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“Se o destapar faz uma mulher sentir-se nua, não devíamos mostrar a nudez de ninguém”

Depoimento sobre a decisão do Tribunal Europeu de Justiça, que diz que é legal que as empresas proíbam os seus funcionários de usar o véu islâmico, feito por Nurjaha Mohamed Tarmahomed, uma empresária muçulmana de Lisboa que já foi dona de um ginásio e de uma clínica de beleza e que agora preside a uma associação sem fins lucrativos, a Noor'Fátima

Depoimento recolhido por Hugo Franco

A empresária muçulmana Nurjaha Mohamed Tarmahomed, à direita na foto, com uma voluntária da associação a que preside

A empresária muçulmana Nurjaha Mohamed Tarmahomed, à direita na foto, com uma voluntária da associação a que preside

d.r.

Eu não uso véu no dia a dia, mas respeito quem usa. Não concordo nada com a decisão do Tribunal Europeu de Justiça, que considera “legal” que as empresas proíbam os seus empregados de usarem símbolos religiosos, políticos ou filosóficos visíveis. Se o tribunal está a proibir o véu islâmico, porque não impede o uso de decotes ou minissaias? É mais bonito tapar ou mostrar?

Acho que estamos a entrar numa conjuntura de grande xenofobia.

Lembro que vivemos num país católico, em que a Nossa Senhora de Fátima tem um véu. Desde quando cobrir é feio?

Não considero correto destapar ninguém. E se o destapar faz uma mulher sentir-se nua, não devíamos mostrar a nudez de ninguém.

Em todo o caso, não acredito que as empresas portuguesas alinhem nesta medida do tribunal.

Sempre fui empresária e sempre lidei com pessoas com e sem véu.

Na associação sem fins lucrativos a que presido, tenho na rua voluntários que usam véu e que nunca se sentiram discriminados por ninguém. Trabalho com pessoas de várias nacionalidades, raças e credos. Respeitamo-nos todos uns aos outros.

A única exigência que faço como empresária é que haja profissionalismo. Não me importo se alguém usa ou não um véu.

Aliás, nunca senti que o véu representasse um problema para os portugueses. Portugal é um país pacífico.

Uso o véu para ir à mesquita e nunca senti um olhar diferente, estando eu com véu ou não.

No meu dia a dia não uso, mas admiro as pessoas que o usam. E gostaria de ter coragem de o usar.

Quando viajo para países árabes uso-o com frequência e sinto-me lindamente.”

  • A possibilidade conferida às empresas, pelo Tribunal de Justiça Europeu, de proibirem o véu islâmico é uma medida que só contribui para a radicalização de uma comunidade que, por mais que se diga que não, já é olhada de lado um pouco por todo o lado. Le Pen ou Wilders não teriam desejado outra coisa. Porque a medida mete no mesmo saco o que é diferente. Diz que o véu islâmico é um símbolo religioso e por isso, para ser politicamente correto e igualitário, o Tribunal permite a proibição de todos os símbolos religiosos