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Sociedade

O mago do vidro está feliz com Lisboa

António Pedro Ferreira

Mundialmente conhecido pelo seu trabalho com vidro, o designer francês Emmanuel Babled trocou Amesterdão por Lisboa. Há um ano que é feliz no meio da luz da capital portuguesa a criar peças com o seu toque de tradição e modernidade

No atelier de Emmanuel Babled, na baixa lisboeta, a luz entra a rodos. O prédio pombalino com fachada forrada a azulejos azuis alberga, desde janeiro de 2016, algumas das obras deste designer francês, que aos 50 anos decidiu fazer de Lisboa a sua nova casa. Pelas salas espaçosas, habitadas pelos cinco membros da sua "dream team", como lhe chama, estão muitas das peças criadas por Emmanuel: as elegantes mesas Quark, em mármore de Carrara, os famosos candeeiros Digit, em vidro de Murano, consolas de madeira elegantes e ecléticas, feitas por um carpinteiro holandês que vive em Milão... "Esta teve de voltar a sair pela janela", conta Marta Alvarez, responsável do estúdio, apontando para uma das três mesas Quark. Uma delas, em mármore de Carrara branco, para seis pessoas, pesa 500 kg e só sai pela janela daquele primeiro andar – de grua, com o trânsito cortado e polícia à porta, para não arriscar.

Noutra sala, repousa uma mesa feita de lava do vulcão Etna, com o tampo vidrado em várias cores, a lembrar pétalas de uma flor, que encaixam harmoniosamente em arestas redondas. Tudo aqui é exclusivo. Cada peça é única, com excepção das "Babled Editions", que podem ter até 8 peças - o limite daquilo que é considerado arte. Neste espaço, só há peças de design bonitas, todas a preços inacessíveis para o comum mortal – diga-se apenas que um candeeiro Digit foi leiloado pela Sotheby's em Londres por €25.000 e representa um dos valores mais acessíveis da obra de Babled.

E, no entanto, todos os objetos foram feitos por artesãos, numa tentativa de valorizar pessoas, e com uma ética de trabalho de artes que perduram há séculos - o vidro de Murano, o mármore de Carrara. É isso que faz com que Emmanuel não se sinta "mal" por trabalhar no ramo do luxo - considera o seu trabalho mais ético do que muitas produção em série "made in China" e acredita que a qualidade não pode ficar prejudicada na relação com os custos. Além de que isso não o impede de já ter criado piaçabas, conta, com um sorriso.

Babled com um candeeiro Digit por trás e algumas das suas jarras embutidas em porcelana

Babled com um candeeiro Digit por trás e algumas das suas jarras embutidas em porcelana

António Pedro Ferreira

De t-shirt marinheira azul, o seu uniforme de trabalho - "tem certamente umas 50 camisolas iguais no armário", brinca Marta -, Emmanuel contrasta com essa ideia de luxo. É um homem simples, educado e de sorriso fácil, feliz por estar a viver num país latino, onde a qualidade de vida e a luz o apaixonam, depois de cinco anos em Amesterdão e 25 de Milão. "Portugal surgiu-me pela primeira vez através de um amigo que vivia em Veneza. Quanto ao atelier, é daquelas coisas... Quando cá vim pela primeira vez, há seis anos, estava para alugar." Passado este tempo todo, parecia estar à espera dele.

Fazer um objeto de vidro é um parto

Nascido em França, onde viveu até aos 18 anos, foi contudo Itália o país que mais marcou a sua vida e percurso profissional. Para ele, tem o equilíbrio certo entre a capacidade de fazer e a industrialização, por um lado, e o aspeto latino, familiar, por outro. Foi lá que tirou o curso em Design Industrial e que mantém, hoje ainda, toda a sua produção. Era o país do design e da arquitetura, de autores como Ettore Sottsass, Morosi e da Alchimia, um dos mais importantes movimentos do design italiano. Itália seduziu-o. Ficou. Com 25 anos, descobriu o vidro de Murano e a arte centenária que existe por trás. "Foi o meu primeiro filho", conta. "Todo o processo do vidro corresponde a um nascimento... Demora entre 40 minutos a 1h40, no máximo. Fala-se muito pouco. Tudo é urgente. Fala-se com os olhos. É uma coreografia.. Há momentos de pânico, momentos de calma", explica.

