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Um cabaré ao fundo do beco

O chefe José Avillez fotografado no restaurante Beco, junto das bailarinas do espetáculo, momentos antes de atuarem

Nuno Botelho

Lisboa não é um cabaré, mas voltou a ter um no novo espaço do chefe José Avillez, que combina um menu de degustação com um espetáculo sensual para assistir à mesa

A noite arranca logo com mistério. Um mestre de cerimónias aborda-nos num recanto do Bairro do Avillez, em Lisboa, pedindo-nos uma senha de acesso ao Beco — um novo cabaré que combina um espetáculo de variedades com um serviço de alta cozinha. Improvisámos uma senha (no nosso caso) e somos convidados a entrar por uma passagem secreta (um falso armário) até um outro mundo. Um truque cénico acertado, que nos leva a mergulhar num espaço de boémia e sensualidade q.b., mas com sofisticação e intimismo.

Parecemos ter entrado num clube clandestino, mas de gabarito, e somos logo envolvidos pela poesia da arquitetura. O teto em abóbada denuncia que no passado aquele lugar, que outrora pertenceu ao Convento da Trindade, já foi uma capela. De capela a cabaré. Do sagrado ao profano. Agora alimento não só para a alma, mas para os sentidos. O ambiente é à média luz, os veludos são vermelhos, há pequenos candeeiros e sapos ao balcão, mas o que se repara em primeiro lugar é no monumental desenho de uma mulher desnuda na parede, ao fundo do bar (obra da artista Henriette Arcelin). Parece ser Dita Von Teese, a diva americana do burlesco. Estão servidas as primeiras pistas para a experiência sensorial que se segue...

Sentados numa mesa perto do palco, somos de imediato agraciados com uma rosa e um cocktail. Sugerimos o "Miss Saigon" ( tequila, estragão e maracujá - €12) ou o valente "Too Drunk to Fuck" (aguardente, vinho do Porto, amêndoa - €14). As rosas aqui não discriminam géneros, são tanto para damas e cavalheiros, e o interior da rosa é mesmo para comer (perdão, para degustar) com uma pinça — mistura de margarita de maçã, rosas e líchias — e o cocktail poderá ser o primeiro brinde. O que se segue é um menu de degustação, com sabores e texturas que sugerem alguma volúpia e diversão, servido com ensaiados timings e ritmos que se entrecruzam com curtos momentos de espetáculo. O carismático mestre de cerimónias e as bailarinas surgem com fatiotas glamorosas e sofisticadas e cantam e dançam alguns clássicos de musicais (e não só).

Ao contrário da velha tradição do cabaré lisboeta, aqui não há corpos despidos, mas bonitas bailarinas com pernas jeitosas, com quem apetece piscar os olhos ou trocar um pé de dança — algumas delas com vozes surpreendentes. Uma nota curiosa que reforça o mistério, a exclusividade e a reserva. É pedido aos clientes que não fotografem, nem filmem o espetáculo e outros detalhes da zona das mesas. O que acontece no Beco, fica no Beco. E não deve passar para as redes sociais.

Por detrás deste conceito está o premiado chefe José Avillez, que com este Beco alarga um pouco mais o seu bairro e o seu império na restauração. Desta vez a arriscar sair da sua zona de conforto. E, quanto a isto, o que talvez ninguém saiba é que os meandros da boémia e do cabaré não são uma novidade nos antepassados de Avillez. “Em 1908, o meu trisavô José Ereira abriu o cabaré Maxim’s, no Palácio Foz. Pelo que sei, foi a primeira pessoa a ter direito de explorar um espaço de jogo em Portugal. E o Maxim’s era naquela época o clube mais elegante de Lisboa, com música, dança e jogo. Os espetáculos de cabaré serviam para dar apoio aos jogos de casino que ali funcionavam. Ora, o Beco é inspirado nesse charme, sofisticação e boémia. Quis recuperar essa aura de diversão e de elegância associada aos clubes e aos cabarés dos anos 20 e 50.”

