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Sociedade

Quando os cabelos brancos são fashion

Nunca como agora se viram tantos modelos “maduros”: a moda passou a assumir os cabelos brancos. Aquilo que começou por ser um nicho é hoje uma aposta clara, a pensar num determinado tipo de consumidor

PHILLIP PAPADIS / GREY MODELS

Esta semana, uma ex-modelo de 67 anos desfilou na passerelle da S. Paulo Fashion Week, uma das maiores mostras de moda no mundo. Suzana Kertzer foi convidada por Raquel Davidowicz, da casa UMA, para representar "a bandeira da diversidade". Há 5 anos, isto seria quase impossível. Mas a verdade é que a indústria da moda tem vindo a alargar-se e a ousar formatos novos, mais inclusivos, que permitam que mais pessoas se sintam representadas pelos manequins. Da tendência Plus Size, que trouxe para a publicidade mulheres de curvas generosas e peso muito acima da norma, aos manequins mais velhos, há novos fenómenos a instalarem-se. Até porque representam fatias importantes de mercado. Com a população a envelhecer a passos largos, e com a esperança de vida a acompanhar, é natural que os consumidores seniores não queiram abrir as revistas e ver apenas imagens de jovens.

Os "grey models" (modelos grisalhos) correspondem nos EUA e em Inglaterra a um volume interessante de negócio. Para a conhecida agência Ford, o departamento "clássico" norte-americano integra já 54 manequins, todas com mais de 40 anos, explica Paulette Ellison, diretora. E inclui histórias como a de Juliette Branker, uma mulher de 53 anos que iniciou uma carreira de manequim aos 51. Descoberta há dois anos numa aula de salsa em Manhattan, já fez variadíssimos trabalhos para marcas como a American Express, a Hallmark ou a Weleda. Contudo, decidiu manter o seu primeiro emprego. Juliette representa "a geração do baby-boom, que está a envelhecer mas mantém ainda um bom poder de compra", explica Paulette Ellison. "E deve ser retratada de forma diferente."

Outro caso de sucesso dá pelo nome de Nicola Griffin. A manequim de 56 anos alcançou um feito nunca antes visto quando apareceu em fato de banho na exigente revista norte-americana Sports Illustrated – cujas capas estão normalmente reservadas a "bombas" como Irina Shayk ou Kate Upton.

Nicola Griffin, de 56 anos, conseguiu o feito de aparecer na capa da Sports Illustrated em biquini. Assim se quebram tabus

Nicola Griffin, de 56 anos, conseguiu o feito de aparecer na capa da Sports Illustrated em biquini. Assim se quebram tabus

Bennett Raglin

Outra manequim que abraçou uma nova carreira quase aos 50 anos foi Cindy Joseph, que a vida toda trabalhou do outro lado das câmaras, como maquilhadora. Viajou pelo mundo com Cindy Crawford e Naomi Campbell, maquilhou Susan Sarandon e Willem Dafoe. Descoberta em Greenwich Village, aos 49 anos, foi logo contratada pela Dolce & Gabbana e desde então a carreira tem rolado a todo o vapor. DKNY, Liz Clairborne, Olay foram algumas das marcas para as quais trabalhou. Foi capa da revista Time, dos painéis publicitários de Times Square e teve anos em que ganhou 280.000 dólares. Hoje, dez anos mais tarde, com um filho de 40 e uma filha de 36, lançou uma linha de cosméticos própria, a Boom. "Em vez de 'anti-idade, digo 'pró-idade'. A ideia é que uma mulher se possa ver bela sem ter de se ver mais jovem", explica.

Cindy Joseph, ex-maquilhadora de celebridades, começou uma carreira de manequim aos 49 anos. Hoje, passados dez anos, tem uma linha de maquilhagem própria

Cindy Joseph, ex-maquilhadora de celebridades, começou uma carreira de manequim aos 49 anos. Hoje, passados dez anos, tem uma linha de maquilhagem própria

Para Joy Bell, de 53 anos, a questão foi a inversa. Modelo na juventude, viu a sua carreira chegar ao fim aos 30 e poucos. Vinte anos mais tarde, disseram-lhe que havia de novo mercado para ela. Começou a correr, passou de um tamanho 12 para o 8 e regressou à moda. Em 2005, chegou à capa da revista Time com o artigo "Crise feminina da meia-idade?", no qual contou o que mudou do seu início na moda para agora: essencialmente as dores nas costas quando usa saltos altos durante muito tempo, as poses que lhe pedem. Agora, tem de vender uma imagem tranquila de autoconfiança, de quem "sabe quem é".

Esta mudança também é um reflexo do nosso tempo. Com a demografia a esticar, muitos consumidores entre os 50 e os 80 têm recursos para gastar e vontade para o fazer. Daí que seja necessário também oferecer, através da publicidade, mais do que a simples imagem do avozinho e da avozinha simpáticos. Esta faixa etária da população quer sentir-se retratada.

A britânica Frances Dunscombe, de 82 anos, começou do nada uma carreira na moda. Iniciou-se na London Fashion Week, fez um editorial para a Prada e é protagonista de um documentário sobre si

A britânica Frances Dunscombe, de 82 anos, começou do nada uma carreira na moda. Iniciou-se na London Fashion Week, fez um editorial para a Prada e é protagonista de um documentário sobre si

Martin Gardner /Grey Models

Grisalhos, mas não cinzentões

No Reino Unido, em 2015, Rebecca Valentine abriu uma agência de modelos só com manequins com mais de 35 anos. A Grey Model Agency tem sido responsável pela descoberta de vários casos de sucesso. A fundadora da agência conta que esperava receber muitos pedidos de seguradoras, mas ficou surpreendida pela quantidade de solicitações que vieram da indústria da moda. Um dos seus principais achados foi Frances Dunscombe, uma sénior de 82 anos (!) que, sem qualquer experiência prévia, participou na London Fashion Week, foi contratada para um editorial da Prada e vai ser a estrela principal de um documentário na ITV no ano que vem. Esta senhora com ar de avó elegante parece ter vindo preencher uma lacuna que existia e ainda ninguém tinha percebido.

Curiosamente, o sector dos homens tem tido menos procura. Apesar de também ter belos modelos masculinos, como Jon Campling, um homem com uma longa e cabeleira grisalha, olhos azuis e barba aparada (que surgiu recentemente numa campanha para a Gucinaru Shoes), a Grey Models tem notado menos entusiasmo por parte do mercado. Será que há mais preconceitos relativamente a eles do que a elas?