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Hora mudou. E saiba quando os relógios de Greenwich comandaram os de Lisboa

As mudanças da hora legal têm uma longa história. De vez em quando é preciso acertar os relógios

JOE RAEDLE /GETTY IMAGES

A mudança da hora é um ato político. Mete acordos, convenções e tratados internacionais. Até as duas Guerras Mundiais levaram muitos países a adotar novos horários e, na década de 1990, Portugal experimentou o horário de Bruxelas. Leia a história (um pouco) errática da hora legal, e não se esqueça de adiantar o relógio 60 minutos à 1h hora deste domingo. Se viver nos Açores, tem de adiantar o relógio à meia-noite

Poucos gostamos de dias pequenos. Mas a verdade, é que a hora de inverno está mais próxima do nosso ritmo solar do que o horário de verão, e da regulação horária que vigorava em Portugal até 1 de janeiro de 1912, ano em que os relógios do país deixaram de andar a toque do meridiano de Lisboa, para passarem a reger-se pela convenção internacional que adotou o tempo de Greenwich como padrão.

Na escola aprendemos que os meridianos são 24 linhas imaginárias longitudinais, que distam 15 graus umas das outras. A pequena cidade de Greenwich, no Reino Unido, foi escolhida pelos países que participaram na Convenção de Washigton [1884] para ser a linha que separa o Este do Oeste.

A ‘linha’ do meridiano de Greenwich ‘separa’ o Este do Oeste, da mesma forma que o Equador assinala a divisão entre o hemisfério Norte e o Sul. O meridiano de Lisboa fica a Oeste de Greenwich, cerca de 9 graus DR

A ‘linha’ do meridiano de Greenwich ‘separa’ o Este do Oeste, da mesma forma que o Equador assinala a divisão entre o hemisfério Norte e o Sul. O meridiano de Lisboa fica a Oeste de Greenwich, cerca de 9 graus DR

DR

A escolha do Reino Unido, como país anfitrião do meridiano que iria reger os relógios de boa parte do mundo, não foi pacífica. A França disputou esse lugar, e durante alguns anos continuou a reger-se pelo meridiano de Paris.

Portugal só abandonaria a hora definida pelo meridiano de Lisboa, depois da Implantação da República, e a necessidade do novo regime ser reconhecido por instituições e parceiros internacionais não terá sido alheia à decisão.

A imprensa da época deu pouca importância ao acontecimento. Numa breve menção, o jornal “A Capital” de terça-feira, 2 de janeiro de 1912, escreveu que “em virtude da nova hora official, o expediente de quasi todas as repartições publicas passa a ser das 11 às 17 horas”.

O só assunto ganharia uma nova dimensão no final de 1913 com o anúncio da instalação de um relógio público no Porto de Lisboa, que iria ser “comandado de segundo em segundo pela pendula padrão do observatório astronómico de Lisboa”.

A edição de 29 de dezembro de 1913 da IP apresenta o relógio público que vai ser instalado no porto de Lisboa, e que é “comandado de segundo em segundo pela pendula padrão do observatório astronómico de Lisboa”

A edição de 29 de dezembro de 1913 da IP apresenta o relógio público que vai ser instalado no porto de Lisboa, e que é “comandado de segundo em segundo pela pendula padrão do observatório astronómico de Lisboa”

ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA / HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

A questão horária ganhou honras de primeira página com a entrada de Portugal na I Guerra Mundial, em março de 1916. Dois meses depois, a 9 de junho, o decreto nº 2:433 justificava a criação da hora de verão – ou seja o horário de que nos despedimos na madrugada deste domingo – com as “dificuldades económicas determinadas pela guerra e a necessidade de harmonizar a hora legal do continente da República com a já adoptada noutros países e especialmente na Inglaterra”.

Os relógios portugueses foram adiantados às 23 horas de 17 de junho, e passaram a regular “todos os serviços públicos e particulares no continente da República”, até 1 de novembro desse ano, dia em que o país regressou ao tempo determinado pelo meridiano de Greenwich.

