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O novo rosto da Alemanha é afegão

Suceder a Claudia Schiffer como imagem da Alemanha não é para todas. Mas e se lhe dissermos que a sua sucessora é uma ex-refugiada afegã...?

Lembra-se de, em 2006, o rosto de Claudia Schiffer ser bandeira de uma campanha alemã para promover o país no mundo? Pois bem, essa campanha, chamada "Alemanha - País das Ideias", criada pelo governo federal alemão e pela Federação da Indústria Alemã, persiste até hoje. Mas o novo rosto para promover o país dirigido por Angela Merkel é hoje bem diferente: a loira de olhos azuis cedeu o lugar a uma morena de olhos escuros, ex-refugiada e afegã. Nada mais longe daquele que é o estereótipo que se tem da clássica Alemanha. Mas esta escolha surpreendente foi bem pensada pelos organizadores: segundo a presidente da iniciativa, Ute Weiland, a modelo, Zohre Esmaeli, de 31 anos, agora com nacionalidade alemã, representa um país aberto à diversidade, à inovação, e disposto a ajudar.

Hoje com 31 anos, Zohre Esmaeli chegou à Alemanha aos 13, fugida da guerra no Afeganistão, seu país de origem

Hoje com 31 anos, Zohre Esmaeli chegou à Alemanha aos 13, fugida da guerra no Afeganistão, seu país de origem

Quem é esta mulher, Zohre Esmaeli? Antes de mais, é manequim, mas também 'designer' e escritora. Vive na Alemanha desde 1999, desde que ela e a sua família fugiram do Afeganistão, onde os Taliban se instalaram e revolucionaram o 'modus vivendi' do país. Nascida e criada em Cabul, a mais nova de 7 irmãos, orfã de mãe desde os 2 anos, Zohre não podia ir à escola, por ser rapariga, mas suplicou ao pai que lhe arranjasse tutores para estudar. Quando ela tinha 13 anos, a sua família decidiu fugir da guerra e tentar chegar à Alemanha. Durante seis meses, percorreram 10 000 km e atravessaram cinco países (o Irão, o Cazaquistão, a Rússia, a Ucrânia e a República Checa) até chegarem ao Estado da Bavária e reconstruirem a vida. Na viagem, Zohre quase morreu afogada, a atravessar um rio na Eslováquia. Chegada à Alemanha, cresceu na encruzilhada entre duas culturas - dividida entre o "bullying" que sofreu na escola, onde era a única estrangeira, e a pressão em casa para viver segundo os preceitos afegãos e aceitar um casamento "arranjado", em oposição total à sua vontade de ter uma carreira de manequim.

Mas a determinação de Zohre não permitiu que alguém lhe pusesse travão. Aos 17 anos, fugiu de casa e foi viver com a família do namorado, perto de Estugarda. Um ano antes, em Kassel, uma manequim aproximara-se dela, perguntando-lhe se era modelo. O seu 1m75 chamava a atenção, assim com a sua figura, esbelta. Lisonjeada, Zohre concordou em tirar fotografias para uma agência de modelos, mas a família proibiu-a de o fazer, mal tomou conhecimento. Depois de sair de casa, retomou a carreira de modelo. Esteve um ano sem contactar a família de origem. Começou a ser chamada por grandes marcas, e a aparecer em revistas de moda como a Vogue, a Elle a Cosmopolitan, In Style ou Marie Claire. Em 2004, foi a representante do Afeganistão no concurso "Queen of the World", em Munique.

A figura de Zohre cedo chamou a atenção. Aos 16 anos, com 1,75m, uma manequim abordou-a e perguntou-lhe se não queria tirar fotografias para uma agência. A família opôs-se ferozmente.

A figura de Zohre cedo chamou a atenção. Aos 16 anos, com 1,75m, uma manequim abordou-a e perguntou-lhe se não queria tirar fotografias para uma agência. A família opôs-se ferozmente.

ADRIAN PORTMANN

O ano de 2006 marca a sua estreia na Fashion Week de Paris - hoje, é presença habitual nas semanas da moda de Nova Iorque, Paris, Milão e Berlim. Em 2015, lançou a sua própria coleção de roupa, "Zoraya", que apresentou num evento de moda em Berlim, para efeitos de caridade. É atualmente considerada a única top-model afegã.

Em 2014, escreveu e publicou um livro em que conta a sua história e a sua experiência enquanto refugiada. Apesar de levar uma vida preenchida, Zohre, que em 2014 foi nomeada Embaixadora da Agência da Alemanha Federal Anti-Discriminação, criou o projeto "'Coaches' culturais", em 2015. Tendo ela própria vivido na pele as dificuldades de encontrar um ponto de equilíbro entre culturas muiito diferentes, percebeu a lacuna que existia neste campo. O seu projeto tem um único objetivo: oferecer a quem chega à Alemanha, assim como aos próprios Alemães, conhecimento mútuo sobre as culturas e os sistemas de valores de ambos, para que estes se tornem agentes de conhecimento nas escolas, no local de trabalho e noutros ambientes sociais. A finalidade é construir uma vida comunitária feliz, baseada no respeito, entre pessoas de contextos sociais e culturais que podem ser quase antagónicas.

Nos últimos anos, Zohre criou um projeto para ajudar refugiados e país de acolhimento a conhecerem e respeitarem melhor as culturas de ambos

Nos últimos anos, Zohre criou um projeto para ajudar refugiados e país de acolhimento a conhecerem e respeitarem melhor as culturas de ambos

Sobre o facto de suceder a Claudia Schiffer, Zohre afirmou: "Aceitei a proposta sem pensar muito. É um orgulho dar o rosto pela campanha. Assim, posso agradecer à Alemanha, o país que me ofereceu a oportunidade de construir uma nova vida, e no qual me sinto em casa."