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Na terra de Ronaldo foi um francês quem levantou a taça

Henrique Seruca

Ainda antes da chegada dos campeões europeus de futebol, o Funchal assistiu a uma chuva de estrelas Michelin

A sério, quem é que se lembrou de marcar um jantar de um evento como a Rota das Estrelas para a mesma hora em que Portugal joga com a Hungria um encontro de apuramento para o Campeonato do Mundo de futebol? No Estádio da Luz, estão 58 mil pessoas nas bancadas para ver jogar os campeões europeus (15 a 25 euros por bilhete); no Funchal, terra de Cristiano Ronaldo, o homem que vai dar novo nome ao aeroporto da Madeira, estão 45 almas sentadas à mesa do restaurante Il Gallo D'Oro do hotel The Cliff Bay, para um jantar cinco estrelas (195 euros para não convidados).

Podia ser uma metáfora, mas não é. Este é mesmo um jantar com cinco estrelas, neste caso Michelin: Benoît Sinthon, o chef do restaurante anfitrião (duas estrelas), convidou os portugueses Alexandre Silva (Loco, Lisboa, uma estrela) e Henrique Sá Pessoa (Alma, Lisboa, uma estrela), o espanhol Sergi Arola (LAB, Sintra, uma estrela) e Claire Verneil (chefe consultora francesa, nenhuma estrela, mas os olhos mais bonitos da noite) para preparar um repasto digno de comendadores e de campeões europeus.

Claro que, como é de fine dining que se trata, não há televisão na sala: gente fina come sem distrações. Estão aqui todos pela comida, mas não falta à nossa mesa quem queira deitar um olho ao jogo, pelo que improvisamos com o telemóvel. Se São Ronaldo ajudar – depois do nome no aeroporto, só faltará a canonização – não haverá motivos para indigestões esta noite.

À meia hora da partida no continente, continua tudo empatado. No Funchal, chega à mesa o primeiro prato, do catalão Sergi Arola, que conquistou uma estrela Michelin para o restaurante LAB, do Penha Longa Resort, em Sintra. Para abrir as hostilidades da noite há um usuzukuri de pargo curado em sal e kombu, com algas do Atlântico. Usuzukuri é o nome dado a um corte muito fino do peixe, tão fino como o cruzamento do Raphael Guerreiro para André Silva encostar para o primeiro golo de Portugal. A noite promete, pelo menos tanto quanto o magnífico pão com passas que não sei que Diabo amassou, mas que quase dispensa qualquer incursão gourmet.

Isto é um usuzukuri de pargo, do chefe Sergi Arola

Isto é um usuzukuri de pargo, do chefe Sergi Arola

Henrique Seruca

Perceberei mais tarde que empaturrar-me com pão pode não ser uma opção muito inteligente quando tenho a oportunidade de, por uma noite, comer como um daqueles tipos que têm casa na Comporta e na Quinta do Lago. E o que é que essa malta não dispensa? Carabineiros, esse delicioso crustáceo que em alguns restaurantes pode facilmente ultrapassar os 100 euros por quilo. Os do chefe Alexandre Silva, servidos com yuzu (um citrino asiático) e tangerina, são como o segundo golo de Portugal à Hungria: ousados como o passe de calcanhar do André Silva e uma explosão de emoções (e de sabores) como o remate indefensável do Ronaldo. Se quiser ver a repetição, tem de ir ali para os lados da Basílica da Estrela, onde Alexandre Silva abriu o seu Loco, seguramente um dos mais irreverentes restaurantes de alta cozinha do país.

Os carabineiros de Alexandre Silva

Os carabineiros de Alexandre Silva

Henrique Seruca

Nesta altura, com Portugal a ganhar e os chefs a brilharem, já está tudo feliz à mesa, sobretudo a senhora que está à minha direita, que aproveitou o facto de eu estar a beber água para ficar com doses de vinho a dobrar. O prato que se segue é da autoria de Benoît Sinthon, um francês que joga em casa na terra do CR7. O chef está para a gastronomia da ilha como Ronaldo para os relvados: conquistou para o Il Gallo de D'Oro a primeira estrela Michelin da Madeira, e, no ano passado, somou-lhe a segunda. Ele não se furta à analogia: "É como jogar as meias-finais de uma Champions", afirma ao "Expresso". Para lá chegar, não basta o talento. "Sozinho o treinador não faz nada. Tem de compor a sua equipa e saber onde é que cada um joga melhor. É preciso muito espírito de equipa".