A delicadeza e a dificuldade do processo de fazer vidro, e de não ser possível criar duas peças iguais, fascinou-o. "A passagem da matéria líquida para a física é o mais estimulante. As cores, o opaco, as transparências permitem um jogo infinito. É um material dinâmico, não estático..."

Antonio Pedro Ferreira

O seu trabalho com o vidro, que acumula 25 anos de experiência, faz dele um mestre reconhecido no mundo inteiro. "O facto de eu conhecer por dentro todo o processo, e a forma como desafio os artesãos, ganhou-me o seu respeito", conta. Além do vidro, Emmanuel trabalha com outros materiais. Sempre em viagem, o seu principal elemento inspirador, descobriu o mármore de Carrara e mais tarde a lava do vulcão Etna. Percebeu que era uma pedra que se podia vidrar e isso abrou uma série de possibilidades.

"A durabilidade do material" e o facto de ser "orgânico" são fatores importantes e transversais à criação de Emmanuel. Outro eixo constante no seu percurso é a tecnologia - no modo como consegue dar roupagens novas a artes antigas. "A minha ideia da tecnologia serve-me para gerar soluções estéticas novas." E dá como exemplo a linha que criou, "Simbiose". Esta une o mármore e o vidro em peças únicas. Tomando como exemplo uma mesa de apoio em mármore, com duas jarras de vidro embutidas, percebe-se que isto só é possível de executar com o apoio prévio da tecnologia. Até porque o vidro só pode ser manipulado dois dias depois de arrefecer – logo, tem de ser feito antes do mármore e encaixar com precisão milimétrica na mesa.

"Há mármore português que é vendido como sendo de Carrara", afirma Emmanuel, levantando o véu sobre uma das suas possibilidades em Portugal. Agora que cá está há um ano, quer perceber com que artes vai trabalhar. Cortiça, mármore, porcelana e vidro são hipóteses em aberto. Falta agora (talvez) o principal: tempo. Tempo para ter tempo, para criar vazio na mente, fundamental no seu processo criativo. "Sou muito intuitivo", explica Emmanuel, que adora acordar de manhã e não saber o que o dia lhe reserva. Improviso e flexibilidade são palavras-chave para ele. "O meu processo criativo é muito frágil", explica. "Preciso de vazio. A viagem estimula-me, normalmente – o espírito está dinâmico, em trânsito. Desenho muito à mão. Os meus desenhos evoluem, sem explicações. Tenho muitos desenhos feitos no 'vaporetto 'em Veneza ou no comboio. Ou no meu atelier, à noite, quando há calma."

A sua clientela é exclusiva, endinheirada e do mundo inteiro. Vende na Coreia como na Namíbia, na Austrália e nos EUA, em Paris como em Londres. E muito para galerias - tem várias, entre Nova Iorque, Milão e Roterdão. É para aí que seguem muitas das "Edições Babled", séries de peças até 8 exemplares que Emmanuel faz desde 2010.

"Foi o facto de ter filhos que me levou a querer fazer coisas, deixar obra", partilha. A partir dos 40 anos, o designer francês acredita ter encontrado o seu caminho, uma "coagulação de experiências, interiores e exteriores", que lhe deu nova clarividência. Ver o orgulho nos olhos de quem faz é o que o move. Uma grande parte dele quer "dar um exemplo", criar uma ética e uma consciência que fique para lá do aspeto comercial. Nos entretantos, segue encantado com "a luz de Lisboa", o "sorriso das pessoas e a sua disponiblidade". Não deveremos demorar muito a ter notícias suas.