícias, Nepal e Taiwan) e 7 governados por uma primeira-ministra (Alemanha, Bangladesh, Namíbia, Noruega, Polónia, Reino Unido e Escócia). Na Suíça, é também uma mulher que lidera o Conselho Federal. Todas seguem o caminho aberto por Sirimavo Bandaranaike, a primeira mulher a exercer um cargo político de chefia — o de primeira-ministra do antigo Ceilão (hoje Sri Lanka). Se pararmos para analisar nomes importantes da história política, encontramos várias mulheres: Corazón Aquino, Margaret Thatcher, Aung San Suu Kyi, Indira Gandhi...

Visto assim, parece que há muitas mulheres em cargos políticos de poder. Mas feitas as contas, do total de 193 países, o que se nota é uma sub-representação. “A chegada das mulheres a cargos mais elevados de poder é um fator recente da história política”, afirma Carla Martins, investigadora na área da igualdade de género e autora do livro “Mulheres, Liderança Política e Media”.

É uma transformação a que se começou a assistir nos últimos 50 anos, fruto da emancipação da mulher e da evolução dos papéis de género. Porém, mesmo em países onde existem leis de paridade, contam-se pelos dedos de uma mão as mulheres com cargos políticos de liderança: em Portugal apenas houve uma, Maria de Lourdes Pintasilgo, chefe do V Governo Constitucional, nomeada por iniciativa presidencial.

O caminho que elas fazem é mais difícil do que o deles. É mais longo e penoso e sem certezas de sucesso. Na política — como em tantas outras áreas da sociedade —, elas sobem mais devagar e raramente chegam ao topo. “Um estudo com deputados(as) mostrou, desde logo, que estes(as) reconhecem claramente a existência das desigualdades de género na sociedade e na política, considerando-o uma situação injusta, um problema da democracia, originada sobretudo por fatores socioculturais”, frisa Maria Helena Santos, investigadora do ISCTE e do Centro de Investigação e Intervenção Social.

Daí que estes países liderados por mulheres sejam um oásis no deserto. A ascensão feminina ao poder divide-se em três naturezas: na Ásia e na América do Sul resulta, essencialmente, do poder de famílias políticas; na África, de sociedades matriarcais; na Europa e na América do Norte, do crescimento dentro dos partidos. “A chegada das primeiras mulheres ao poder não ocorre por razões democráticas, mas por sucessões. Elas pertencem a famílias políticas que também podem ser consideradas dinastias”, sublinha Carla Martins.

Sirimavo Bandaranaike (chefe de Governo por três vezes, em 1960/65, 1970/77 e 1994/2000) é um desses casos. Assumiu a posição que era do marido depois de este ter sido assassinado. Muitas vezes, são filhas de antigos Presidentes ou antigos chefes de Governo, como Indira Gandhi, filha do primeiro primeiro-ministro da Índia, e Park Geun-hye, ex-Presidente da Coreia do Sul, recentemente afastada do cargo, filha de um ex-Presidente do país. Ou sucedem aos maridos, como Cristina Kirchner, que substituiu Nestor Kirchner na Casa Rosada.

Uma espécie de herança

“Na América do Sul, a primeira mulher eleita que não vinha de famílias políticas foi Michelle Bachelet, que ocupou o poder por oposição aos homens”, defende Carla Martins. Chega, pela primeira vez em 2006, com um passado político partidário, tendo sido responsável por medidas em prol da defesa dos direitos das mulheres, como a autorização de venda da pílula do dia seguinte e sua distribuição gratuita a vítimas de violação, enquanto ministra da Saúde. “Estas famílias políticas constituem elites políticas que têm uma rede de relação entre vários poderes. A perpetuação deste estado de elite faz granjear os apoios no poder”, sublinha Carla Martins.

São conhecimentos e apoios que se herdam. Como aconteceu com Corazón Aquino, a primeira mulher Presidente na Ásia, que tomou o poder nas Filipinas com uma revolta. Mulher do líder oposicionista ao regime ditatorial de Ferdinando Marcos, Corazón ocupou o lugar do marido depois do seu assassínio. Encabeçou vários protestos, tornando-se o rosto mais visível da oposição a Marcos. Acabou por tomar o poder e abolir unilateralmente o Parlamento. Passados 24 anos, um dos seus filhos, Noynoy Aquino, tornou-se Presidente. A outra mulher Presidente das Filipinas, Gloria Arroyo, vem também de uma família política — é filha de um ex-Presidente.

Prevaleceu o princípio da elite política. Uma herança diferente daquela que acontecia e acontece nas monarquias europeias, em que o cargo é um dado adquirido e não uma conquista. Nas famílias políticas, herdam-se as redes de contactos e apoios.
Não é o caso de Ellen Johnson Sirleaf, Presidente da Libéria, a primeira mulher a ser eleita, democraticamente, chefe de Estado em África. Prémio Nobel da Paz em 2011, foi condenada a 10 anos por criticar o regime militar o que a levou ao exílio. É vista como uma figura de manutenção da paz e um símbolo do poder informal das sociedades matriarcais que existem em África.

Apesar de no continente africano serem as mulheres a força motriz da sociedade e da economia, a palavra ‘primeira’ ainda continua a surgir quando se apresenta uma líder. É assim com Saara Kuugongelwa, primeira-ministra da Namíbia, Cissé Kaïdama Sidibé, ex-primeira-ministra do Mali, Elisabeth Domitien, ex-primeira-ministra da República Centro-Africana, ou Luísa Diogo, ex-primeira-ministra de Moçambique.

Esta mesma sub-representação vê-se na Europa, onde 20 países podem dizer que foram governados ou liderados por uma mulher e onde existem leis de igualdade. Dez anos depois da lei da paridade aprovada em Portugal, o atual Governo é o mais paritário de sempre, se contarmos ministras e secretárias de Estado. Mas eles dominam à frente dos ministérios. “A consciencialização das desigualdades de género torna-se imperativa, porque há desigualdades que teimam em persistir, tanto em contextos de maioria como de minoria, com claras desvantagens para as mulheres”, diz Maria Helena Santos, numa análise a 10 anos de listas paritárias obrigatórias para a Assembleia da República.