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Fundação Oceano Azul quer ser um dos líderes mundiais na conservação

José Soares dos Santos, presidente da FOA e da Sociedade Francisco Manuel dos Santos (Grupo Jerónimo Martins)

José Caria

Esta sexta-feira, com a presença do Presidente da República, o Convento do Beato, em Lisboa, vai ser o palco do lançamento da Fundação Oceano Azul (FOA), que quer ser um dos líderes mundiais na conservação dos oceanos “no prazo de cinco a dez anos”, afirma em entrevista ao Expresso José Soares dos Santos, presidente da FOA e da Sociedade Francisco Manuel dos Santos (Grupo Jerónimo Martins)

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Qual é a grande ambição da Fundação Oceano Azul?
O nosso objetivo é fazer a defesa dos oceanos. Somos uma fundação aberta e por isso queremos criar uma rede nacional e internacional de parcerias que, no prazo de cinco a dez anos, faça com que Portugal seja um centro mundial de ciência sobre os oceanos e da sua proteção, ou seja, que Portugal seja um farol nesta matéria. Isto só se consegue com grande credibilidade e muito trabalho.

A candidatura da sociedade a que preside à concessão do Oceanário teve o apoio de instituições de peso e há membros do Conselho de Curadores da fundação ligados a elas. É a partir daqui que vão criar a rede de parcerias?
No Conselho de Curadores estão personalidades convidadas pelo seu mérito individual e não por representarem organizações internacionais. Mas a Fundação Oceano Azul (FOA) está preparada para fazer parcerias a três níveis: parceiros que querem cofinanciar programas connosco, que pretendem financiar programas concretos que já temos ou que querem investir genericamente na FOA, isto é, contribuir para o seu orçamento global.

Quem são os vossos parceiros?
Ainda não decidimos tudo, mas imagino que a criação da rede de parcerias vai começar pelos programas cofinanciados e só depois passará pelas duas outras modalidades. Eu até prefiro assim, porque é esse o caminho para se construir uma credibilidade e uma reputação sólidas.

A fundação vai gerir o Oceanário?
Não. Vai ser o conselho de administração do Oceanário, como tem sido até agora. O que acontece é que a Sociedade Francisco Manuel dos Santos (SFMS) — acionista maioritária do Grupo Jerónimo Martins — doou a Oceanário S.A., que detém o contrato de concessão assinado com o Estado, à nova Fundação Oceano Azul. Mas a Oceanário S.A. mantém-se intacta.

A SFMS está a concretizar os compromissos com o Estado da candidatura à concessão do Oceanário?
Exatamente. Estamos a concretizar o que fazia parte do nosso documento estratégico entregue ao Estado.

A fundação será lançada a 17 de março em Lisboa. O que vão anunciar?
Antes de mais vamos demonstrar ao país que a Sociedade Francisco Manuel dos Santos e, portanto, a minha família, cumpriu rigorosamente o seu compromisso com o Estado português e com Portugal, definido no programa estratégico que foi a base da nossa candidatura à concessão do Oceanário. Depois vamos divulgar a importância dos oceanos e do trabalho que é necessário fazer para a sua proteção. E demonstrá-lo através das pessoas que convidámos para fazerem parte dos órgãos sociais da fundação (Conselho de Curadores, Conselho de Administração). O nível das pessoas que conseguimos atrair é verdadeiramente espantoso, nós próprios estamos surpreendidos que elas tenham aceitado os convites que lhes fizemos. Por fim, vamos dizer que vale a pena trabalharmos juntos enquanto país e enquanto membros da comunidade internacional para proteger este bem comum que são os oceanos.

E o plano de atividades para 2017?
O Conselho de Curadores tem ainda uma palavra a dizer sobre o que deve ser feito ou não e a sua primeira reunião está marcada para 16 de março. Mas posso adiantar desde já algumas das áreas que são críticas para nós. Uma delas é a chamada literacia azul, a criação de uma geração de jovens absolutamente conscientes da importância dos oceanos. Se não começamos a passar informação e a formar os nossos jovens nesta temática, não podemos mudar a perceção que a população portuguesa ainda tem em relação aos oceanos. Isto passa por introduzir o tema nos currículos nacionais do Ensino Básico, iniciativa que tem de ser feita através de uma grande cooperação da fundação com o Estado nesta matéria. Queremos participar ativamente no financiamento deste processo e estamos no momento certo porque os currículos estão agora a ser revistos pelo Ministério da Educação. E há vários dos nossos futuros parceiros que se mostraram interessados em observar a experiência, porque depois poderá ser extensível aos seus países.

Todos os governos e Presidentes da República têm insistido neste tema.
É verdade. Algo que nos surpreendeu ao longo deste processo foi que a temática dos oceanos não está partidarizada em Portugal, parece ser um dos poucos assuntos de Estado que são consensuais a nível político. Mas não há propriamente um consenso nacional, porque para isso o povo português teria também de se manifestar sobre a matéria e concordar que se dê prioridade aos oceanos. Este é um trabalho que a Fundação Oceano Azul tem de desenvolver. Temos de demonstrar aos portugueses que realmente teríamos imensas vantagens — ambientais, económicas, sociais, culturais, políticas, estratégicas — se nos dedicássemos a esta causa de uma forma mais estruturada e intensa.

O que vão fazer na conservação dos oceanos?
O nosso trabalho vai passar nomeadamente pelas áreas marítimas protegidas e pela pesca sustentável. E já há potenciais parceiros interessados em vir para Portugal desenvolver projetos-piloto na renovação dos nossos stocks de pesca e na sua gestão mais eficiente. Existem práticas comprovadas noutros países de que a aplicação de certos programas resulta num aumento substancial dos stocks de pesca existentes, da atividade do sector e da sua atratividade.

Entrevista publicada na edição do Expresso de 11/03/2017