O gaulês, que vive há 19 anos no Funchal, também tem a sua Bola de Ouro, prato que inclui na carta do restaurante em homenagem aos feitos do homem mais ilustre da ilha, mas que, infelizmente, não provámos esta noite. É servido numa peça cilíndrica dourada e é, na verdade, não um, mas três pratos: a abrir, cereja de foie gras com sorbet de figo; a seguir, tártaro de peixe da costa marinado com azeite de yuzu, gengibre e caviar de soja, servido com sorbet de funcho e maçã ou de tangerina; e a rematar, lula da ilha, cortada quase como se de linguini se tratasse e servida com nabo Daikon e cogumelos shimagi. Cristiano Ronaldo nunca teve a oportunidade de provar esta iguaria, mas não sabe o que anda a perder. Ia saber-lhe a “hat-trick” numa final da Champions.

Bola de ouro também é nome de prato, neste caso de Benoît Sinthon

Bola de ouro também é nome de prato, neste caso de Benoît Sinthon

Henrique Seruca

Para esta noite estrelada, Sinthon escolheu outro prato, o ovo surpresa Il Gallo D'Oro, com crustáceos e caviar sturia. Parece um ovo escalfado, mas a clara foi separada da gema, batida com sal e vinagre branco, e depois colocada numa forma, juntamente com a gema crua. O “novo” ovo é cozido a vapor no forno e servido com purê de alcachofra, caldo de legumes, cogumelos shimagi salteados, molho de vinagre de champanhe e molho de lagostins. Por cima do ovo, é colocado o caviar sturia. O esforço de o descrever é inglório: não há palavras que lhe façam justiça.

Quando o serviram, Cristiano Ronaldo tinha acabado de marcar o terceiro golo de Portugal, na marcação de um livre irrepreensível, mas à mesa já ninguém queria saber do jogo. Todos os sentidos, estavam neste prato que, usando outra analogia futebolística, só tem paralelo no golo do Éder na final do Euro 2016. Sim, é assim tão bom, acreditem. Já podem encerrar a noite, está ganho de goleada. Perdoa-me, Ronaldo, mas esta noite a taça vai para o francês.

Neste jantar estrelado Sinthon apresentou o ovo surpresa Il Gallo D'Oro

Neste jantar estrelado Sinthon apresentou o ovo surpresa Il Gallo D'Oro

Henrique Seruca

Para a mesa ainda veio o prato de Henrique Sá Pessoa – presa ibérica, chutney de banana, jus de melaço e especiariarias –, que tentou espevitar as coisas como a entrada de Bernardo Silva no jogo da Luz, mas já sem direito a momento de glória. Quando as amêndoas, manga e maracujá de Claire Vernel e a fava paixão de chocolate Valrhona de Nuno Castro chegaram nos instantes finais da partida, já toda a gente estava à espera do apito do árbitro. Se pudessem, iriam correr para a cozinha na esperança de poder rever o golo de Sinthon.

A proposta de Henrique Sá Pessoa

A proposta de Henrique Sá Pessoa

Henrique Seruca

A Rota das Estrelas – que começou na sexta-feira com o evento “Madeira Terroir”, no Mercado dos Lavradores – prossegue esta segunda-feira e termina terça-feira com um jantar “oito estrelas” (225 euros por pessoa), onde, além de Sinthon, estarão os austríacos Dieter Koschina (Villa Joya, duas estrelas) e Hans Neuner (Ocean, duas estrelas) e o português Ricardo Costa (The Yeatman, duas estrelas), além de Fabian Nguyen, do Ritz Four Seasons, em Lisboa. Decorre sensivelmente à mesma hora que Portugal recebe a Suécia no Estádio dos Barreiros, naquele que será o primeiro jogo de Ronaldo na sua terra com a camisola de Portugal. No dia seguinte, o craque madeirense irá ao aeroporto descerrar a placa com o seu nome. Partirá, uma vez mais, sem passar pelo Il Gallo D'Oro. Não sabe o que perde.

O Expresso viajou a convite de PortoBay Hotels & Resorts

(Texto publicado no Expresso diário de 27/03/2017)