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A embaixadora feminista é uma sueca de coração latino

Caroline Fleetwood gosta de Portugal. A prova é que foi neste país que casou pela primeira vez em 1975, quando por aqui passou em viagem com o seu namorado sueco. É embaixadora da Suécia em Lisboa desde 2012

DR

Caroline e o primeiro marido vieram de propósito a Portugal para casar, porque sabiam que o país estava a viver um momento da sua história, nesse ano de 1975. Quatro décadas depois, a Suécia, que é o primeiro país a dizer ter um governo feminista, nomeou-a embaixadora em Lisboa

Lisboa tinha poucos hotéis quando Caroline Fleetwood aqui esteve em 1975. A jovem estudante sueca e o namorado instalaram-se no Tivoli, uma das melhores unidades hoteleiras nessa época, “que estava cheio de retornados”. Filha de um jornalista, Caroline estava suficientemente atenta ao que se passava no mundo para saber que a revolução portuguesa era uma experiência singular que ela e Fred – o seu então namorado – tinham de testemunhar e sentir.

“Casámos na embaixada da Suécia que era na rua da Imprensa à Estrela”, conta ao Expresso a presidente da Associação das Mulheres Embaixadoras que está acreditada em Lisboa como embaixadora da Suécia desde 2012.

Dias depois do matrimónio, os noivos seguiram viagem até Nova Iorque; foram felizes durante uns anos, tiveram duas filhas, e 17 anos mais tarde separaram-se. Na primeira metade da década de 1980, Caroline – que crescera no mundo dos jornais – entrou para o ministério dos Negócios Estrangeiros.

“Os direitos das mulheres são os Direitos do Homem”

Caroline assumiu a presidência da Associação das Mulheres Embaixadoras [acreditadas em Portugal] no final do ano passado. Representa um país que afirma ter o primeiro governo feminista do mundo e é assumidamente “feminista porque os direitos da mulher são os Direitos do Homem”, ou Direitos Humanos como alguns defendem em termos de designação para não mencionar o género.

Não gosta da ideia de quotas no mundo do trabalho, mas reconhece que o sector público da Suécia se aproxima mais da paridade no mercado de trabalho no que toca a cargos dirigentes do que as empregas privadas.“Atualmente, o governo sueco tem 24 ministros: 12 mulheres e 12 homens, é um governo paritário”, embora o primeiro-ministro seja do género masculino.

“Temos uma política externa feminista, fomos o primeiro país do mundo a fazê-lo, com um plano de ação para três anos que termina em 2018”, e tem um forte enfoque na proteção das mulheres em zonas de conflito, criando condições para implementar “seis objetivos de longo prazo”.

Esta foto das mulheres ministras do goveno sueco foi tirada a 1 de fevereiro. E foi considerada uma resposta a uma foto publicada por Donald Trump a 23 de janeiro

Esta foto das mulheres ministras do goveno sueco foi tirada a 1 de fevereiro. E foi considerada uma resposta a uma foto publicada por Donald Trump a 23 de janeiro

JOHAN SCHIFF / AFP / Getty Images

A ideia é que a política externa sueca contribua para que as mulheres e meninas deixem de ser objeto de discriminação e violência de género, que coloque em causa o seu direito à educação, trabalho e realização pessoal. “Este plano envolve homens e meninos no processo de promoção da igualdade de género”.

“Temos de ajudar as mulheres” que vivem em zonas geográficas com situações mais complicadas “a ganharem competências. É muito importante fazermos isso”.

“A experiência conta mais do que a idade”

“A minha mãe não trabalhava e sempre me disse para estudar e tirar boas notas para ser independente”. Nessa época não havia uma repartição paritária de tarefas entre os casais suecos; quando Caroline casou com o primeiro marido as tarefas já eram mais dividas, e “a minha filha reparte tudo com o marido”.

Caroline que se considera uma “sueca de coração latino”, teve o seu primeiro posto de trabalho no exterior em 1992, por ocasião da Expo 92 em Sevilha. Seis anos depois foi colocada em Lisboa – “onde tinha vindo com os meus pais quando era criança” – como adida de imprensa do seu país na altura da Expo 98. Foi nesta época que aprendeu as primeiras palavras em português, que melhorou bastante quando em 2005 foi colocada na embaixada da Suécia em Brasília.

“Gostei muito de estar no Brasil, da música, da cultura. Tive sorte com o período em que ali trabalhei; acho o Lula uma pessoa fascinante, bem como o plano que desenvolveu com o projeto da Bolsa Família”, que permitiu tirar milhares de brasileiros de um ciclo de pobreza.

Em 2008 teve o seu primeiro posto como embaixadora em Cuba. Quatro anos depois veio para Lisboa onde se sente em “casa”, admitindo mesmo a hipótese de – com Hans, o segundo marido – vir a comprar uma segunda residência no nosso país. Hans Söederströem é professor de Economia na Universidade de Estocolmo, e passa temporadas em Lisboa com a mulher.

No final de 2016, “comemorámos 375 anos de relações diplomáticas entre os nossos dois países”. Essas relações datam de 1641, pouco depois da Restauração, quando D. João IV procurou apoios de vários reinos da Europa para reconhecer o novo poder. Na altura, a Suécia era governada pela rainha Cristina, considerada uma das mulheres mais cultas da sua época.

As mulheres são excelentes “negociadoras” podendo dar um importante contributo na “prevenção conflitos” e outros “trabalhos onde a experiência conta”, diz Caroline. O equilíbrio etário é tão importante quanto a paridade: “Não é possível ter um local de trabalho só com jovens ou só com idosos, nem só com homens ou só com mulheres. São precisas pessoas com experiências diferentes para criar sinergias”.