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O desconhecido “lado ar” do aeroporto de Lisboa

A EGEAC, a empresa municipal que gere os espaços e a animação cultural de Lisboa, está a organizar visitas guiadas ao lado de dentro da Capital, ao que se esconde nos bastidores vedados a “pessoal não autorizado”. Abrem-se alçapões de ferro no chão, entra-se no subsolo, atravessam-se áreas restritas. Esta sexta-feira, o Expresso conta-lhe como é o “lado ar” do Aeroporto Humberto Delgado, o lado da pista quando não se está dentro do avião. Mas na “Lisboa por Dentro” há passes de acesso para mais lugares invisíveis. Até 8 de abril

Segurança. Segurança. Segurança. Ninguém atravessa do “lado terra” para o “lado ar” do Aeroporto Humberto Delgado sem passar por vários níveis de segurança. Não é só o normal “líquidos, metais, computadores à vista” na passadeira do raio X, e o corpo desencasacado (e por vezes descalço) a passar no portal de controlo.

É a inscrição obrigatória para a visita dez dias antes da data, com cópia do cartão de cidadão. É a identificação rastreada antes de confirmada a integração num grupo de visitantes. É a proibição de captação de imagens sem autorização prévia. O Expresso pediu e captou em vídeo o lado B da aerogare de Lisboa mas, alerta-se desde já, que se trata de um plano fechado. Por segurança.

Estar do lado de lá sem estar dentro de um avião é ganhar uma perspetiva de chão. Os aparelhos estão logo ali. Levantam e descolam tão perto que os dedos indicadores tapam automaticamente os ouvidos sem que o movimento seja pensado. Pelo ar ecoa um misto de apitos de sensores de manobras de tudo o que é veículo aeroportuário. Em ‘época alta’, trabalham no aeroporto 16 mil pessoas de cerca de 250 entidades, da limpeza às companhias de aviação. Mas é breve o contacto direto. Na placa só pode andar pessoal autorizado.
O circuito destas visitas da EGEAC, realizadas no âmbito da iniciativa “Lisboa por Dentro” — inscrições em www.egeac.pt —, é feito em minibus, com duas breves paragens apeadas junto à pista principal, no quartel dos bombeiros e na falcoaria, com uma guia da ANA a traduzir para olhos leigos como funciona o lado restrito da Portela, um mundo com língua e hora próprias, veículos que não circulam em mais lado nenhum (tratores de push-back, ambulifts, follow-me...) e onde os carros de combate ao fogo são amarelo fluorescente. Numa hora embarca-se e desembarca-se sempre com os pés em terra. Chamam-lhe “um voo baixinho”.

“Deste lado as comunicações são feitas com recurso ao alfabeto fonético e regemo-nos pela hora UTC/GMT [universal time]”, explica a guia Belarmina. Enquanto que a hora não obriga a adaptações entre “ar” e “terra” — é a mesma —, o alfabeto exige treino e memorização. “Alfa, Beta, Charlie, Delta, Echo...” A codificação é necessária para que a comunicação entre pares se processe de forma curta, clara e concisa, eliminando erros, e estende-se até aos caminhos de circulação das aeronaves (taxiways) batizados com nomes alfanuméricos: o Mike5 (M5), o November2 (N2) ou o Zulu3 (Z3).

Os números com que se designam as pistas também não foram criados ao acaso: 03, 21, 35 ou 17 refletem a orientação face ao norte magnético. 03 está a 30º, 21 a 210º...

O trajeto do minibus ‘turístico’ faz-se pelo caminho periférico que circunda a pista 03/21, a principal, 3805 metros de alcatrão especial por onde passa 99% do tráfego aéreo. O entra e sai — ou o aterra e descola — é constante. Os planespotters entrariam em hiperventilação com facilidade (ou não, uma vez que não se pode fotografar). Em 2016 passaram pela Portela 22 milhões de passageiros de 47 companhias a voar de e para 110 destinos. Bateram-se recordes todos os meses e ultrapassou-se o limite de tráfego traçado no contrato de concessão da ANA. Um novo aeroporto - no Montijo, diz o memorando de entendimento assinado há menos de um mês - permitirá chegar aos 50 milhões de passageiros por ano, 72 movimentos por hora.

