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Coleiras de escravos foram encontradas

As coleiras têm menos
 de 15 centímetros de diâmetro,
 são de latão e pesam 200 e 300 gramas e deverão ser candidatas
 a bens de interesse nacional

José Carlos Carvalho

Peças raras desaparecidas há 60 anos redescobertas após investigação do Expresso serão expostas em abril, nos Jerónimos

Sobre a mesa, parecem apenas dois aros de latão, duas braçadeiras... Investidas da história que carregam, anulam o peso real e ganham outra dimensão. As argolas douradas foram apertadas à volta dos pescoços de seres humanos como sinal de propriedade. Nem os cães as carregam assim, de metal frio. Os pormenores estéticos não escondem o horror da atitude e o símbolo da animalização do ser humano. Uma de tão pequena, parece ter sido feita para uma criança, à semelhança do que se praticava nas cortes metropolitanas dos europeus colonialistas ou nas famílias abastadas do Brasil, no tempo em que ser negro era sinónimo de ser escravo.

O mistério da coleira desaparecida do Museu Nacional de Arqueologia está resolvido, e em duplicado. No próximo dia 22 de abril, na exposição de artefactos ligados à escravatura, no âmbito da iniciativa “Lisboa, Capital Ibero-Americana de Cultura” os visitantes poderão ver, afinal, não uma, mas duas coleiras de latão que proprietários portugueses de Benavente e do Carvalhal obrigaram os seus escravos a usar ao pescoço, no século XVIII, como se fossem animais domésticos.

As peças, muito raras, repousaram em sossego durante cerca de 60 anos, embrulhadas em papel higiénico, num envelope de papel, nas instalações o Museu de Arqueologia (MNA), nos Jerónimos — excetuando um ligeiro abanão no final da década de 80 e outro já este século, em tempos de arrumações, Ninguém sabia delas até o Expresso tocar no assunto com uma investigação publicada no passado dia 4 de março, na qual se referia irem ser expostos dois desenhos feitos no princípio do século XX, em substituição dos objetos desaparecidos. O Expresso contou a história das coleiras — uma, com a certeza de que pertencia ao museu devido à inscrição no inventário, a que tinha a inscrição “Este preto pertence a Agostinho de Lafetá do Carvalhal de Óbidos”, da outra só se sabia o que estava gravado no latão: “Este escravo pertence a Luiz Cardozo de Mello morador em Benavente.” A investigação tomou conta da conversa do grupo dos mais antigos funcionários do MNA, que habitualmente almoça junto. Luísa Guerreiro, Luís e Adília Antunes, Adolfo Silveira, Maria José Albuquerque e Mário Jorge Almeida lamentavam o caso quando um deles disse lembrar-se de ter visto “umas coisas” conformes à descrição.

José Carlos Carvalho

“Deves estar a fazer confusão. É impossível!”, disseram os outros, mas Mário Jorge, licenciado em Arqueologia, muito tempo fora do museu com uma licença sem vencimento para tentar um negócio privado, estava seguro da sua memória e insistiu tanto que, regressados ao museu, ele e Luísa puseram-se a inspecionar caixas na sala que esteve destinada à quarentena no período da epidemia de gripe A, hoje transformada num depósito. Depois de muitos arquivadores abertos, foi uma emoção: “É isto!” Com as coleiras, bem conservadas, encontravam-se uma escritura de comercialização de uma escrava, já roída por ratos, e um freio tipo lâmina para pôr na boca de criminosos.

“Lá estavam as duas coleiras enroladas em papel higiénico, já amarelado”, conta ao Expresso Luísa Guerreiro que passou a chamar carinhosamente “meninas” às duas peças redescobertas. Mário Jorge, mais calado, acena a cabeça, corroborando as palavras da colega. Tinha sido ele quem na década de 80, pegou na caixa, onde estava o dito envelope, e a pousou numa mesa quando lhe disseram que “aquilo tinha de ser visto pelo diretor”. Na altura, o responsável era Francisco Alves que nem chegou a vê-las, provavelmente porque as caixas usadas para guardar as reservas de peças museológicas serviram de suporte a bancadas de trabalho.

