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A escola que temos é a escola que queremos?

Ouvir um professor falar por 45 ou 90 minutos já não é suficiente para os alunos. A criança precisa de mexer e criar. Aos seis anos, quando chegam ao primeiro ano, já usam os aparelhos tecnológicos como a maior das naturalidades. Sabem o que é o Youtube e o Google. É preciso uma “escola mais virada para o século XXI”. E a mudança deve começar pelos professores na sala de aula, até porque “se estamos à espera que a mudança aconteça por decreto, não acontece”

jorge Nogueira/ imagem cedida pela editora

“Professor, e se fossemos ver um tutorial ao Youtube?” Foi assim que um aluno de Rui Lima propôs resolver uma dúvida na sala de aula. Ferramentas destas já são usadas facilmente por miúdos de seis e sete anos. Quando chegam à escola já as dominam. Os modelos tradicionais já não são suficientes para as crianças de hoje, que são impacientes e querem coisas novas a todo o momento. Rui Lima é diretor pedagógico do Colégio Monte Flor, em Carnaxide, e está entre os professores mais inovadores do mundo, segundo a Microsoft. Esta quinta-feira, apresenta a sua reflexão, que passou a livro, sobre a experiência como professor e como aluno.

O que trata o livro “A escola que temos e a escola que queremos”?
Não é um livro só para professores ou pais. É um livro para o público em geral, para quem está interessado na educação, no ensino e na mudança que é preciso operar para termos uma escola mais virada para o século XXI. Acaba por ser uma reflexão de 16 anos como professor e mais alguns como aluno. É essencialmente uma reflexão em que conto também algumas histórias passadas com os alunos, tendo sempre essa vertente de análise em relação à forma como a escola está organizada hoje e como gostaríamos que a escola tivesse organizada no futuro. Não é um livro como receita para ser bom professor ou pai ou mão. É uma reflexão.

É preciso refletir porque já é tempo de mudar?
Exato. Gosto da mudança e penso que seja muitas vezes positiva. Na escola, também é positiva, embora não acredite de todo nas revoluções feita de forma irrefletida. Creio que a mudança é precisa mas também a devemos operar com alguma moderação e dando passos seguros em vez de dar passos no desconhecido. Já assistimos a alguma mudança nos últimos tempos: da parte dos professores e do lado das instituições que mandam. Principalmente da parte dos professores, há uma necessidade de querer mudar as coisas. Os professores começam a perceber que os modelos tradicionais já não são suficientes para estes alunos. Já há muito tempo que não eram.

Os alunos estão diferentes?
Não são só os alunos… nós também. Por exemplo, há uns tempos memorizávamos o número de telefone de toda a gente e agora não memorizamos o telefone de ninguém. Esse é um pequeno exemplo de como o nosso comportamento mudou. Ainda hoje tive conhecimento que o principal motor de busca já não é o Google, é o Youtube. Olhamos para as crianças e jovens, eles praticamente já não veem televisão, vão ao Youtube. Os ídolos deles são os youtubers… No outro dia, um dos meus alunos não sabia fazer uma coisa e eu não era capaz de o ajudar naquele momento e ele disse-me “professor, talvez seja melhor irmos ao Youtube ver um tutorial”. É assim que eles aprendem. Portanto, é evidente que estarem a ouvir um professor durante 45 ou 90 minutos é difícil. Mudaram eles e mudamos nós. Por vezes, falamos da tecnologia como o grande segredo do sucesso da escola, mas não creio que assim seja. É evidente que a tecnologia não pode ficar fora da escola, mas temos de ouvir os alunos, que precisam de participar mais e serem mais ativos na sala de aula. É necessário que o aluno deixe de ser apenas um consumidor – e, neste momento, é completamente passivo – e passe a ser um criador e produtor de recursos. Por isso é que são desafiados a criar a apresentações, filmes, peças de teatro, cartazes, etc. O processo de criar, além de os tornar mais criativos, faz com que assimilem conhecimentos e adquiram competências.

Já dá aulas há 16 anos. Como eram os alunos da sua primeira turma e como são os alunos atuais?
São muitas as diferenças, mas ao mesmo tempo não deixam de ser crianças. Hoje em dia têm maior capacidade de argumentação, em parte fruto de alguma relação com a sociedade em que as crianças decidem muita coisa. Também há o fator perverso de questionarem tudo que lhes é apresentado, que é positivo, mas por vezes também é negativo. Enquanto em 2000 o contacto com a tecnologia começava a fazer-se na escola, atualmente chegam à escola e já não é preciso ensinar-lhes tecnologia. O que é necessário é explicar como tirar proveito daquele know how da tecnologia para aprender. Uma das histórias mais engraçadas que tenho é com uma aluna que queria levar um coelhinho para a sala de aula. Então, mandou-me uma mensagem pelo skype a perguntar-me se podia levar o coelhinho na sexta-feira. Às 19h desse mesmo dia, respondi-lhe logo a dizer que sim. E ela levou. Ora, se isto acontecesse com a turma a que dei aulas em 2000, a aluna só me pedia autorização na sexta-feira, teria que esperar o fim de semana e só na segunda-feira poderia levar o coelhinho. Isto, apesar de ser só a história de levar um animal de estimação para a escola, retrata muito a dificuldade que os alunos têm em esperar. Mesmo os adultos têm muita dificuldade em esperar. Os alunos de hoje querem tudo no imediato e querem ter muitas experiências ao mesmo tempo. Essa impaciência podemos considerá-la negativa, mas também positiva, porque são alunos muito ativos, com muita dinâmica e com espírito de iniciativa. Temos de aproveitar aquilo que a sociedade nos está a dar e jogar a nosso favor.

