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Sem nós de alta costura, Olivier Saillard apresenta o desfile mais barato do mundo

D.R.

Olivier Saillard,um dos mais reputados historiadores e comissários de moda a nível internacional, traz até ao Porto, em estreia mundial, o desfile mais barato do mundo. Um olhar crítico sobre a efemeridade e a sobredosagem de coleções

André Manuel Correia

O que significa estar na moda? O que é ser “fashion? Haverá um desfasamento entre os criadores de vestuário e a indústria em relação às reais necessidades do público? Estas e outras questões servem de mote ao desfile performativo “Couture Essentielle”, concebido pelo diretor do Museu da Moda de Paris, Olivier Saillard, empenhado em explorar e refletir sobre as fundações e os propósitos da moda contemporânea. Esta sexta-feira e sábado, o Salão Árabe do Palácio da Bolsa, no Porto, transforma-se numa “passerelle” para o desfile “mais barato do mundo”, explica o curador, no qual o principal ornamento será a componente crítica.

Longe vão os tempos em que as peças de roupa eram feitas para durar e, muitas vezes, passar de geração em geração. O paradigma mudou e, atualmente, tudo é efémero, descartável e novas tendências surgem a uma velocidade vertiginosa. Olivier Saillard é um dos mais reputados historiadores e curadores de moda em todo o mundo, mas lança um olhar bastante crítico sobre o universo em que se movimenta.

Na ‘performance’ “Couture Essentielle”, uma coprodução do Teatro Municipal do Porto em estreia mundial, Olivier propõe-se a um trabalho de desconstrução e desmistificação do que é o universo da moda. O objetivo passa por apresentá-la como algo bem mais acessível, em que qualquer pessoa pode ser potencialmente um criador, e, defende Saillard, o ponto fulcral não passa por conhecer a fundo as grandes marcas ou analisar todas as propostas apresentadas em cada estação. “Não tenho uma perspetiva muito amigável destes tempos”, começa por dizer, em entrevista ao Expresso, após um dos ensaios.

“Acho que ainda temos ‘designers’ de moda interessantes, mas penso que existe demasiada criação”, explica o diretor do ‘Pallais Galliera’ Museu da Moda de Paris. “Temos demasiada roupa e demasiadas coleções. Na última temporada pedi à minha assistente para fazer a contagem de todas as apresentações de moda em Paris, Londres, Milão e Nova Iorque. O resultado foi 400. Quando pensamos no número de peças de roupa apresentadas, o número supera os 14 mil. É muitíssimo”, frisa Olivier Saillard. “Não creio que necessitemos de todas estas roupas. “Temos muitos criadores e marcas com propostas bastante similares”, acrescenta.

Sobre este desfile, com linhas de manifesto refundador, Olivier conta que a ideia é apresentar o “mais barato desfile do mundo”. “Temos apenas quatro modelos, quatro espelhos, algumas peças de tecido muito barato e tentamos à volta disso conceber um espetáculo com meia hora de duração”, explica o especialista, com uma carreira de mais de 20 anos ligada à moda.

As antigas manequins Christine Bergstrom, Axelle Doué, Claudia Huidobro e Anne Rohart – célebres nos anos 1980 – desfilam despojadas de qualquer ornamento, apenas segurando na mão algumas peças de tecido em bruto, a partir das quais, em frente ao espelho, improvisam e concebem roupa instantaneamente. Sem botões, estampados ou linhas de alta costura.

“Couture Essentielle” apresenta-se, assim, como um ato desconstrução; como um “S.O.S” ou um alerta vigoroso contra efemeridade das “fashion trends”. É, ao mesmo tempo, uma tentativa de recentrar a atenção na matéria-prima essencial: os tecidos e as múltiplas possibilidades que oferecem, aquilo que realmente interessa a Olivier.

“A ideia é chegar não apenas a pessoas interessadas pelo mundo da moda, mas sobretudo chegar a pessoas que se mantêm interessadas, elas próprias, em conceber as suas peças de vestuário”, assevera Saillard, para quem existe um distanciamento entre os criadores e as pretensões do público. “Creio que o público atualmente consegue vestir-se de forma ‘cool’, sem precisar de comprar roupas excessivamente caras. Temos várias marcas que comercializam vestuário a um preço reduzido e com peças muito interessantes”, afirma o autor da obra “Histoire idéale de la mode contemporaine”.

Na opinião deste que é um dos mais reputados comissários internacionais, “as pessoas continuam a preocupar-se com a imagem, mas atualmente estão mais centradas no corpo. Investem mais na prática desportiva ou mesmo de cirurgias plásticas, do que propriamente em roupas”.

“Couture Essentielle” tem estreia mundial agendada para esta sexta-feira, pelas 21h30, no Salão Árabe do Palácio da Bolsa. No sábado há nova apresentação, às 19h, com uma conversa pós-espetáculo entre Olivier Saillard e a diretora do MUDE – Museu do Design e da Moda, Bárbara Coutinho.