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Rui Hortelão deixa direção da revista “Sábado”

ERC e Comissão da Carteira de Jornalista avaliam queixas contra Hortelão por “alegado exercício de funções incompatíveis com a profissão de jornalista” ao ser sócio de uma empresa que, entre outras coisas, presta consultoria e faz gestão de espaços publicitários. Rui Hortelão diz que não violou o Estatuto do Jornalista e garante que saída da “Sábado” não está relacionada com essas queixas

O grupo Cofina anunciou esta terça-feira, em comunicado, a saída do jornalista Rui Hortelão da direção da revista "Sábado". Depois de três anos na direção da newsmagazine – onde sucedeu a Miguel Pinheiro –, Hortelão saiu, segundo a Cofina, "para se dedicar a outros projetos" fora do grupo. No mesmo comunicado, a proprietária do "Correio da Manhã", do "Record" e do "Negócios" agradece o contributo do jornalista "para afirmação da 'Sábado'" e adianta apenas que a nova direção da revista "será comunicada brevemente".

O Expresso tentou contactar a administração da Cofina para perceber porque saiu o jornalista sem ter a sucessão já definida e detalhar os motivos da sua saída. Mas até ao momento não foi possível obter um comentário do grupo. Fica assim por saber se esta saída está relacionada com a existência de queixas contra o jornalista na Entidade Reguladora para a Comunicação Social, na Comissão da Carteira Profissional de Jornalista e no Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas pelo alegado exercício – à margem da "Sábado" –de funções incompatíveis com a profissão de jornalista.

Em causa está a alegação de que Rui Hortelão acumulava as funções de diretor da "Sábado" com a qualidade de sócio-gerente de uma empresa – a Coquette & Butterfly, Lda – que se dedica, entre outras coisas, à edição de publicações em papel e digital, à organização de eventos, à venda e gestão de espaços publicitários e à consultoria a empresas. Ora, estas últimas funções colidem com o Estatuto do Jornalista, que estipula no artigo 3.º que o exercício da profissão é incompatível com "funções de angariação, conceção ou apresentação de mensagens publicitárias" e "funções remuneradas de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem, bem como de orientação e execução de estratégias comerciais".

Contactado pelo Expresso, Rui Hortelão garante que "não há uma relação causa-efeito entre estas queixas e a saída da direção da revista, como demonstra aliás o comunicado da Cofina". E, sem aprofundar o teor das queixas contra si, assegura apenas estar convicto de que irá provar – se para isso for chamado – que não exerceu quaisquer funções incompatíveis com o jornalismo. Nomeadamente, por ter deixado de ocupar o cargo de sócio-gerente da empresa antes de ingressar na "Sábado" e por, quando exerceu funções na Coquette & Butterfly, Lda, entre 2011 e 2013, ter apenas desenvolvido projetos de índole editorial e não comercial.

Fontes ouvidas pelo Expresso indicam, aliás, que ainda em 2013, pouco depois de Hortelão ter assumido a direção da "Sábado", a administração da Cofina terá sido informada da existência desta empresa e que não terá levantado qualquer objeção, por entender que não existiam incompatibilidades.

As mesmas fontes sustentam, de resto, que na origem da saída do jornalista dos quadros da "Sábado" terão estado divergências crescentes com a administração em torno do futuro da revista e que se agudizaram nos últimos meses, no âmbito de um processo de reestruturação em curso na Cofina – que inclui vários reajustamentos editoriais e redução de quadros. Nesse quadro, de resto, terá sido esta terça-feira comunicada internamente a reformulação do jornal gratuito "Destak" e a dispensa da quase totalidade dos jornalistas até agora afetos ao projeto.

ERC e Comissão da Carteira analisam queixas

A apresentação da queixa contra Hortelão no regulador dos media foi confirmada ao Expresso por fonte da ERC, que revelou "a entrada de uma participação, a 1 de março, contra o diretor da revista "Sábado", Rui Hortelão, por um alegado exercício de funções incompatíveis com a profissão de jornalista". A queixa, segundo a mesma fonte, "encontra-se em fase final de apreciação pelos serviços" do regulador dos media.

Além da ERC, a queixa foi também remetida por carta pelo mesmo remetente para o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas (CDSJ) e para a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Contactado pelo Expresso, o CDSJ esclarece, no entanto, que "apenas recebeu uma carta por correio postal, que não vinha devidamente identificada" e que por isso, para todos os efeitos, "não recebeu formalmente nenhuma queixa sobre esse assunto". "O nome do remetente vinha no envelope, mas não era indicada morada e na carta não era feita a identificação do queixoso nem incluídos meios de contacto do mesmo. Por esta razão, o CDSJ não pode dar entrada da queixa e iniciar um processo de análise sobre o assunto em questão", explicou a presidente do CDSJ, a jornalista São José Almeida.

Até ao momento não foi possível obter uma resposta da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, mas o Expresso sabe que este organismo também recebeu a queixa e já deu início ao processo de averiguações sobre este processo.

Rui Hortelão iniciou a carreira de jornalista no "Record" e, antes de assumir a direção da "Sábado", em 2013, passou pelas redações da "Focus", do "Correio da Manhã" e do "Diário de Notícias", onde foi diretor-adjunto.

Em 2016, a revista "Sábado" teve uma média de circulação paga de perto de 44 mil exemplares, o que traduziu uma quebra de quase seis mil exemplares face às vendas de 2015.