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Sociedade

Futuros médicos falham no corpo humano

Paulo Vaz Henriques

Exame de anatomia reprova alunos do segundo ano de Medicina em Lisboa. Inquérito aberto “por ser tão anómalo”

Nunca tinha acontecido. A maioria dos futuros médicos no segundo ano de formação na Faculdade de Medicina de Lisboa (FML) não acertaram nas respostas sobre o corpo humano. Dos 357 alunos sujeitos ao exame de anatomia clínica mais de metade não passou. “Ficámos estupefactos. É uma cadeira básica para um médico”, confessa António Gonçalves Ferreira, coordenador da disciplina.

Identificar o que estava numa TAC ou ecografia e fazer ‘diagnósticos’ sobre problemas práticos — por exemplo, descrever as estruturas atingidas numa vítima de esfaqueamento na axila ou na virilha — foram as principais dificuldades dos alunos no exame, teórico e prático, feito no início do ano. As notas negativas ficaram acima dos 50% e a surpresa foi geral. “Na prova teórica chumbou mais de metade e estávamos à espera que o resultado melhorasse na avaliação prática mas foi outra desgraça”, diz o responsável pela anatomia na FML.

Conforme a disciplina, a taxa de reprovação varia entre 5% e 15%, logo valores acima de 50% eram até agora inéditos. “Nunca tinha acontecido, pelo que foi objeto de reflexão”, afirma Ivo Furtado, regente da disciplina de anatomia clínica, que correlaciona o conhecimento do corpo humano com a prática médica. O caso foi de tal forma polémico, “por ser tão anómalo, que foi constituída uma comissão de análise, dirigida pelo presidente do Conselho Pedagógico da FML”, explica António Gonçalves Ferreira.

Como é que alunos brilhantes que querem ser médicos não conseguem correlacionar o corpo humano com a doença, precisamente o que vão ter que fazer para tratar doentes? A resposta demorou algumas semanas até ser encontrada, já este mês. Resumidamente: prova difícil e menos estudo. “A matéria foi dada com pormenor talvez excessivo, os alunos não acompanharam a disciplina nas aulas teóricas, a dificuldade das perguntas foi definida para cima, muitas perguntas e questões complexas para responder em quatro a cinco minutos na avaliação prática e imagens de imagiologia dadas com pormenor apenas nas aulas teóricas”, elenca António Gonçalves Ferreira.

Na origem da ‘amnésia’ em anatomia clínica estão mudanças curriculares. A cadeira tem sido reestruturada no âmbito de Bolonha para que os objetivos sejam cumpridos mesmo com a redução da disciplina de anual para semestral. “A exigência é maior nos dois primeiros anos, há a biologia molecular, a genética... e as ‘velhinhas’ fisiologia e anatomia têm mesmo assim de manter um nível mínimo de exigência porque são indispensáveis para ser-se médico”, afirma o coordenador da anatomia.

Os desvios identificados pela comissão de análise foram corrigidos e a taxa final de reprovação foi de 4,4%. “É um bom resultado. Lidar com a saúde humana requer uma formação sólida”, diz o regente da cadeira, Ivo Furtado. Os professores garantem que os estudantes colaboraram no processo, mas agora querem manter o caso entre portas. Nem mesmo a associação de estudantes quis comentar o sucedido.

Na FML a opinião é de que a qualidade dos alunos não diminuiu mas há alertas. “Num curso de grande exigência intelectual só se aumentou um pouco a dificuldade e o resultado não foi bom. Dá que pensar sobre a grande capacidade com que os alunos vêm rotulados”, diz António Gonçalves Ferreira.

O médico explica que “no secundário está tudo dividido por disciplinas e aqui é preciso manejar a matéria de maneira diferente: é preciso integrar conhecimentos e uma ginástica mental que nem todos têm”.