DR

Considera que há uma crescente preocupação com a educação que estamos a dar às crianças?
Se olharmos para a posição que a criança assumia no meio da família há 30 anos, a criança não estava no centro. Normalmente era o pai. Costumo dizer na brincadeira que era o pai que comia a melhor posta de peixe que havia em casa e, atualmente, a melhor posta de peixe vai para os filhos. Essa preocupação com as crianças é hoje maior e ainda bem. Também graças à escola, e por isso é que digo que não faz sentido eliminar tudo o que a escola nos deu, temos uma sociedade mais bem informada para as necessidades das crianças e é natural que a sociedade queira essa mudança. A escola é para as crianças e ainda bem que estamos tão preocupados em melhorar as condições em que cada criança aprende. Até porque hoje em dia, finalmente, começa também a vingar a ideia de um ensino personalizado que não é igual para todos.

Quais sãos os sinais ou medidas que mostram que a ideia de um ensino personalizado está a vingar?
Sem querer tornar isto político, na educação tem de haver alguma harmonia política e de continuidade. Durante o mandato do anterior Governo, houve uma preocupação com as metas, os resultados e os exames, toldando um bocadinho a visão das pessoas para esta dimensão do indivíduo e de dar alguma liberdade à criança para decidir a sua aprendizagem. Agora, assistimos a um virar de página. Apesar de acreditar que sim, não sei se o virar de página vai ter os resultados que as pessoas esperam - até porque é muito difícil medir os resultados quando falamos de outro tipo de competências. Quando digo que existe uma mudança, refiro-me às conferências em que participo, onde até há três ou quatro anos via sempre as mesmas caras. Nos últimos meses, há uma grande adesão por parte das pessoas às novas abordagens e um grande interesse por projetos de inovação pedagógica (não só tecnológicos). Esse entusiasmo parte dos professores e creio que é mesmo daí que deve partir. Se estamos à espera que a mudança aconteça por decreto, não acontece. A mudança deve começar nas escolas, estender-se para cima em vez de esperarmos que venha uma diretiva ministerial que nos faça mudar.

No ano passado, o número de alunos em ensino doméstico triplicou. Acha que esta tendência está relacionada com a maior preocupação na educação e com as novas abordagens?
Além do ensino doméstico, têm-se falado no unschooling. Sou sempre suspeito, porque sou professor, acredito na escola, nas relações que se vivem na escola e em tudo o que uma criança pode experimentar na escola. Compreendo estas formas de ensino. A minha lógica é: a decisão dos pais passa por acharem que aquilo é melhor para o filho ou por não acreditarem que mais alguém consegue fazer o trabalho de educar os seus filhos. Atualmente temos alunos que são muito protegidos e tornam-se mais inseguros. Se essas abordagens alternativas ainda contribuem mais para o isolamento da criança, não acredito que sejam positivas. Acho que a escola deve recriar o que acontece na sociedade. Em sociedade, interagimos e aprendemos com as outras pessoas. Estarmos fechados num meio muito protegido pode não ser positivo. É certo que o ensino doméstico compreende também um conjunto de atividades que a criança pode fazer estando com outras crianças. Se tivermos uma escola que promova uma aprendizagem mais ampla e diversificada, é isso que a escola passa a ser: um playground de aprendizagem, onde as crianças podem brincar, divertir-se, trabalhar em grupo ou sozinhas, desenvolvendo as competências com profissionais especializados e com os pais.

Neste momento estão a ser discutidas mudanças no currículo, nomeadamente a carga horária de algumas disciplinas. Estas mudanças fazem sentido?
Para mim fazia sentido a mudança na visão que havia dos currículos e das metas, principalmente porque estava muito virada para o exame e a medição. Creio que era preciso tornar os currículos um bocadinho menos densos, flexibilizá-los e flexibilizar a forma como as disciplinas se interligam. O novo perfil do aluno remete muito para a interdisciplinaridade e também para a questão dos indivíduos e dos valores. No fundo, flexibilizar vai permitir que não haja uma obsessão com os currículos, que não haja uma obsessão com os resultados, sendo possível explorar as competências das crianças. Com isto não quero nunca perder a exigência – isto é uma crítica legítima que tem sido feita. O facilitismo prende-se essencialmente quando desistimos do aluno. Isso é que é fácil. A ideia é flexibilizar sem nunca perder a exigência. Sou muito exigente com os meus alunos no dia-a-dia. Quando fazem os trabalhos de grupo, quero rigor científico. Não é preciso ser só exigente com os testes. Não é preciso chumbar muito ou dar muitas negativas para ser um professor exigente.

Em 2011, foi considerado pela Microsoft um dos 18 professores mais inovadores do mundo. Em 2013, foi distinguido a nível nacional e desde 2014 tem, novamente, integrado o grupo de professores mais inovadores a nível mundial. Como se inova na sala de aula?
Esta distinção não está de forma alguma relacionada com a utilização das ferramentas da marca, mas com o programa de implementação de ideias inovadoras na sala de aula. Há professores que já ganharam este prémio que não têm muita tecnologia na sala de aula, mas são inovadores. Inovar é dar à criança um papel mais ativo, é usar estratégias que sejam centradas nos alunos e que respeitem a sua diversidade e os seus desejos, tentando extrair deles o melhor dando-lhes as bases. Gosto muito que os alunos tenham as bases de português, matemática, das línguas… em todo o caso, não nos podemos esquecer que há crianças que têm mais vocação para as artes ou para as relações interpessoais. Conhecemos muita gente que não teve sucesso na escola, mas que depois foram pessoas de grande sucesso profissional precisamente pela capacidade de liderança, pelo espírito de equipa, criatividade, etc. Inovar é isso. É respeitar isso, tentar fazer com que os alunos gostem de estar nas aulas e de aprender.