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A Inteligência Artificial no combate ao suicídio

Nos Estados Unidos, um algoritmo vai analisar o que é publicado no Facebook em busca de comportamentos que possam indiciar tendências suicidas

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Não é uma das principais causas de morte em Portugal. No entanto, o suicídio foi, o ano passado, a causa de morte para mais de 1000 residentes no país. Um valor que poderá ser muito maior se tivermos em conta que os óbitos que entram na categoria “Acidentes, envenenamentos e violências” são, muitas vezes, mal referenciados e deveriam estar incluídos na categoria do suicídio. Os números podem ser consultados NO PORDATA e é fácil constatar que os casos têm vindo a aumentar.

Em 2013, O EXPRESSO REVELAVA, com a ajuda da Lusa, os números do OSPI-Europe, um projeto europeu que tinha por alvo último o combate à depressão que afetava mais de 20 milhões de europeus. Segundo a Organização Mundial de Saúde, NUM RELATÓRIO já deste ano, o suicídio é a segunda causa de morte dos jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos

Como é que se combate esta tendência? As principais organizações têm algumas abordagens bem definidas e que passam, na sua essência, por estratégias para uma política pública de Saúde Mental muito mais preventiva. A deteção dos sinais que levam, potencialmente, ao suicídio é, assim, crítica para se conseguir evitar este desfecho e, claro, ajudar a pessoa que está dentro deste quadro clínico.

Com a alteração de comportamentos provocada pelo advento da Internet e, principalmente, pela entrada em cena das Redes Sociais, é pertinente antecipar de que forma é que tecnologias como a Inteligência Artificial podem ajudar na prevenção do suicídio.

Provavelmente, vai ficar surpreendido se lhe disser que a Facebook tem, neste momento, um projeto piloto a decorrer nos Estados Unidos que utiliza análise de padrões para assinalar utilizadores desta rede social que possam estar com tendências suicidas. A experiência é consequência de um pacote de ferramentas que a empresa lançou o ano passado e que, depois de implementadas, permitiram aos utilizadores do Facebook sinalizar publicações que consideraram conter indícios de um comportamento ligado ao suicídio. Sempre que um post (publicação) é marcado, o Facebook contacta a pessoa em questão sensibilizando-a para procurar a proximidade dos amigos e sugere-lhe os contactos de linhas de ajuda profissionais.

Nesta nova fase de implementação, a “maior rede social do ciberespaço” também permite a conversação instantânea (usando o Facebook Messenger) com algumas das organizações que estão habituadas a lidar com estes quadros clínicos. No entanto, o dado mais crítico para a prevenção destas mortes, é a análise ao texto das publicações feitas nesta rede. O que o algoritmo está a fazer é comparar aquilo que foi definido como sendo sinal de alerta – tem por base todos os posts “suicidas” que foram assinalados pelos utilizadores - para conseguir “perceber” se o que está a ser escrito tem esses mesmos padrões. Aliás, a nova ferramenta também vai ter em conta o que é escrito nos comentários aos “posts suspeitos”. Tudo isto para detetar se há algum comportamento anómalo digno de nota.

E a Facebook tem “sentido no corpo” os problemas de ser uma porta escancarada para o mundo. Já em janeiro, Mark Zuckerberg reconheceu o problema quando escreveu oficialmente na Rede: “To prevent harm, we can build social infrastructure to help our community identify problems before they happen. When someone is thinking of suicide or hurting themselves, we've built infrastructure to give their friends and community tools that could save their life.» Pode ler o resto do post AQUI .

A preocupação de Zuckerberg com o suicídio é compreensível. Afinal, há alguns casos de jovens que usaram as capacidades de transmissão de vídeo em tempo real permitidas pelo Facebook para mostrarem, em direto, os seus suicídios.

A partir do momento que a empresa disponibiliza ferramentas deste tipo torna-se impossível controlar o que é publicado a cada momento. É sempre possível agir à posteriori, mas isso não vai evitar que milhares de pessoas vejam, em direto, outra a acabar com a vida.

Sim, para a Facebook é imperativo o desenho de algoritmos de predição cada vez mais céleres de forma a terminar com este fenómeno antes que assuma contornos epidémicos.

Já este ano, investigadores da Florida State University conseguiram, utilizando sistemas de Inteligência Artificial, prever, com 80% de certeza, a tendência para um indivíduo cometer suicídio no espaço de dois anos. O estudo foi feito com o acesso aos registos de saúde eletrónicos de 2 milhões de pacientes no Tennessee, Estados Unidos. Esses dados foram analisados por algoritmos avançados que cruzaram elementos como as deslocações às urgências médicas e as medicações prescritas; o que permitiu detetar padrões que, segundo os especialistas, podem conduzir ao suicídio. Pode ler o estudo AQUI .

Para a Facebook, além do texto, vai ser determinante conseguir fazer o mesmo tipo de análise comportamental no vídeo e no áudio. Aliás, até às próprias fotos publicadas. Um caminho que vai demorar, porque a análise destes conteúdos é mais complexa do que a efetuada ao texto.

De qualquer forma, num mundo onde as “coisas” têm cada vez mais inteligência e onde ganham conectividade, será interessante pensar até que ponto será possível existir doença mental que não seja detetada com relativa antecedência. Algoritmos bem treinados vão sabê-lo pelos sinais de cansaço que mostramos ao espelho inteligente que está na casa de banho; por aquilo que o colchão da cama vai contar sobre as horas que dormimos e qual a qualidade do sono; a roupa que usamos mostra a temperatura do corpo e os movimentos repetitivos que são feitos ao longo do dia; o frigorífico sabe o que andamos a comer (e a evitar); o televisor e o computador guardam o que lemos, o que vimos e o que ouvimos; o telefone mantém o registo das chamadas que não atendemos e das pessoas com quem falámos; o carro vai guardar os que trajetos fizemos e qual a pressão arterial registada…. Tudo isto é “comida” para algoritmos insaciáveis que, depois de uma breve digestão, vão regurgitar o melhor perfil clínico alguma vez produzido. Não vão estar, ainda, ao nível do vimos no genial “Gattaca” (filme de Ficção Científica de 1997) no qual, à nascença, já vamos conhecer qual a nossa causa de morte e a preponderância para desenvolvermos determinadas patologias.

O que a Facebook está a fazer nos Estados Unidos vai estar, algures, disponível para a restante comunidade desta grande rede digital. Em caso de sucesso, a empresa americana dará um dos maiores contributos de sempre para a prevenção do suicídio no mundo ocidental. Sim, porque existe todo um “outro mundo” onde a eletricidade e a água potável escasseiam. Locais onde a Internet é mesmo, só, um problema de “primeiro mundo”. Aos milhões que aí vivem, os algoritmos ainda não servem de grande coisa.