“Apareceram as duas coleiras, o museu reencontrou-se com o seu espólio”, diz o diretor do MNA que foi surpreendido pela descoberta. António Carvalho, que dissera ao Expresso não tencionar fazer qualquer investigação não só pelos muitos anos passados sobre o assunto — a última pessoa que se sabia ter visto a coleira dos Lafetá, fê-lo em 1954 —, como pelo facto de “já não existirem caixotes por abrir”, mal viu com os seus olhos os objetos cobiçados por museus internacionais, meteu mãos à obra e foi abrir outras caixas, cheias de pó e de papelada relativa ao museu criado em 1893 pelo médico, etnógrafo e arqueólogo José Leite de Vasconcelos.

José Carlos Carvalho

E assim descobriu que a coleira de Benavente foi comprada em 1944, por 210 escudos, pelo próprio museu num leilão na casa de Lisboa de Vítor Borralho, quando o MNA era dirigido por Manuel Heleno, arqueólogo estudioso da escravatura em Portugal. Logo avisou o ministro da Cultura, anulou a participação que fizera à PJ e decidiu abrir um inquérito, já que se continua sem saber o que aconteceu entre 1954 e 1993, quando as peças foram guardadas no arquivo morto.

“A partir de agora acabou-se a tradição oral”, diz o diretor do MNA. As coleiras desaparecidas tinham-se tornado uma espécie de lenda. Todos falavam na existência, mas ninguém as vira. Como dissera uma técnica do museu ao Expresso, no início da investigação para o primeiro artigo, tratava-se de “um mito urbano”.

O peso da inércia

A inércia tomou conta de gerações de investigadores, técnicos e demais funcionários do MNA, após a busca efetuada pela técnica superior de 1ª classe, Olinda Sardinha, autora de um relatório muito citado que terminava com uma recomendação ao então diretor Francisco Alves: “Dada a importância e representatividade da peça, a signatária propõe a V. Exa. que seja feita, numa primeira fase, uma busca exaustiva nos locais que não foram mencionados.”

Olinda Sardinha encetara a investigação, pressionada por Antonieta Moura — natural do concelho do Carvalhal que morreu aos 84 anos, em 1994, após quatro décadas de estudos sobre a sua região e de buscas pela coleira que fora parar à mão de Leite Vasconcelos, depois de ter sido descoberta num armário da torre, juntamente com documentos da família Lafetá, cujo paradeiro se desconhece. Mas a conservadora do MNA passara a pente fino apenas a ala de etnografia, onde se pensava que as coleiras poderiam estar. Só que estas tinham sido levadas para a outra ponta do museu, onde se iniciava o núcleo de Arqueologia subaquática e lá ficaram esquecidas até serem guardadas na ex-sala da gripe A. “As coleiras não estavam nas reservas, estavam mal arrumadas, num local improvável e impróprio”, assume o diretor do museu.

“Vamos separar, a partir de agora, a tradição oral dos factos”, diz António Carvalho que chamou o Expresso para atestar a descoberta.

Agora, no Museu “está toda a gente feliz”. E quando a notícia se espalhar, muitos serão os investigadores a querer analisar as peças, assim como muitos dos visitantes do MNA, em especial os italianos, que mal chegam o balcão sacam do livro de José Saramago, “Viagem a Portugal”, e perguntam onde se encontra exposta a coleira de Lafetá de que o escritor fala e diz ali ter visto nos anos 80 do século passado.

Os trabalhadores que descobriram as coleiras fotografados na sala 
onde as encontraram. Da esquerda para a direita, Mário Jorge Almeida, Luísa Guerreiro, Adília e Luís Antunes e Maria José Albuquerque

Os trabalhadores que descobriram as coleiras fotografados na sala 
onde as encontraram. Da esquerda para a direita, Mário Jorge Almeida, Luísa Guerreiro, Adília e Luís Antunes e Maria José Albuquerque

José Carlos Carvalho