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“Tem de se olhar para os homens para atingir a igualdade”

Um livro branco, apresentado esta terça-feira em Lisboa, identifica desafios e deixa várias recomendações para esbater a desigualdade de género. O Expresso falou com a presidente da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, Teresa Fragoso

Todos os dias há mulheres que assumem profissões e lugares que até então só pertenciam aos homens. São também as mulheres que têm melhores notas nas universidades e que acumulam mais estudos. Mas quando se fazem as contas, elas, mesmo que estejam numa função igual à deles, ganham menos. E têm mais trabalho, acumulam o que fazem na sua profissão com a vida de dona de casa, a chamada dupla jornada.

O problema é conhecido, mas têm sido sempre as mulheres - individualmente ou através de organizações - a denunciar o problema e a reinvindicar soluções. Normalmente, a causa da igualdade de género é um tema que costuma ser associado apenas às mulheres. Como sendo um problema de género.

No "Livro Branco - Homens e Igualdade de Género em Portugal", uma iniciativa da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), apresentado esta terça-feira, a tónica centra-se neles.

“A sociedade é feita de mulheres e de homens. Infelizmente, entendeu-se que o homem era o centro e a mulher o seu complemento. E que ele deveria ser o centro de todo o hemisfério. Mas não é. Se não olharmos para os homens para atingir a igualdade, então não temos todos os hemisférios”, frisa Teresa Fragoso, presidente da CIG.

Um grupo de sete sociólogos recolheu informação sobre os papéis masculinos, identificou desafios e deixou algumas recomendações. E há uma que se destaca: os homens têm um papel fundamental para se esbater a desigualdade de género. Como a questão da dupla jornada (a acumulação de trabalho profissional com o trabalho a tratar da casa e dos filhos). “E não nos podemos esquecer que eles também têm direitos, como o direito à paternidade. Importa olhar para eles como seres que não são neutros.”

Desconstruir os atuais papéis de género na educação das crianças, que promovem os esterótipos de que as mulheres estão destinadas a algumas funções, é outra das recomendações. “A dupla jornada é uma consequência. É um estereótipo, que assenta na biologia, que por serem mães, todas as tarefas da casa e dos filhos lhes pertencem.” E é aí que assenta o telhado de vidro, uma barreira de progressão na carreira que não se vê mas existe.

A nível de políticas públicas, Teresa Fragoso destaca algumas medidas que podem ser tomadas na concertação social, como negociar o aumento das licenças de paternidade. Mesmo assim, é no público que é mais fácil diminuir as assimetrias. A proposta de lei do Governo - atualmente em discussão no Parlamento - para estabelecer quotas nas empresas públicas e nas cotadas em bolsa é prova disso. “No privado há mais liberdade e mais subjetividade. As assimetrias são brutais e as mulheres duplamente penalizadas”, frisa Teresa Fragoso.

Esta quarta-feira, na Reitoria da Universidade de Lisboa, realiza-se a iniciativa Women Talks, composta por vários workshops com Organizações Não Governamentais que trabalham na área da promoção da igualdade.