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Redes sociais e fake news: quando a mentira é verdade

Helder Oliveira

Fake news nascem na internet, tornam-se virais nas redes sociais e são tidas como verdade por muita gente. Acredita-se que contribuíram para o ‘Brexit’ e a vitória de Trump. Neste Dia das Mentiras saiba como nascem estas não-verdades, quem as cria, com que fins, como se propagam e que se pode fazer para limitar o efeito das campanhas de desinformação

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

Helder Oliveira

Ilustração

Donald Trump reivindica a ilha Terceira por usucapião. Hillary Clinton esteve prestes a ser presa durante a campanha presidencial por suspeita de fraude. E, ou morreu, ou por causa do estado de saúde foi obrigada a usar um duplo. O Papa Francisco “chocou o mundo” ao apoiar o candidato republicano nas presidenciais americanas. O mesmo Papa cancelou a viagem a Fátima. O mês passado um grupo de refugiados levou a cabo violações em massa num restaurante em Frankfurt. A adolescência de David Cameron está cheia de drogas e atos obscenos como meter uma parte da sua anatomia na cabeça de um leitão. E Lisboa tem a rua mais bonita do mundo...

É provável que tenha lido títulos destes em textos da internet escritos como se fossem notícias. Mas nada disto aconteceu. É mentira e não é brincadeira de 1 de abril. São as fake news (notícias falsas). “Está a tornar-se cada vez mais difícil distinguir o falso do verdadeiro. São alegadas notícias redigidas com o propósito de desinformar. É diferente de um erro jornalístico”, explica Walter Dean, jornalista e diretor pedagógico do Committee of Concerned Journalists.

O fenómeno da propaganda e da informação falsa não é novo mas encontrou nas redes sociais o aliado perfeito. É através destas, principalmente do Facebook, que as fake news se tornam virais, muitas vezes fomentando ideias primárias ou ódios. Graças a um algoritmo que ninguém sabe como funciona (ver entrevista ao lado), as redes sociais compilam posts e likes e vão sugerindo conteúdos semelhantes aos que já lemos ou de que gostamos. O algoritmo orienta o que vemos e envolve-nos numa bolha, mostrando-nos sempre o mesmo lado das coisas. “Temos nos nossos feeds os nossos amigos e os amigos dos amigos. E vemos o que publicam. O algoritmo cria a credibilidade do falso. E os jovens leem cada vez mais informação nas redes sociais”, diz o sociólogo Boaventura Sousa Santos.

Segundo a Marktest, quase milhão e meio de portugueses lê notícias nas redes sociais. Deixou de haver intermediação entre o público e a informação. Erros, rumores, boatos e manipulação sempre existiram, a diferença é que agora o guardião — o jornalista — que separava a verdade da mentira e decidia o que devia ser publicado perdeu poder. “É um sintoma de um cerco lento mas potencialmente fatal ao jornalismo, que tem retirado ao longo de décadas a essência e o escrutínio desse ‘quarto poder’ na sociedade contemporânea, deixando-a mais frágil. Cada vez mais frágil”, considera Francisco Rui Cádima, investigador e professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Sites feitos à imagem e semelhança de sites verdadeiros de informação concorrem com sites de media de referência. Disputam a atenção do leitor e os cliques da publicidade equivalentes a euros. Chegam a usar endereços semelhantes aos de media credíveis, por exemplo ABCnews.com.co, a fazer lembrar o reputado canal de televisão ABC. “A atenção é o recurso mais escasso pelo qual todos competem. Vivemos numa sociedade com muita informação e, ao mesmo tempo, muito desinformada”, sustenta Fernando Ilharco, professor no Departamento de Ciências de Comunicação da Universidade Católica. Os cidadãos ficam mal informados e os media sofrem concorrência desleal. Perde o jornalismo e perde a democracia.
“A desinformação e a propaganda existiam nos sistemas ditatoriais — Goebbels também pôs notícias falsas a circular para inflamar sentimentos nacionalistas.

Agora, o fenómeno ocorre em tempo de paz e em sistemas que se consideram democráticos”, frisa Boaventura Sousa Santos. Vale a pena recordar duas pérolas do ministro da propaganda de Hitler: “As massas têm a memória curta” e “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. O que ele não tinha era meios eletrónicos sofisticados...

Para quem está habituado a lidar com o mundo digital, o problema não está no meio mas na mensagem. “As redes sociais só vieram exponenciar um problema existente. É um problema de educação, de informação e de bom senso. E isso é o que falta às pessoas”, frisa Pedro Rebelo, especialista em redes sociais.