A Grande Guerra foi decisiva para que Portugal e outros países que combatiam contra o exército alemão, adotassem pela primeira vez a Hora de Verão. Cá, foi a 17 de junho de 1916 e vigorou até 1 de novembro desse ano

A Grande Guerra foi decisiva para que Portugal e outros países que combatiam contra o exército alemão, adotassem pela primeira vez a Hora de Verão. Cá, foi a 17 de junho de 1916 e vigorou até 1 de novembro desse ano

A CAPITAL / / HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

O país continuaria a ter hora de verão até 1921. Em 1922 e 1923 manteve-se fiel, durante todo o ano, ao tempo de Greenwich, voltando a adotar o horário de verão até 1941, com excepção para os anos de 1925, 1930 e 1933.

O insólito horário da II Guerra

Portugal assumiu-se como um país neutral na II Guerra Mundial; no entanto, nem essa declaração, nem o facto de ter sido um corredor de trânsito para milhares de refugiados que fugiam ao terror nazi evitou o bloqueio económico dos Aliados. Como tempos de exceção exigem medidas de exceção, no dia 2 março de 1942, o ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco – o mesmo homem que mandou construir a estrada Marginal e o edifício do Instituto Superior Técnico – assinou uma portaria sobre o novo regime da hora legal.

No seu despacho, Pacheco reconheceu que “a alteração da hora legal para a hora de verão vem sendo há muito admitida pelo Governo como medida que interessa à economia e à vida do País”, mas diz que dadas as circunstâncias excecionais, era necessário ir mais longe e explorar esse conceito, “de forma a proporcionar maiores facilidades à economia da Nação e até influir favoravelmente nos hábitos e na vida do Pais”.

Durante a II Guerra, entre 1942 e 1945 a hora foi adiantada 60 minutos em abril e depois mais 60 minutos em abril. Depois foi atrasada 60 minutos em agosto e mais 1 hora em outubro. Uma peculiaridade horária de tempos de guerra

Durante a II Guerra, entre 1942 e 1945 a hora foi adiantada 60 minutos em abril e depois mais 60 minutos em abril. Depois foi atrasada 60 minutos em agosto e mais 1 hora em outubro. Uma peculiaridade horária de tempos de guerra

DIÁRIO DE LISBOA / FMS

E foi assim, que entre 1942 e 1945, Portugal teve uma hora de inverno, outra de primavera e outra de verão, reguladas pelas existência legal de dois períodos de hora de verão, “em que se avançaria uma hora, períodos que começariam em datas que o nascer do sol se tivesse já verificado mais cedo uma e duas horas”, respetivamente.

Os relógios avançaram uma hora na noite de 14 para 15 de março. Depois, voltaram a adiantar 60 minutos na noite de 25 para 26 de abril. Por fim, fizeram o primeiro movimento inverso na noite de 15 para 16 de agosto, recuando os segundos 60 minutos – para assim voltar ao tempo alinhado com o meridiano de Greenwich – na noite de 24 para 25 de outubro.

Observatório Astronómico de Lisboa

Observatório Astronómico de Lisboa

Marcos Borga

Entre 1946 e 1965, a vida voltou ao regime da hora de inverno/hora de verão, mudando apenas as datas de entrada em vigor de cada uma delas.

No entanto, a falta de consenso sobre os benefícios da hora de verão, determinaram uma nova inflexão na errática política da hora em outubro de 1966. Um decreto-lei do Ministério da Educação Nacional, publicado no dia 1, por ordem do Presidente da República Américo de Deus Rodrigues Thomaz, invocava as vantagens da existência de “uma hora única durante todo o ano, pondo termo à distinção entre hora de inverno e hora de verão”.

Dez anos de reinado da hora de verão

A existência dessa “dualidade causa graves perturbações. especialmente nos domínios dos transportes e telecomunicações internacionais”. O Governo de Oliveira Salazar lembrava ainda que “os países com que temos mais frequentes contactos nestes domínios já adoptaram a solução de uma hora única coincidente com a nossa hora de verão”.

Entre 3 de abril de 1966 e 26 de setembro de 1976, Portugal viveu sempre na hora de verão, de acordo com a cronologia da Hora Legal em Portugal continental no site do Observatório Astronómico de Lisboa.

OBSERVATÓRIO ASTRONÓMICO DE LISBOA

Os dez anos em que vigorou o decreto-lei em que Inocêncio Galvão Telles, ministro da Educação do Estado Novo, defendeu a existência de uma hora única durante todo o ano, coincidem com o período em que o país mais se afastou do seu horário solar natural.