No tempo em que se escrevia cabaret à francesa, o “Notícias Ilustrado” publicava, em 1929, que ao Maxim’s podia “levar-se confiantemente o mais viajado turista, sem receio de confrontos humilhantes com o que de melhor existe, no género, lá fora [...] o seu jazz band grita alegria [...] o ambiente é de luxo, conforto e comunicativa alegria”. Arriscamos dizer que, no essencial, o espírito se mantém hoje neste novo cabaré gourmet em que o entretenimento e o espetáculo se estende do palco às mesas, das danças e músicas aos sabores dos 12 pratos do menu de degustação, que custam entre 100 e 130 euros, dependendo do lugar e do dia da semana, com bebidas não incluídas. Destaque para o sabor a céu e a mar do ‘carabineiro com cinzas de alecrim’ e a ‘pizza de atum picante’, com cebolinho, ovas de trufa, creme de abacate e raspas de lima.

O elemento cénico e de surpresa acontece a cada sugestão gastronómica. Há bâtons que dão para comer e pintar os lábios, diamantes que derretem na boca e peças de xadrez que são um doce. E que giro é ver, mais uma vez, elas e eles a entrarem na brincadeira. Cabaré é isto, ausência de preconceitos e espaço para diversão. “Demorei algum tempo até chegar a este conceito final. Não queria ser mal interpretado ao abrir um cabaré. Mas consegui provar que se pode fazê-lo com nível, classe e diversão. O grande desafio foi conjugar o ambiente de espetáculo com o conceito de alta gastronomia. Sem que um roube o protagonismo ao outro. São dois palcos que se olham um para o outro, a zona do bar e cozinha com a do espetáculo. E aos poucos a ideia é transformar esses dois palcos num só.” Como numa grande performance.

Lisboa está a precisar de espaços como este, que sirvam diversão à mesa, uma tradição que se perdeu no tempo. E nisso Avillez marca logo pontos. Mostrando querer fazer bem Quem se recorda dos extintos Ritz e Maxime, ambos na zona da Praça da Alegria, em Lisboa, saudosos clubes e cabarets de boémia e divertimento? “Gosto de pensar que o Belcanto é um restaurante único, mas o conceito de ‘fine dinning’, com menu de desgustação de autor existe noutros espaços de Lisboa, mas um cabaret gourmet como o meu não existe. E, nesse sentido, sinto que estou a acrescentar algo novo à cidade.”

Avillez refere o restaurante do chefe espanhol “Heart”, aberto em Ibiza, em parceria com o Cirque du Soleil, a combinar também a alta cozinha com o elemento espectáculo. “Mas aí a dimensão é outra. Eles têm espaço para 150 pessoas, eu para 37. O meu espaço é mais acolhedor.” Avillez conta que neste processo deu por si a corrigir o tom de voz de uma cantora ou a pedir que algo fosse cantado ou dito de forma mais sussurrada. “Não tenho qualquer background artístico, mas tenho sensibilidade e sei bem na minha cabeça o que quero e não quero.”

Sendo Avillez o criador deste projeto, convidou para colaborar com ele uma extensa equipa, experiente na área: uma diretora artística com dez anos de experiência como bailarina da Companhia Olga Roriz (Maria Cerveira), uma coreógrafa (Sara Claro), um professor de canto (Luís Madureira), uma figurinista (Miss Suzie) e um técnico de som (Sérgio Milhano) e de Luz (Cristina Piedade). “Seria bem mais fácil e mais rentável esquecer a parte do espetáculo e apostar na parte de restaurante porque o espaço já vale por si. Mas divertíamo-nos o mesmo? Claro que não. Nem oferecíamos nada de novo.”, conta Avillez que antes da inauguração prevista para o próximo dia 16 de março, começou com ‘soft openings’ para convidados e clientes habituais para apurar o conceito. A noite termina com um forte aplauso aos artistas da noite. E todos sobem a palco: As bailarinas, o mestre de cerimónias, os empregados de mesa, os barmans e a responsável pela cozinha. Os dois palcos num só palco. E a vida é um cabaré para todos os presentes. Pelo menos por uma noite.