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Os capacetes azuis das ciberguerras

REVELAÇÕES SÃO ALERTA Julian Assange, fundador da Wikileaks

REUTERS

As revelações da Wikileaks sobre as evoluídas capacidades de espionagem da CIA reforçam a necessidade de os países definirem estratégias e equipas transnacionais responsáveis pela defesa contra ciberataques perpetrados em tempo de paz ou de guerra. Afinal, quem é que nos vai ajudar quando uma cidade ficar sem eletricidade, quando os aviões não puderem levantar voo ou quando nos hospitais não for possível fazer cirurgias?

Sou do tempo em que “Os Soldados da Fortuna” não se chamavam “Esquadrão Classe A”. Da altura em que Indiana Jones nos salvava do misticismo nazi ou dos novos descobridores que, agora no Espaço, tinham uma base na Lua ou uma nave que era uma verdadeira nau “to boldly go where no man has gone before”. Nas décadas de 80 e 90 do século passado era muito fácil distinguir os bons dos maus. Depois vieram os computadores e, com eles, os bons hackers e os maus hackers. E a confusão instalou-se. Os países começaram a usar a tecnologia para melhorar as suas técnicas de espionagem a outros países… e aos próprios cidadãos. Também a espionagem industrial acelerou e as empresas começaram a blindar-se contra olhares indiscretos. Na Internet, aquela que todos usamos, piratas informáticos aproveitaram (e aproveitam) o manancial de vítimas que todos os dias surgiam (surgem) online para ganhar dinheiro de forma fácil.

Ninguém estava preparado para a forma gentil, mas abrupta, como a tecnologia entrou nas nossas vidas. Passámos muito rápido do zumbido dos lentos modems para a inebriante fibra ótica. E se, no passado, era muito fácil distinguir os maus dos bons, hoje é quase impossível.

E isso ficou provado pelo que nos contou Edward Snowden e Bradley Manning (agora Chelsea Manning) e foi reforçado a semana passada pelos milhares de documentos trazidos a público pela Wikileaks. Sim, já sabíamos: algumas das maiores agências de segurança norte-americanas usam a tecnologia para nos espiar, a todos. Agora ficámos a saber que pagam a terceiros (empresas e hackers) por falhas de segurança em sistemas usados por milhões. Depois, deixam essas “portas das traseiras” abertas para manter o acesso direto à informação. Não avisam as empresas que fazem os dispositivos ou os sistemas. E também não sabem se outros, com diferentes agendas e intenções, usam as mesmas portas.

Quer isto dizer que há portas e janelas escancaradas em alguns dos sistemas digitais mais utilizados. É assim no iOS, da Apple, no Android, da Google, ou no Windows, da Microsoft. E, ao contrário do que se passava com os mercenários “samaritanos” de “Soldados da Fortuna”, não sabemos se há alguém que zele, de uma forma independente, pelos interesses de todos.

E se...?

O que acontece hoje se um país decidir deixar outro às escuras? Ou seja, ataques informáticos direcionados a centrais elétricas e nucleares (como já aconteceu na Ucrânia, por exemplo) que as deixam inoperantes. E se, como prevê Bruce Schneier (um dos mais destacados analistas de segurança informática), for efetuado um ataque de grande escala que vai “deitar a Internet abaixo”?

Quem é que garante a defesa, em tempo de paz ou de guerra, de países e organizações que sejam atacados, digitalmente, por outros países? Quem é que nos garante que as informações vindas a público sobre a CIA, a NSA ou outra agência de segurança… não obedecem ao cumprimento de agendas de terceiros interessados em obter efeitos muito cirúrgicos – como a publicação dos e-mails pessoais de Hillary Clinton, por exemplo. Sim, não é fácil distinguir os bons dos maus.

Numa das maiores conferências sobre segurança informática, a RSA Conference, A MICROSOFT DEFENDEU a criação de uma Convenção de Genebra Digital . Ou seja, a formalização de tratados que protejam quem utiliza a Internet e dispositivos associados. Um desafio colocado a instituições governamentais que devem antecipar cenários deste tipo num mundo onde, já em 2020, vão existir mais de 50 mil milhões de dispositivos ligados à Internet.

O problema? A maioria dos países não tem capacidades (conhecimentos técnicos e meios humanos, entenda-se) para lidar com este tipo de ameaças. E o ciberespaço está, de facto, em outras mãos. Nas nossas, que somos os titulares dos equipamentos, e nas das empresas privadas que gerem as redes, as plataformas, e as grandes “quintas” de servidores por onde flui toda esta informação.

Daí ser necessário estabelecer quem é que vai operar numa linha da frente virtual perante ataques que se dão num espaço que não é físico (o ciberespaço), mas que têm consequências bem reais – como foi concretizado nos ataques que a Coreia do Norte fez à Sony em retaliação pela produção do filme “Uma entrevista de loucos” – que ironiza a ida de uma equipa de um canal norte-americano à Coreia do Norte para fazer uma entrevista ao líder do país.

Ontem, Tim Berners-Lee, considerado o “Pai da Internet”, defendeu, NUM ARTIGO DE OPINIÃO NO “THE GUARDIAN”, que é necessário fazer três coisas para salvar a Internet: reconquistar a titularidade da nossa informação pessoal; maniatar os algoritmos “cegos” que ajudam a espalhar informações falsas; controlar as campanhas políticas online que têm intenções muito pouco éticas. Sim, há muito trabalho pela frente para que a Internet se mantenha como a conhecemos – ou melhor.

Existem organizações que podem fazer pressão pública para que os países definam quais as estratégias a seguir para criar estas “Nações Unidas Digitais”. A Web Foundation, presidida por Berners-Lee, é uma delas. No entanto, é imperativo, defendo eu, que as maiores empresas mundiais de tecnologia sejam chamadas a este debate. São elas que possuem os ativos críticos para conseguir diminuir os efeitos de uma ciberguerra. Ou seja, serão elas que vão integrar uma potencial força de “capacetes azuis virtuais” responsáveis por entrar em cena nos primeiros momentos dos ataques informáticos. E, em última análise, cabe-nos a nós, sociedade civil, fazer pressão para que tais organizações sejam criadas. Somos atores ativos deste ecossistema. Afinal, usamos a Internet diariamente e temos, no bolso, o mais poderoso instrumento de comunicação alguma vez criado.

O advento da Internet das Coisas (a massificação de dispositivos que nos rodeiam que estão a ganhar capacidades de conectividade), da Comunicação Máquina a Máquina (os dispositivos trocam informações entre si e têm a capacidade de executar, autonomamente, ações), a chegada dos carros autónomos, ou a concretização das Cidades Inteligentes… poderia dar mais algumas dezenas de exemplos de como a tecnologia baseada em redes de comunicações vai mudar o nosso quotidiano. O pouco que vamos sabendo hoje sobre formas de espionagem e de roubo de informação é um pálido reflexo do que nos espera num futuro onde tudo está ligado.