Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Um mergulho no Lumiar

No Parque Botânico, obrigatório pela sua enorme diversidade de pássaros e de árvores, também se pode usufruir de passeios meditativos com acompanhamento

O que é que este bairro tem? Durante uma semana, a freguesia mais antiga de Lisboa revelou-se na quarta edição do LisbonWeek, que fecha este domingo

Em frente ao antigo estúdio de cinema Tobis, o argentino Felipe Pantone, mestre em arte urbana, acabou de imprimir uma das suas estranhas e hipnóticas composições na maior empena de Lisboa. A partir de agora, esta obra cromada ocupará 45 metros quadrados de um edifício da praça Bernardino Machado, como se fosse uma tela de pixéis, em memória da era dos ecrãs, do cinema, do digital. Noutro ponto da mesma Junta de Freguesia, no interior da igreja de São João Baptista guarda-se uma curiosa relíquia da Santa Brígida, que o rei D. Dinis mandou trazer de Irlanda, por ser a santa protetora das colheitas. Este lugar de culto, fundado em 1266, de raiz primitiva medieval, será seguramente o primeiro marco edificado que ainda hoje se conserva na freguesia mais antiga de Lisboa.

Efémero e intemporal, cada bairro é feito de muitas camadas de vida urbana que só se desvendam quando o percorremos com vagar e nos perdemos nas suas histórias, como se fossemos turistas na nossa própria cidade.

Durante esta semana (e até amanhã), o Lumiar abre as portas num percurso de intensa rotação, conduzido pelo LisbonWeek — um evento cultural organizado pela Associação Cultural e Turística Urbana (ACTU), de Xana Nunes, em co-produção com a vereação da Cultura da Câmara de Lisboa e em parceria com a Junta de Freguesia do Lumiar — que nesta quarta edição decorre sob o lema “Cada Bairro, uma Cidade”.

Pormenor da Quinta dos Azulejos e de acesso reservado

Pormenor da Quinta dos Azulejos e de acesso reservado

“A nossa ideia é chamar a atenção para um bairro que habitualmente não tem atenção e está fora dos circuitos turísticos, revelá-lo, desbloqueando espaços históricos e promovendo um diálogo entre os vários agentes que atuam na mesma freguesia e que muitas vezes nem se conhecem. A partir daqui muitas coisas podem acontecer“, indica-nos Xana Nunes.

Uma das coisas que acontecerá, por exemplo, é uma exposição a decorrer no Parque das Conchas, com o apoio da EMEL, uma das empresas aqui sediadas, que envolveu duas mil crianças de escolas do bairro que ao longo de um ano trabalharam sobre a sustentabilidade com a ajuda de vários artistas. “Estas são as ações que marcam a população que aqui vive e deixam lastro”, diz-nos Xana Nunes. Tal como também deixará lastro a obra de Felipe Pantone e de outros artistas que criaram arte pública para oferecer ao Lumiar, projetando para o futuro memória do século XXI.

Revisitar o passado, 
desenhar o presente

Zona de vale alagada, privilegiada pela fertilidade dos seus terrenos agrícolas, o Lumiar marcou, a Norte, até ao início do século XX, a geografia natural entre o campo e a cidade. Hoje, é uma das freguesias mais populosas de Lisboa, que se cruza nas suas fronteiras com os grandes eixos de circulação rodoviária. Mas a identidade deste passado histórico e nuclear preserva-se nas suas quintas de recreio, nos conventos, no interior dos palácios e nos seus jardins, que agora podemos revisitar.

A obra do argentino Felipe Pantone, oferecida ao bairro

A obra do argentino Felipe Pantone, oferecida ao bairro

“Quando antigamente se falava no Lumiar, falava-se daquele fundo que fica em redor da Quinta das Conchas”, conta-nos o historiador e olisipógrafo José Sarmento de Matos. “Tudo aquilo era uma sequência de quintas de recreio pegadas umas à outras, muitas delas com uma dimensão muito significativa. No século XVIII, quase todas caíram nas mãos do terceiro marquês de Angeja, sucessor do marquês de Pombal, que vai construir, à maneira de Lineu, o primeiro jardim científico privado que se fez em Portugal.”

Este parque botânico, com cerca de onze hectares murados, surpreendente na sua construção paisagista e na diversidade botânica — entre as várias espécies de árvores de grande porte trazidas de outros continentes, está ainda de pé a primeira araucária que existe em Portugal —, faz a ligação entre o Palácio Angeja-Palmela e o Palácio do Monteiro-Mor, que hoje alberga os Museus do Teatro e da Dança e o Museu do Traje, e, entre as visitas-guiadas aos lugares históricos do Lumiar, conduzidas pela historiadora Inês Pais, é-nos indicado pelos historiadores como um passeio imperdível. Também imperdíveis serão algumas visitas a espaços reservados, como à parte privada da Quinta dos Lilases, que hoje alberga a EMEL e ainda conserva a galeria e o jardim de inverno arte-nova, ou à barroca Quinta dos Azulejos, onde está o colégio Manuel Bernardes, cujos jardins e espaços públicos foram integralmente revestidos por azulejaria produzida na Real Fábrica de Faianças do Rato.

Seguindo outra indicação traçada pelos historiadores, chegamos ao núcleo de Telheiras para descobrir o convento e a igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu, construidos no século XVII por um príncipe do Ceilão, D. João de Cândia. Quando os cristãos são expulsos de Ceilão, este príncipe convertido ao cristianismo vem refugiar-se em Potugal sob proteção dos padres franciscanos. “Ainda lá está o sepulcro deste cingalês no meio de Telheiras. Só em Portugal é que estas coisas acontecem”, diz-nos Sarmento de Matos, para acrescentar “o mais engraçado é que ali mesmo ao lado encontra-se o maior templo hindu da Península Ibérica”. Chama-se Radha Krishna e consta que tem um restaurante onde se serve um menu extraordinário de paladares indianos, com preços muito acessíveis. A visita ao templo está incluída no programa do LisbonWeek, onde também se irão realizar workshops de dança, de ioga e de gastronomia.

Estúdios da Tóbis

Estúdios da Tóbis

“Mal comecei a explorar o Lumiar para realizar esta edição, percebi imediatamente que, além das quintas e dos conventos, havia outras vertentes obrigatórias para integrar, como a ligação ao cinema, por ser aqui que se encontram os estúdios Tobis, ou o teatro, a moda e dança, por estarem aqui estes museus que os representam, e também uma vertente fortíssima de arte urbana, que já existia e que agora se completa com as obras de Francisco Vidal ou RAF (Rui Alexandre Ferreira) encomendas pelo LisbonWeek que foram oferecidas ao Lumiar”, explica Xana Nunes.

Neste sentido, o programa inclui um ciclo de cinema no Estúdio Tobis e na Biblioteca Orlando Ribeiro, várias ações conjuntas com os Museus do Traje e do Teatro, sessões de música no salão nobre da Junta de Freguesia, uma exposição de fotografia, onde se apresenta a diversidade do bairro no rosto dos seus moradores captada pelas lentes de vários fotógrafos, e uma mesa redonda presidida pelo vereador Manuel Salgado, que irá incidir sobre o projeto da Musgueira e da Alta de Lisboa e o plano de construção de Telheiras, nos anos 70.

Os horários das visitas guiadas, onde se incluem os programas “Palácios do Lumiar”, “Igrejas e Conventos”, “Quintas do Lumiar”, “Uma Pausa para o Jardim” e “Circuito de Arte Urbana” que se podem visitar num passeio de autocarro, podem ser consultados AQUI.