Na cabeceira de pista parece que basta esticar um braço para tocar na barriga desses monstros de metal que, olhos nos olhos, ganham dimensão e força desmesuradas. E ao longo do caminho parece que basta um impulso para saltar a vedação com arame farpado que circunda o aeroporto. Pelos menos 16 argelinos fugiram nos últimos meses pela placa da Portela. Correram, saltaram a rede. Alguns foram apanhados logo ali, outros já em Lisboa, outros em lado nenhum. Uma nova lei sobre segurança aeroportuária, ainda em elaboração, deverá apertar o controlo no Humberto Delgado e nos restantes aeroportos nacionais. Fala-se em redes duplas e sistemas de videovigilância melhorados.

Primeira paragem apeada da tour: o falcoeiro. Em cinco anos, em Portugal foram reportadas 1322 situações de avistamento de pássaros com perigo de colisão (bird strikes). Os falcões-peregrinos residentes da Portela, 365 dias por ano entre o nascer e o pôr do sol, estão lá para as afastar. Estorninhos, pombos, gaivotas, patos. Em vez do abate ou captura de aves, usa-se um predador dissuasor, que em voo picado pode atingir os 300 quilómetros por hora. Mas à hora da visita o falcoeiro não estava. “Foi chamado para outra zona do aeroporto. Estes imprevistos acontecem, e podem ocorrer nas outras visitas”, explica Belarmina. “Por exemplo, em caso de LVO [low visibility operations] as visitas podem mesmo ser canceladas”.

Estava um dia de primavera em Lisboa. Os relvados do perímetro da portela estão já cheios de amargas amarelas. O ar campestre engana. Cada plantinha que brota ou cada animal que nasce no “lado ar” tem de estar dentro dos parâmetros de controlo da biodiversidade. O que possa alimentar os pássaros é eliminado. Diz-se que por ali não se apanham caracóis e não há acendalhas para fogos florestais.

Bombeiros amarelo-fluorescente

Bombeiros amarelo-fluorescente

“As ocorrências aqui são principalmente sobreaquecimento dos trens de aterragem, reconhecimento de situações de fumo, acidentes”, elenca o supervisor Pedro Silva, do destacamento de bombeiros do aeroporto Humberto Delgado. É aqui a segunda paragem. 65 operacionais — 56 homens e 9 mulheres — trabalham exclusivamente dentro do perímetro aeroportuário em turnos de doze horas, duas das quais de preparação física obrigatória com personal trainer.

Os equipamentos estão milimetricamente arrumados para uso imediato em caso de chamada. Só têm 40 segundos. As calças estão enfiadas nas botas para reduzir ao mínimo o tempo de reação, quer nos cacifos abertos quer junto às portas das viaturas de emergência que não são vermelhas-bombeiro. São amarelo-fluorescente, pesam 40 toneladas e têm de chegar em dois minutos a qualquer área da Portela com 12 mil litros de água. Todas as semanas é testado o procedimento. E para a visita faz-se uma amostra. O alarme, a descida rápida do varão de emergência, uma volta a grande velocidade à volta do quartel e no fim a mangueira a dar banho (indireto) à assistência.

Na vida real, os bombeiros do aeroporto respondem a 350 solicitações anuais. 2016 foi um ano trabalhoso, com quatro alertas vermelhos. Este ano já houve um. A 27 de fevereiro um falso alarme de fogo num Airbus A-330 da TAP, vindo de Fortaleza, no Brasil, mobilizou 29 operacionais. No fim só tiveram de resolver um derrame de combustível na pista. Os passageiros saíram todos bem e foram recolher a bagagem num dos 13 tapetes circulantes do terminal 1. É nesta sala que termina a ‘visita turística’. Para quem aterrou, de verdade, em Lisboa ali é só o começo (mas ainda não, que as malas ainda demoram).

  • O que se esconde nos locais vedados a “pessoal não autorizado”: dentro de terra, debaixo de Lisboa

    Abrem-se alçapões de ferro no chão, entra-se no subsolo, atravessam-se áreas restritas. A EGEAC, empresa municipal que gere os equipamentos e a animação cultural de Lisboa, está a organizar visitas guiadas ao lado de dentro da capital, ao que se esconde nos bastidores vedados a “pessoal não autorizado”. Esta quinta-feira, o Expresso conta-lhe a descida aos mais de seis quilómetros de galeria técnica sob o Parque das Nações, esta sexta-feira teremos mais - o lado B do Aeroporto Humberto Delgado. Mas na “Lisboa por Dentro” há passes de acesso para mais lugares invisíveis. Até 8 de abril