Vitória para o populismo

As fake news tiveram o seu auge com a eleição de Donald Trump para a Casa Branca, mas já durante o ‘Brexit’ tinham mostrado a sua força. Logo após o resultado, percebeu-se que, ao contrário do que tinha sido veiculado na internet, o país ao sair da União Europeia não ia, afinal, ficar com mais 404 milhões de euros/dia para gastar no Serviço Nacional de Saúde. Nem a imigração iria ser reduzida. Estas informações falsas foram usadas na campanha pelos defensores da saída. É a era da pós-verdade. “Não é à toa que o populismo ganha espaço. Os media tradicionais não lhe dão destaque ou, se dão, fazem-no com uma posição crítica”, explica Felisbela Lopes, investigadora da Universidade do Minho.

O problema maior é quando os media verdadeiros se deixam contaminar. Recentemente, um jornal publicou uma notícia no seu site sobre a eleição de uma rua de Lisboa como uma das mais bonitas da Europa. Outros jornais replicaram-na, a televisão fez diretos e o presidente da autarquia, Fernando Medina, congratulou-se com o “facto”. Ao fim do dia, era já a rua mais bonita do mundo. Mas a eleição não passara de um mero inquérito num site de informação internacional.

Negócio da China

Além da desinformação, as fake news tornaram-se também um negócio de sonho. A maneira como são feitas (como se fossem notícias verdadeiras) e os títulos que apelam ao clickbait (títulos imprecisos e sensacionalistas que servem para atrair cliques), converteram-se em dinheiro ganho com publicidade. Na cidade de Veles, na Macedónia, um grupo de jovens enriqueceu a criar dezenas de sites em inglês com fake news, a maioria a favor de Trump. Eram financiados pelos anúncios gerados em modo automático através de empresas como Google, Facebook ou Twitter.

Muitos eleitores americanos terão sido enganados, outros preferiram acreditar em histórias pouco verosímeis mas que iam ao encontro dos seus preconceitos. “Com estes pouco há a fazer. Mas aos primeiros há que mostrar o que é o bom jornalismo e praticá-lo. É uma lição para o jornalismo, escrever a partir de Washington, sem ir ao encontro das pessoas, não chega”, frisa Walter Dean.

Não se pode dizer que tenham sido as fake news as responsáveis pelo ‘Brexit’, pela eleição de Trump ou pelo lugar de Marine Le Pen nas sondagens, mas ajudam. “Desregulam um pouco o sistema, mas, como se sabe, o rumor sempre foi mais rápido do que a notícia, já era assim muito antes do digital”, sublinha Francisco Rui Cádima. Lado a lado com a campanha de Trump, o ‘Breitbart News’ — o site de extrema-direita que foi a central de intoxicação do candidato — recorria às fake news para sustentar teorias sexistas, homofóbicas, racistas e xenófobas. Liderado por Milo Yiannopoulos (suspenso do Twitter por difundir discursos de ódio), o ‘Breitbart’ fez títulos como: “Ser transexual é sofrer de uma transtorno psiquiátrico”; “Os transexuais estão mais envolvidos em crimes sexuais”; “Prova de que Obama nasceu no Quénia encontrada na campanha de Hillary”. Mentiras feitas para distorcer a realidade, na linha do que os ditadores ou aspirantes a tal sempre fizeram. Barack Obama chegou a ter de desmentir notícias falsas e dois dias depois de se conhecer o desfecho eleitoral, responsabilizou as redes sociais pela proliferação de atoardas.

Facebook e Google responderam, anunciando novos mecanismos para controlar as inverdades. A própria comunidade de utilizadores da Internet criou páginas de fact checking (como ‘Bellingcat’, ‘CrossCheck ‘ou ‘CrowdTangle’). “Só uma pequena percentagem dos conteúdos do Facebook são fake news”, garantiu Mark Zuckerberg num manifesto, publicado na rede social que criou, e em resposta às críticas pós-campanha. A Alemanha, cuja chanceler também criticou as fake news, está a preparar uma lei para que seja possível multar as redes sociais quando estas divulguem mentiras e difamações. Com eleições legislativas marcadas para este ano, teme-se efeito semelhante ao de Donald Trump. O país tem sido vítima de campanhas de ciberataques e fake news, quase sempre contra o islamismo e os refugiados que o país recebeu recentemente.

“Não há maneira de controlar. O acesso a tanta informação, em especial para quem não estava habituado, torna mas difícil distinguir o real do falso”, sublinha Pedro Rebelo. A semana passada, dois dos maiores anunciantes americanos anunciaram que iam parar de comprar publicidade na Google por considerarem que não fazia o suficiente para travar sites com mensagens de ódio. “Cabe também aos anunciantes não quererem comprar publicidade nestes sites. Se quiserem podem controlar isso”, frisa Walter Dean.