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A Atlântida de James Cameron

O apresentador e produtor Simcha Jacobovici e James Cameron na preparação de “A Ascensão da Atlântida”

MARK FELLMAN

A paixão pelo mar levou o realizador a produzir um documentário no National Geographic sobre o continente perdido, que inclui os Açores

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Vamos falar de um assunto sério: a Atlântida. Não, não se trata da exploração do mito do continente perdido por algum filme fantástico ou de ficção científica de Hollywood produzido para a TV, mas de um documentário baseado na investigação arqueológica mais recente e em expedições da National Geographic. As expedições percorreram os locais mais prováveis onde a emergência da civilização descrita por Platão há 2400 anos poderia ter eventualmente acontecido: as ilhas de Santorini (Grécia), Malta, Sardenha e Açores, e a costa atlântica da Andaluzia, no sul de Espanha. O documentário mostra construções muito antigas, artefactos arqueológicos, fotos de satélite, manuscritos e objetos encontrados no fundo do mar.

O realizador canadiano James Cameron é um dos produtores executivos de “A Ascensão da Atlântida”, que se estreia em Portugal amanhã, domingo, às 21h, no National Geographic Channel. A sua paixão pelo mar é bem conhecida, não só em alguns dos seus filmes mais famosos (“O Abismo”, de 1989, ou “Titanic”, de 1997, vencedor de três Óscares), mas também no documentário que fez na expedição “Deep Sea Challenge” em 2012 — numa parceria com a National Geographic e o Instituto Scripps de Oceanografia de San Diego (Califórnia) — em que se tornou o primeiro homem a descer sozinho num batiscafo até ao fundo da Fossa das Marianas, no oceano Pacífico, a quase 11 km de profundidade.

Desta vez não foi preciso descer ao lugar mais profundo dos oceanos para fazer um documentário fascinante, que passa também pelos Açores, pelos mistérios que revelam uma ocupação humana do arquipélago muito antes da chegada oficial dos portugueses à ilha de Santa Maria em 1431. As descobertas arqueológicas que apontam para essa ocupação humana pré-portuguesa têm-se multiplicado nos últimos anos, em especial nas ilhas Terceira e do Pico, e os estudos no campo da biologia animal e vegetal entretanto publicados em revistas científicas internacionais reforçam ainda mais esta tese.

“Não acredito no que estou a ver, isto não devia estar aqui”, exclama o apresentador do documentário, Simcha Jacobovici, quando o vemos a entrar, guiado por Félix Rodrigues, professor da Universidade dos Açores, numa estrutura escavada na rocha perto da Base das Lajes, na ilha Terceira. A estrutura fica numa falésia a dois quilómetros do mar e poderá ser uma necrópole da época romana conhecida por columbário, muito comum em toda a região do Mediterrâneo. A necrópole das Lajes, escavada na rocha macia e porosa de um tufo vulcânico, tem sete metros de altura, um teto semelhante a uma abóbada romana e 178 nichos dispostos de forma semicircular, com sete níveis do chão até à cúpula.

“Estou em estado de choque”

Simcha Jacobovici observa toda a construção, faz perguntas a Félix Rodrigues e insiste: “Estou em estado de choque, porque este achado estabelece uma cultura nos Açores em tempos muito, muito antigos, muito antes de se pensar que vivia aqui alguém.” Por outro lado, “os povos antigos dos Açores tinham costumes semelhantes aos povos do Mediterrâneo, viviam nestas ilhas atlânticas há dois mil anos ou, provavelmente, mais cedo. E o professor Félix Rodrigues encontra provas de que poderia ser na Idade do Bronze (que começou por volta de 3300 anos antes de Cristo) ou até mesmo antes, no tempo da Atlântida”.

Numa comunicação enviada por Félix Rodrigues na altura da descoberta, em janeiro de 2015, às autoridades locais (Câmara da Praia da Vitória e Direção Regional da Cultura), o professor da Faculdade de Ciências Agrárias e do Ambiente da Universidade dos Açores sublinhava que “a forma dos nichos, o chão da estrutura e a porta de entrada têm nítidas semelhanças com o columbário romano de Castle Boulevard, em Lenton, no Reino Unido”, construído há 3000 anos, que servia para guardar as cinzas dos mortos. O documento referia também os columbários do Vale de Elá e de Beit Lehi, em Israel (o último construído há 2500 anos), e assinalava que “existem semelhanças formais com o achado das Lajes, em termos de lógica construtiva e de arranjos arquitetónicos”.

O documentário de James Cameron tenta fazer o paralelismo da arquitetura circular e da forma de construir com pedra seca (sem argamassas) que mantém estruturas antigas bastante sólidas em Santorini, Malta, Sardenha, Açores e Sul de Espanha. E conclui que, se a Atlântida realmente existiu há cerca de 6000 anos, estava associada a um império neolítico com uma grande área territorial, que estendia a sua influência aos povos que habitavam as regiões limítrofes. O período neolítico começou há cerca de 10.200 anos antes de Cristo, com o início da sedentarização dos seres humanos e a invenção da agricultura.