Na noite de 31 de dezembro de 1911 para 1 de janeiro de 1912, data que assinala o fim do reinado do meridiano de Lisboa em favor do primado do tempo de Greenwich, os relógios foram adiantados 36m 44,68s, o que equivale à distância horária entre os meridianos que passam pelas duas cidades.

Como o meridiano de Lisboa passa cerca de 9 graus a Oeste de Greenwich, o nosso horário de verão afastou-se quase 1,5 fuso e meio do horário solar natural, já que a hora de verão – de que muitos gostam por causa dos dias longos – é a hora de Greenwich acrescida de 60 minutos.

Na zona exterior do Observatório de Greenwich, a linha que divide o planeta em Este e Oeste. O meridiano de Lisboa fica cerca de 9 graus a Oeste deste padrão

Na zona exterior do Observatório de Greenwich, a linha que divide o planeta em Este e Oeste. O meridiano de Lisboa fica cerca de 9 graus a Oeste deste padrão

DR

Recorde-se que no início do século XIX, muito antes de Greenwich ter sido eleito relógio do mundo, Portugal – e outros países europeus – adotaram o tempo solar médio, para simplificar a definição da Hora Legal.

Era a época em que os Reais Observatórios Astronómicos da Marinha [Lisboa], e de Coimbra definiam a Hora Legal para a sua região de longitude. A Hora Legal era importante para regular o ritmo de vida citadino, bem como as atividades comerciais e da marinha. No campo, os trabalhos quotidianos regiam-se pelo horário solar.

Em 1861, a inauguração do Real Observatório Astronómico de Lisboa, foi um passo importante para melhorar o conceito de hora legal. Em maio de 1878, esta instituição passou a ter a incumbência de “fazer a transmissão telegraphica da hora official ás estações semaphoricas e outros pontos do paiz”. Em 1903, este Observatório foi incumbido de fazer a “determinação diária da correcção e marcha das pêndulas e chronometros” ali instaladas, “especialmente da pêndula que for considerada padrão”.

Instrumentos de estudo no Observatório Astronómico de Lisboa

Instrumentos de estudo no Observatório Astronómico de Lisboa

Rui Ochoa

Novas ordens de Bruxelas

Nos 18 anos seguintes, entre 1977 e 1992, o país voltou a ter hora de inverno e hora de verão.

Muitos de nós teremos ainda memória dos longos dias que vivemos em 1993, 1994 e 1995; fosse inverno, fosse verão, a luz do sol durava até muito tarde, porque no afã de aproximação aos nossos parceiros da União Europeia se experimentou viver com a hora do fuso daqueles que estão mais próximos. Assim passámos a ter a hora de Espanha, França, Bélgica etc, ou seja andámos sempre adiantados 60 minutos no inverno [com a hora de que verão de que nos despedimos esta noite], adotando também a hora de verão deles, o que fazia com que em julho anoitecesse depois das 22 horas. Na prática, voltámos ao horário adotado pelo Estado Novo na II Guerra Mundial.

Em 1996 – que foi um ano de transição nos relógios – o Parlamento Europeu, regulou a hora de verão, passando a determinar que os Estados-membros da União Europeia devem entrar na hora verão na madrugada do último domingo de março e regressar à hora de inverno na madrugada do último domingo de outubro.

A partir de 1997, durante o inverno, os relógios do território continental e da Madeira [menos uma hora nos Açores] voltaram a estar afinados pela mudanças introduzidas em 1912, ano em que o pulsar do meridiano de Lisboa foi suplantado pelo de Greenwich. No verão, andamos uma hora à frente.

Mesmo com a antipatia dos dias pequenos, o nosso horário solar de inverno está mais perto do horário solar do país, do que aquele que nos dá longos e gostosos dias de verão.

Quem quiser conhecer todos os países por onde passa o meridiano de Greenwich pode começar pelo continente Europeu, com Espanha, França e Reino Unido. Em Àfrica, viajará pela Argélia, Mali, Burkina Faso, Togo e Gana. Os mais aventureiros, sem medo do frio, podem ir até à Antártida.

N.B. O Expresso agradece as informações e imagens do OAL

ESTE TEXTO É A ADAPTAÇÃO DE OUTRO INICALMENTE PUBLICADO A 29/10/2016