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E se ensinássemos História da Emigração?

antónio pedro ferreira

Chamam-lhe, pejorativamente, “franciús” ou “emigras”, como há um século eram os “brasileiros”, e o país interessa-se sobretudo pelo volume de dinheiro que mandam para Portugal – as célebres remessas. Um deputado socialista acha isto muito pouco e quer pôr os emigrantes no mapa da História que se ensina aos jovens. E, já agora, fazer um Museu Nacional da História da Emigração

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Há os Estados que já foram colónias - sete ao todo. Há uma língua que é a quinta mais falada no mundo. E há 2 milhões e 300 mil portugueses que nasceram em Portugal e vivem lá fora, isto é, 22% da população total, segundo os números disponíveis do Observatório da Emigração. Isto, já sem falar dos luso-descendentes que são, por ora, um universo incontabile, mas que se pensa serem pelo menos o dobro.

Se tal não bastasse, estes dados já seriam talvez razão bastante para tentar saber mais destes portugueses que vivem em 140 países do mundo, dos 193 contabilizados nas Nações Unidas. Uma odisseia que, como todos sabemos, foi construída ao longo de séculos, com umas páginas escritas mais a ouro, outras a sangue, em todo o caso sempre com muitas lágrimas e suor.

Somos um país de emigração desde há séculos e nem o desenvolvimento das últimas décadas impediram os portugueses de procurar outras paragens. Depois do pico de 2013, no auge da crise, em que se registaram 120 mil saídas, os números desceram para os 110 mil em 2014 e 1015, pelo que, dizem os números do Observatório, não dá para perceber se se trata “de uma estagnação, se de ligeira descida a partir de um máximo anterior mais elevado”.

Os portugueses estão hoje mais concentrados nos países europeus, sendo que a tradicional França foi substituída pelo Reino Unido, para onde rumaram em busca de trabalho permanente ou temporário 32,5 mil portugueses em 2015 (últimos dados disponíveis). A mudança de fluxo não inverteu todavia o número de residentes. É em França que vive a maior comunidade de portugueses (600 mil) e o Brasil, outrora a meca dos portugueses e onde até há poucas décadas se dizia viviam um milhão, não tinha em 2010, mais do que 138 mil registados como tal. E sim, claro, não se está a falar aqui de descendentes.

História incompleta

A história da emigração portuguesa está por fazer e aquela que é transmitida pelo ensino oficial é redutora. Então, porque não ensinar mais do que as estatísticas das remessas, remetidas para a disciplina de Geografia, como praticamente se reduz hoje em dia o assunto? E porque não fazer um museu à altura dessa história, à semelhança dos que existem em muitos países do mundo?

d.r.

As perguntas foram feitas pelo deputado socialista Paulo Pisco, eleito pelo círculo da Europa, e as suas proposta de inclusão no ensino da história da emigração, bem como de criar um Museu da História da Emigração foram acolhidas pela Comissão Nacional do PS, no último sábado.

“É preciso ultrapassar a abordagem que se faz da história da emigração no ensino, que é pouco mais do que aquela que era feita no tempo da ditadura de Salazar, que se resumia a registar o fluxo de saída de emigrantes e os seus lugares de origem e as remessas, que interessavam ao regime para ter dinheiro nos cofres“, disse o deputado ao apresentar a proposta, a que juntou a da criação do museu.

O país relaciona-se mal com as suas comunidades no estrangeiro, a quem todavia deve muito, diz o deputado, que evoca feitos que muitos desconhecem e de cujo conhecimento todos ganhariam. A cidade de Sacramento, no Uruguai, foi fundada por portugueses, há centenas de palavras de origem portuguesa na Indonésia (bem mais que do holandês, cujo país foi a potência colonizadora), bem como no Japão, há cidades e regiões no Irão e Bangladesh, que devem o seu nome aos portugueses.

E há mais: há um chefe índio venerado na British Columbia, no Canadá, que afinal era português, há descendentes de portugueses entre os tuaregues do deserto da Mauritânia, há portugueses até no Polo Norte!

João Gomes Cravinho, o ex-secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, contava que numa das suas inúmeras viagens durante a campanha para a eleição de Portugal para o Conselho de Segurança, foi recebido com todas as honras pelo primeiro-ministro das ilhas de São Vicente e Granadinas (pequenas Antilhas, Caraíbas), um sr. chamado Ralph Gonsalves – de origem portuguesa, é claro. Portugal contou com o seu voto que, na Assembleia Geral das Nações Unidas, como se sabe, vale tanto como o dos Estados Unidos.

Por todas estas razões, não é demais insistir, diz Paulo Pisco. Com a moção aprovada na Comissão Nacional do seu partido, trabalha agora nas resoluções parlamentares que hão de dar corpo às duas ideias. Não ignora que tanto para uma como outra, haverá muito trabalho de investigação a fazer, mas acha que vale a pena. É o seu trabalho e a sua luta. A bola agora está no Parlamento, depois passará para o Governo.