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Sociedade

Quando a nuvem provoca uma verdadeira tempestade

DEPENDÊNCIA. Um erro ortográfico numa instrução informática provocou o caos em alguns dos maiores sites e serviços eletrónicos de empresas americanas. Muitas empresas podem agora repensar a sua estratégia para entrar na Nuvem

SEAN GALLUP/GETTY

Um técnico da Amazon enganou-se a escrever um comando informático e desligou mais máquinas do que era suposto. Resultado prático? Prejuízos que podem chegar aos 150 milhões de dólares para algumas das empresas cotadas no índice S&P 500

E, de repente, parte da Internet parou. Ou quase. Milhares de sites ficaram lentos ao ponto de quase não conseguirem fornecer serviço aos seus clientes. Foi na terça-feira passada, afetou sites localizados nos Estados Unidos, e tudo ficou a dever-se a uma falha no sistema de armazenamento dos Amazon Web Services provocada, por incrível que pareça, por um erro ortográfico. Sim, um funcionário da empresa fazia a manutenção dos serviços e introduziu um comando com um erro. É a Teoria do Caos em funcionamento. Esse “pequeno” erro provocou uma série de eventos que levou à tal lentidão já referida e que segundo a CONSULTORA CYENCE, OUVIDA PELO “NEW YORK TIMES”, estima que a quebra nos serviços da Amazon pode ter uma fatura de até 150 milhões de dólares para as empresas do índice S&P 500 (índice da Standard & Poors que se baseia na capitalização das ações de 500 empresas cotadas no NASDAQ e NYSE).

E, estará o leitor a perguntar-se quanto tempo esteve o serviço em baixo. Quatro horas! Os técnicos da empresa demoraram todo esse tempo, uma eternidade, para resolver o problema. No COMUNICADO OFICIAL que fez a explicar o sucedido, a Amazon explica que o funcionário em questão deveria ter desligado uns quantos servidores, mas acabou por, inadvertidamente, desligar dois dos computadores que controlam processos críticos comuns a todo o sistema dessa região. E é na Costa Este dos EUA que a Amazon tem um dos seus centros de dados mais antigos (o US-East-1) que é, também, um dos mais baratos (em taxas de armazenamento e transferência de dados) e com o qual as empresas estão mais familiarizadas. O problema? Por uma questão de economia de escala, as empresas centram as suas operações nessa região. Não o deviam fazer. As melhores práticas da computação na Nuvem requerem que os programadores espalhem o código e a informação por várias regiões – exatamente para prevenir casos deste tipo. Problema? É mais complexo de fazer e mais caro.

É preciso perceber o contexto. A empresa de Jeff Bezos (que até já ganha Óscares) é o maior fornecedor mundial de serviços de armazenamento na Nuvem – ou seja, repositórios de dados que são guardados em servidores (computadores) remotos e que podem ser acedidos via Internet. E a Amazon é reconhecida por ter preços muito agressivos (à semelhança da Google).

Nos últimos anos, este tipo de serviços, de computação na Nuvem, tem vindo a tornar-se cada vez mais popular. Afinal, as empresas tiram de “dentro de casa” servidores e o pessoal técnico necessário para os manter. Acabam esses custos fixos e surgem outros, mais elásticos, que são ajustados consoante as necessidades da empresa a cada momento. Ou seja, é preciso mais espaço para guardar informação ou mais inteligência no tratamento dos dados… compra-se! E, claro, há a questão da segurança. Muitas das empresas perceberam que manter toda a informação protegida localmente implica o tal esforço financeiro (em pessoas e meios) que já referi.

Claro que a Nuvem não é para todos. Por imperativos legais há muitos dados que não podem sair dos países de origem. Muita da informação produzida e tratada pela administração pública ou pelo sistema financeiro, por exemplo. Para esses, há soluções de Nuvem que permitem manter parte da informação local e a outra algures num servidor que pode estar (e está, muitas vezes) a milhares de quilómetros de distância. Com a crise económica que afetou a grande maioria das economias ocidentais nos últimos anos e com a pressão para ter acesso a mais, e melhor informação, em tempo real, as empresas viram nas tecnologias da Nuvem uma via para conseguir otimizar custos e melhorar resultados.

No entanto, como ficou provado pela quebra dos serviços da Amazon da semana passada, uma dependência elevada de estruturas que estão fora da empresa pode provocar alguns dissabores. Tal como acontece localmente (dentro das empresas), é necessária a existência de sistemas redundantes que evitem a centralização dos sistemas em apenas uma região. Claro que isso implica um investimento maior e a existência de pessoas mais bem preparadas dentro das empresas.

Ainda é cedo para perceber todas as repercussões da falha nos Amazon Web Services. Mas este é, claramente, um sinal de alerta para as empresas que têm corrido para a Nuvem sem grande ponderação sobre quais os potenciais impactos dessa migração. Se, por um lado, o rápido ROI (retorno do investimento) fica bem em qualquer folha de Excel, por outro, estas dores de crescimento provam que, como em tudo na vida, há um preço a pagar para ter acesso aos melhores serviços. E é, mesmo, necessário que as empresas tenham a capacidade de identificar, dentro da sua área de atividade, quais os sistemas críticos que têm de ter acesso a soluções de recuperação rápida em caso de falhas graves.

Na Amazon, já devem estar a fazer contas ao número de clientes que vai optar por outro fornecedor de serviço de Nuvem e a todos os que vão manter-se, mas investindo em soluções mais caras.