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Nenhum homem é uma ilha – mas é um aeroporto

Octávio Passos

O nome do maior craque do futebol nacional é acrescentado ao do Aeroporto Internacional da Madeira. Na região, o clima é de festa (ainda para mais com um jogo da seleção), mas o assunto continua a dar azo a polémica política

Marta Caires

Jornalista

Não foi no sentido literal que o inglês John Donne (1572 – 1631) escreveu o famoso poema que mais de 300 anos depois daria o nome a um romance de Ernest Hemingway ("Por Quem os Sinos Dobram"), mas quando hoje lemos a sua frase inicial, "Nenhum homem é uma ilha", podemos pensar em Cristiano Ronaldo, que nasceu na Madeira, onde se transformou num herói local, de tal forma que o seu nome está presente em toda a ilha. A partir de hoje, também no aeroporto. É dia de inauguração do novo nome. Ou, como diz o marketing político, é dia de "rebranding".

O governo regional convidou toda a população para estar na cerimónia e organizou excursões com crianças e utentes dos centros de dia. Alberto João Jardim, o homem no centro da polémica entre o executivo madeirense e o governo central, também lá estará. E desta vez é de Lisboa que mais chegam as vozes a defender o antigo presidente, a dizer que justo seria dar o nome de Jardim ao Aeroporto Internacional da Madeira.

O Aeroporto Internacional da Madeira passa a chamar-se Aeroporto Internacional da Madeira/Cristiano Ronaldo a partir desta quarta-feira e assim que se descerrarem as placas na cerimónia de 'rebranding', a palavra usada para definir o ato oficial no qual vão estar presentes o Presidente da República, o primeiro-ministro, o governo regional e, claro está, Cristiano Ronaldo, o homenageado. Também vão estar centenas de crianças, utentes de centros de dia e o executivo madeirense fez um apelo a toda a população: são todos bem-vindos, incluindo Alberto João Jardim. O antigo presidente foi convidado pela ANA e já confirmou que vai mesmo assistir à cerimónia.

Alberto João Jardim, que deixou a presidência do governo em Abril de 2015, volta a ter o nome numa polémica entre a Madeira e Lisboa, mas desta vez os apoios chegam sobretudo dos políticos de Lisboa, velhos adversários de Jardim e com os quais teve muitos desentendimentos. Tudo por causa da ideia de Miguel Albuquerque de acrescentar o nome de Cristiano Ronaldo ao aeroporto. A decisão foi anunciada em Julho de 2016, deu que falar durante umas semanas, até se fizeram duas petições públicas online: uma a favor e outra contra. O assunto ficou esquecido até ao início de Março, quando se soube do mal-estar entre governos, Regional e da República. E foi aí que surgiu o nome de Alberto João Jardim.

Lisboa não gostou de ver o nome do futebolista no aeroporto, levantou questões de legitimidade da decisão, encomendou pareceres e começou a circular de que opção de Miguel Albuquerque era uma manobra para evitar dar o nome de Alberto João Jardim à infra-estrutura dado o mau relacionamento entre ambos. A questão é que o antigo líder madeirense nunca quis ter o nome associado a nenhuma das obras que mandou fazer e inaugurou. A proposta de dar o nome no aeroporto é antiga, anterior à inauguração da ampliação da pista em 2000. Jardim recusou sempre, como lembrou Guilherme Silva, antigo deputado na Assembleia da República e advogado de Jardim.

Na Madeira, mesmo os que defendem que devia ser o antigo líder a dar o nome ao aeroporto, entendem que não era assunto para se tratar já e em vida de Alberto João Jardim. “A minha opinião é que o nome devia continuar como está e só depois da morte do dr. Alberto João dar o nome do presidente já que o próprio não quer dar em vida. Isto seria justo. João Gonçalves Zarco descobriu a Madeira, mas foi o dr. Alberto João Jardim que a redescobriu com a autonomia regional”.

AFP/Getty Images

Emanuel Janes, historiador e jardinista assumido, diz que tem muito respeito por Cristiano Ronaldo e não tem dúvidas de que é o português mais conhecido no Mundo. “Tenho é dúvidas que venham mais turistas à Madeira por causa do nome do aeroporto e também sei que as carreiras dos jogadores de futebol são curtas”.

O historiador pergunta ainda como vão homenagear o homem que mudou a Madeira quando morrer. “Vão dar o nome a um beco, a uma estrada, a uma rotunda, tendo as rotundas conotações negativas para os madeirenses?” Enquanto os apoiantes de Jardim se indignam, o próprio tem gerido o assunto com silêncio e já fez saber através do assessor da Fundação Social Democrata que não está interessado em entrar em guerras políticas que não são suas. Silêncio e cautela que podem não resistir à ida à cerimónia de “rebranding” esta quarta-feira, onde vão estar os mais altos representantes do Estado, a maior estrela do futebol mundial e muitas câmaras de televisão e jornalistas interessados em saber o que pensa de toda a polémica e da decisão do governo regional liderado por Miguel Albuquerque, seu adversário.

O mesmo governo que decidiu acrescentar o nome de Cristiano Ronaldo ao aeroporto, que bateu o pé às reservas de Lisboa, que fez questão de dizer que, na Madeira, mandavam os madeirenses e que, no velho estilo de Jardim, convidou todos a estar presentes na cerimónia, com anúncios nos jornais. Rui Abreu, chefe de gabinete de Miguel Albuquerque e secretário-geral do PSD, lembra que “são todos bem-vindos”, mas que o convite é para quem quiser e para quem puder ir. Ou seja, quem tem trabalho, mesmo que seja funcionário, não tem dispensa para ir ao aeroporto. O gabinete de Albuquerque confirma ainda que várias instituições -escolas e centros de dia – organizaram excursões ao aeroporto.

Só de Santo António, a freguesia onde cresceu Cristiano Ronaldo, serão 650 crianças das escolas, sem contar com as 20 dos escalões de formação do Andorinha, o clube onde o craque começou a jogar futebol. Os jogadores do Andorinha vão estar na cerimónia vestidos com o equipamento do clube.