Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Condenados os líderes religiosos radicais que recrutaram portugueses

Alguns jiadistas portugueses frequentavam a mesquita de Forest Gate, em Londres, antes de partirem para a Síria

Joana Beleza

Jiadistas aliciados nas duas primeiras grandes redes extremistas criadas em Paris e em Londres há cinco anos

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Dois clérigos radicais de idades e origens bem distintas lideravam duas redes de recrutamento sem ligações entre si em diferentes capitais europeias. O mais novo, Mustapha Mraoui, convenceu dois lusodescendentes a trocar os subúrbios de Paris por Raqqa.

O mais velho, Anjem Choudary, terá dado apoio logístico a um grupo de seis jovens dos arredores de Sintra, e emigrados em Londres, para fazerem a mesma viagem, sem bilhete de regresso, em direção à Síria. Ambos foram recentemente condenados pela Justiça dos seus países a penas de dez e de cinco anos de prisão, respetivamente, por incentivo ao terrorismo.

O imã francês de 30 anos da mesquita de Triton, ou Al-Islah, um pequeno local de culto em Villiers-sur-Marne (a leste de Paris), e que hoje se encontra encerrado, aprendeu árabe numa viagem ao Egito, país de onde terá familiares ligados ao islão radical, e também algumas técnicas de persuasão. Na mesquita dividiu para reinar, cativando mais de uma dezena de jovens muçulmanos, entre eles Michael dos Santos e Mikael Batista, com o seu discurso “cativante” e “agressivo”. Mustapha Mraoui incitava os seguidores a ridicularizarem os que não usavam barba comprida e encorajava-os a cortarem os laços com as famílias que não eram muçulmanas.

“Era uma pessoa doentia, pequena e discreta e gerava um ambiente pesado na mesquita”, contam clérigos que por ali passaram à imprensa francesa. Porém, nenhum parece ter desconfiado que as orações mais intimistas escondiam uma retórica bélica e de ódio religioso acompanhada por sessões de treino de artes marciais e desportos de combate, que eram dados pelo próprio imã.

No verão de 2013, o grupo desapareceu de circulação. Apesar de Mustapha Mraoui estar já referenciado pelos serviços de segurança franceses, o imã e os seus acólitos conseguiram iludir a vigilância de que eram alvo, viajando para junto dos islamitas que combatiam as tropas de Bashar al-Assad. Antes da viagem sem regresso receberam ordens de Mraoui para cortarem a barba, de forma a passarem mais despercebidos.

Segundo as autoridades de Paris, os jiadistas desta célula de Champigny-sur-Marne foram o primeiro grupo a partir de forma “organizada e metódica” de França para se juntar a Abu Bakr al-Baghdadi, que um ano depois anunciava a criação de um califado que nunca foi reconhecido pelo resto do mundo.

Há uma semana, o Cour d’Appel (Tribunal de Recurso) de Paris confirmou, e em alguns casos ampliou, a pena aplicada pela primeira instância aos membros desta célula: Mustapha Mraoui foi condenado a dez anos de prisão, à revelia, pois presume-se que se encontra no califado. Sob os dois lusodescendentes mantém-se a pena de nove e dez anos de prisão. Os juízes do Cour d’Appel decidiram também privar os 12 operacionais de Champigny-sur-Marne dos direitos civis e familiares durante um período de anos. Numa altura em que o Daesh perde terreno quase todos os dias, as autoridades temem o regresso ao país de homens como Mustapha Mraoui, que é considerado “muito perigoso” mas que pode até estar morto, já que pouco se sabe o que realmente se passa no coração da Jihad.

Sharia em Londres

Há um mês, cinco homens ligados ao núcleo duro de Anjem Choudary, um mediático pregador radical londrino, foram detidos, depois de uma operação policial que durava há 20 meses no seio da organização extremista Al-Muhajiroun (ALM). A prisão destes radicais veio provar que o grupo, apesar de fragilizado nos últimos meses, ainda não estava extinto. Os agentes infiltrados terão testemunhado uma reunião em que alguns dos detidos incitavam as pessoas a conduzirem camiões com explosivos em Oxford Street, uma das principais ruas comerciais em Londres.

A maior machadada neste grupo, que nos últimos anos se chegou a expandir por vários países da Europa (ver entrevista) e chegou a ser considerado a primeira e maior rede de angariação de jiadistas para a Síria, deu-se em setembro quando Choudary, o porta voz da ALM, começou a cumprir os cinco anos de prisão a que foi condenado, por incentivo a atividades terroristas. O tribunal considerou que o pregador tinha atravessado a linha da “legítima liberdade de expressão” para os atos criminosos.

A rede promovida por Choudary é suspeita de ter dado apoio material e logístico a mais de uma centena de jovens do Reino Unido que se juntaram ao Daesh nos últimos anos. Entre eles estarão seis portugueses que viviam e trabalhavam em Leyton, Leytonstone e Walthamstow, bairros da zona leste da capital, não muito longe da residência de Anjem Choudary. Sem darem muitos pormenores, as autoridades inglesas consideram “muito provável” que os radicais que cresceram na Linha de Sintra se tenham cruzado com alguns dos principais militantes da Al-Muhajiroun.

Em 2015, o clérigo que defendia uma sharia (lei islâmica) para o Reino Unido disse ao jornal “The Sunday Times” “ser possível” que Nero Saraiva, Fábio Poças, Sadjo Ture, Sandro Monteiro, Celso e Edgar Rodrigues da Costa tenham feito parte do seu rebanho mas acrescentava que os nomes deles “não lhe eram familiares”. Quando inquirido pelo Expresso sobre Choudary, o familiar de um destes jovens jiadistas, que vive na capital inglesa há alguns anos, limitou-se a responder: “Ah! Esse cota é simpático.”

Ao contrário do que aconteceu no Reino Unido e em França, no Luxemburgo parece não haver muitas pistas sobre a identidade dos recrutadores de Steve Duarte, filho de emigrantes portugueses que faz parte do departamento de media da organização terrorista. De acordo com fontes naquele país, a pequena mesquita onde o lusodescendente e outros jovens radicais se terão convertido e radicalizado “nunca foi alvo de buscas por parte da polícia”.