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A cor da tendência

Os meses mais quentes vão ser inundados de cor, riscas, padrões e folhos, no que pode ser considerado uma homenagem à alegria e boa disposição. Tudo o que um país precisa para mostrar que segue vivendo de cabeça bem levantada

foto Pascal Le Segretain/Getty Images

Há sempre qualquer coisa de irresponsável e arriscado quando se escreve sobre tendências. Mais ainda quando se defende acima de qualquer outra coisa que a moda deve ser transversal e de abrangência universal. Dizer que as principais tendências para as estações mais quentes é poder usar-se tudo, e de tudo, era reduzir este texto a um parágrafo, mas na realidade é sempre essa a ‘muleta’ usada quando se tenta definir estilos. “A grande tendência desta estação é que tudo é tendência” é uma frase lida e ouvida a cada seis meses. E talvez seja verdade. Ou talvez não.

Se pensarmos nas Semanas da Moda mundiais, aquilo que desfila num determinado dia só surge no mercado seis meses mais tarde. É tempo mais do que de sobra para que nos esqueçamos do que vimos, se não formos pessoas atentas no que à moda diz respeito. E nem sempre somos e nem sempre podemos ser. Por isso é que cada vez mais marcas têm aderido ao “see now, buy now”: o que se está a ver na passarela pode ser comprado logo nas lojas. Casos de Tom Ford, Thakoon e Ralph Lauren, entre outros. Mas uma grande maioria das marcas e designers ainda não faz isso, transformando textos assim em futurologia. Controlada, é certo.

Há um caminho a percorrer para se chegar às ditas tendências. O stylist Pedro Crispim acredita que “é preciso ter em conta fatores como a economia, a ecologia, o ambiente e os fatores sociais. Os pontos de partida são vários para que se criem as tendências. Mas acho que o mundo é o principal motivador”.
Para Gabriela Pinheiro, autora de “O Meu Livro de Estilo”, as tendências são “linhas difundidas por criadores. Antes de serem os designers, são as feiras internacionais que vão ‘mandar cá para fora’ as inspirações e os ‘mood boards’. Depois os designers transportam isso para a passarela e as marcas de roupa colocam à venda, de forma mais vestível e acessível”.

foto Luca Teuchmann/Getty Images

A intenção deste artigo não é debater a forma como as marcas lidam com os seus clientes e muito menos defender este ou aquele modelo de negócio. Antes desmistificar e desenvolver o que poderá ser visto na rua, nas lojas e em produções fotográficas, à medida que a temperatura aumenta nos termómetros. E há uma coisa que se pode constatar: vai ser uma estação bem alegre.

Cor dos pés à cabeça

Mais do que a enumeração de determinados tipos de roupa, as tendências para a primavera/verão 2017 serão feitas de cores, estampados, folhos e riscas (pouco simétricas). A Pantone, a mais alta instituição no que às cores diz respeito, elegeu o verde greenery para 2017. “Um verde com tons de amarelo que invoca os primeiros dias de primavera em que a cor começa a surgir de forma renovada. Como um respirar fundo para renascer”, lê-se no site da marca. É desta forma que se lançam tendências e é também, assim, que se faz a apologia ao que é colorido. E não há mensagem mais positiva para o mundo do que uma cidade e um país que não têm medo de se colorir.

Então o que é que se faz com este verde? Usa-se, sem medo. Como se usará também o rosa, o azul, o branco ou o amarelo. A estação dos meses mais quentes “vai ser cheia de coisas. Estamos a abandonar o minimalismo e a ir para o maximalismo, tudo se usa em muito. O rosa claro, o rosa pastel e o fúcsia. Em look total. É não ter medo do rosa, usar dos pés à cabeça. Sapatos, meias, collants, tudo. O amarelo tem vindo a entrar aos poucos e as pessoas estão cada vez menos assustadas com esta cor. Não aconselho ninguém a andar de look total amarelo. Aconselho uma peça, apenas, para conjugar com cores mais neutras. Temos o verde com novos pantones, o greenery e o ‘Kale’. E depois o zul. Cor não vai faltar a esta estação”. Quem o diz é Gabriela, responsável pelo look de figuras públicas como Cláudia Vieira, Júlia Pinheiro ou Daniela Ruah.

O rosa, nos seus mais variados tons, é uma das principais tendências para a primavera/verão 2017. É usar, sem medo de abusar

O rosa, nos seus mais variados tons, é uma das principais tendências para a primavera/verão 2017. É usar, sem medo de abusar

foto Eamonn M. McCormack/Getty Images

Para Crispism “há espaço para muita coisa. Nos padrões, o foco no oriental e no floral, que surge de maneira abstrata e geométrica, mais romântica do que o habitual. Muitos folhos, muito volume. E o desportivo, aqui numa onda de conforto. Os ténis e a tendência desportiva numa combinação improvável com materiais mais nobres”.

O medo de arriscar em Portugal

Caminha-se para que a diferença entre estações se esbata. O que antigamente seria bem vincado entre frio e calor nota-se cada vez menos. Bem menos. O produtor de moda João Pombeiro defende que “hoje em dia as tendências são quase semanais. Há uma base que cada um transforma como quer. As tendências são lançadas pelas grandes marcas, mas cada um tem a sua maneira de se expressar, a sua criatividade e maneira de olhar para as coisas”.

Há uma divergência de sentimentos em relação à forma como os portugueses se vestem. Gabriela acredita que “se vai às lojas com maior regularidade. É engraçado o paralelismo: as pessoas têm cada vez menos tempo para pensar no que vestir, mas cada vez mais vontade de estarem bem vestidos e com uma imagem impecável”. João critica a forma como em Portugal se olha para a diferença: “Cria-se um certo receio nas pessoas, o que faz com que se vistam de forma igual, quase de maneira padronizada”.

As chamadas lojas de fast fashion, como a Zara, H&M e outras, vieram contribuir para que hoje já não se olhe tanto para essa diferença. A moda aproximou-se de quem a compra. As fotografias nas redes sociais funcionam como o espelho de um gabinete de provas e hoje “as pessoas querem sentir-se bem e mostrar-se bem”, diz Gabriela Pinheiro.

Porque a moda serve o propósito de embelezar e aumentar a autoestima e as “pessoas são o ponto de partida”, diz Pedro Crispim. Acrescentando que “as tendências são, se quisermos, um organismo vivo”. Que se alimentam, única e exclusivamente, de quem as veste.