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Metade dos smartphones em Portugal está vulnerável a publicidade com vírus

Um em cada dois smartphones em Portugal já foI alvo de anúncios invasivos, que muitas vezes exploram vulnerabilidades para entrar e adquirir direitos nos dispositivos

Foto Leon Neal / Getty Images

Anúncios invasivos e não solicitados que exploram vulnerabilidades dos aparelhos afetam 49% dos smartphones, 42% dos tablets e 56% dos computadores dos portugueses

Maria João Bourbon

Maria João Bourbon

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Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Mais apps, mais memória, mais dados. Os nosso telemóveis, tablets e smartphones têm-se tornado cada vez mais instrumentos de trabalho e repositórios de fotografias, vídeos e de outros elementos da vida pessoal. Mas a forma como guardamos os dados nos smartphones, tablets e computadores — especialmente no que diz respeito às aplicações — coloca muitas vezes a nossa privacidade e esses mesmos dados em risco.

“Quanto mais acumulamos digitalmente, mais abrimos o dispositivo a ameaças de segurança que põem em causa dados sensíveis.” A conclusão é do estudo internacional “Lixo digital e os seus perigos”, lançado esta quarta-feira pelo Kaspersky Lab, que conclui que a grande maioria das pessoas guarda um grande aglomerado de informação nos telemóveis, tablets e computadores: não só emails (89% dos inquiridos) e mensagens pessoais (79%), mas também passwords (62%), informação financeira e detalhes de pagamento (62%) e fotos privadas e sensíveis dos próprios (65%) ou de outros (52%).

Através de entrevistas realizadas em janeiro de 2017 a 16.250 utilizadores com mais de 16 anos em 17 países, incluindo Portugal, e de experiências realizadas em dispositivos Android, conclui-se que uma fraca limpeza e manutenção das aplicações e dispositivos (não atualização e eliminação de apps não utilizadas, ajuste de definições, entre outras) aumenta a exposição dos smartphones, tablets e computadores a ameaças à segurança e privacidade.

As apps têm acesso a alguns dos dados mais sensíveis e pessoais que temos nos nossos dispositivos e os utilizadores muitas vezes não têm consciência que esta informação está a ser partilhada

Embora em alguns casos os portugueses não atualizem regularmente as apps, programas e documentos dos seus dispositivos (é o caso de 34% nos smartphones, 38% nos tablets e 40% nos computadores), nem apaguem as apps que não utilizam, são, por outro lado, aqueles que mais atualizam os dispositivos e aplicações no conjunto dos 17 países analisados, chegando mesmo a atualizar as definições de cada app para limitar os dados a que estas podem ter acesso (42% fazem-no nos smartphones e 39% nos computadores). “Ou seja, [os portugueses] admitem fazer o update assim que a aplicação ou programa os notifica [63%], o que os coloca entre os ‘mais bem protegidos’ a este respeito”, sublinha ao Expresso Victor Chebyshev, porta-voz da equipa de Investigação e Desenvolvimento (I&D) do Kaspersky Lab.

No entanto, ainda há em Portugal quem não o faça. No caso dos smartphones, cerca de 12% apenas atualizam apps e programas quando as notificações começam a incomodar e quase 8% só o fazem se se registar uma falha na app. Além disso, 3% tentam nunca realizar atualizações e 6% não gostam de atualizações e, por esse motivo, tentam não o fazer. Já 28% dos portugueses não leem sequer as licenças de utilização nos smartphones, 30% não o fazem nos tablets e 26% nos computadores.

O perigo, sublinha o estudo, está no facto de a fraca manutenção dos dispositivos e aplicações — limpeza e atualização de softwares, ajuste das definições, entre outros — colocar esses mesmos dados em risco, incluindo a perda de dados, duração da bateria inferior à esperada, falta de memória e volume de tráfego de dados superior ao normal. Mas existem também outras ameaças, entre elas o aparecimento de anúncios invasivos e não solicitados que exploram as suas vulnerabilidades para entrar nos dispositivos. O estudo verificou que 49% dos portugueses já detetaram este tipo de anúncios nos smartphones, 42% nos tablets e 56% nos computadores, dados que se tornam preocupantes uma vez que em 2016 “os Trojans mais populares e perigosos eram anúncios invasivos que conseguem obter direitos de administrador nos dispositivos”, lê-se no estudo.

infografia Carlos esteves

É que as apps têm acesso “a alguns dos dados mais sensíveis e pessoais que temos nos nossos dispositivos e os utilizadores muitas vezes não têm consciência que esta informação está a ser partilhada”, adianta, em comunicado, Andrei Mochola, chefe da divisão de Consumo do Kaspersky Lab. No estudo concluiu-se ainda que 83% das apps analisadas conseguem ter acesso a dados sensíveis do utilizador, como contactos, contas de email e mensagens, conseguindo inclusivamente realizar chamadas e enviar mensagens.

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Windows e Android são targets mais frequentes de cibercrime

Mas não é apenas o utilizador que tem responsabilidades na perda de dados dos dispositivos que utiliza. Segundo o porta-voz Victor Chebyshev, os sistemas operativos Windows e Android “são os targets mais frequentes dos hackers”. Um dos motivos importantes está no facto de serem “sistemas abertos, tornando-se mais fácil e rentável para os developers (incluindo os hackers) criarem aplicações para os mesmos”.

Ao permitirem a instalação de aplicações a partir de fontes terceiras (softwares não controlados) em vez da App Store oficial, tornam os dispositivos “extremamente vulneráveis” a ciberataques. “Portanto, o acesso aos dados disponibilizados nas aplicações fica facilitado (para os hackers)”, acrescenta o porta-voz de I&D do Kaspersky Lab. “As próprias aplicações não contêm as verificações necessárias para se protegerem a si próprias, o que faz com que seja possível roubar dados sensíveis contidos nas mesmas, como o login e palavras-passe de contas bancárias”.

A opção de instalar uma app a partir de qualquer fonte torna possível “instalar acidentalmente programas maliciosos ou programas que a pessoa não queria”, como o ransomware (que encripta todos os ficheiros pessoais no dispositivo) ou outro malware que roube ou apague dados do utilizador. Estes e outros programas maliciosos podem conseguir “recolher dados do utilizador, estatísticas do dispositivo, localização, número de telemóvel, IMEI [número de identificação do telemóvel], dados de Wi-Fi e outros”, conclui.