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Saman Ali, yazidi em Portugal: “Perdi a minha família para o Daesh: mãe, irmãs, irmão, pai. Só vim eu, sozinho”

Chegaram esta segunda-feira a Portugal os primeiros 34 refugiados yazidis. São seis famílias, com filhos menores, e Saman, um homem só. Durante 18 meses vão viver em Guimarães integrados por sete instituições de solidariedade social

Saman Ali, 34 anos, tomou sempre a dianteira do grupo. No átrio das chegadas do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, pouco depois das 14h, primeiro surgiu ele e depois as seis famílias yazidi que viajaram da Grécia para Portugal. Ou se calhar, até vinham todos lado a lado, mas os olhos focaram-se nele. E os dele, sempre a olhar de frente na direção do friso de câmaras e jornalistas que os esperavam. Vestia negro integral, e uma boina também preta a cobrir a cabeça rapada a gilete. Nas mãos, ao nível do peito, erguia um cartaz que dizia o que a voz confirmou depois: “Thanks Portugal. I love you”.

O grupo de refugiados da minoria religiosa yazidi que esta segunda-feira chegou a Portugal é composto por 24 pessoas, mas só Saman veio sozinho. Os restantes – 14 adultos e nove menores, cinco dos quais bebés – constituem todos agregados familiares. “Perdi a minha família para o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), o grupo terrorista. Perdi a minha mãe, perdi as minhas irmãs, o meu irmão, o meu pai. Sou só eu, só eu sozinho. Perdi toda a minha família”, explica mais tarde aos jornalistas, em inglês, quando aceita falar pela comunidade recém-chegada.

“O meu nome é Saman, o nome de família é Ali, sou yazidi e venho do Iraque, de Sinjar.” A geografia e a religião minoritária que professa ditaram-lhe o percurso de vida que o trouxe a Portugal. Há vários anos que tinha trocado a terra-mãe pela cidade de Kirkuk, também no Iraque. Mas a família ficou. “Em agosto de 2013, o ISIS atacou Sinjar e levaram todas as mulheres, como a minha mãe e as minhas irmãs. Levaram três mil mulheres e crianças. Até agora não tenho notícias sobre o seu paradeiro. Não tenho nenhuma informação sobre o que lhes aconteceu.”

Ouvir a sua história, da sua boca, é dar um rosto próximo às notícias que há anos enchem os noticiários internacionais. E é relembrar os discursos de Nadia Murad e de Lamuya al-Bashar Taha, as duas jovens yazidi que ganharam o prémio Sakharov 2016. “Fomos levadas pelo Daesh a 3 de agosto de 2014...”. A palavra genocídio foi a que escolheram para retratar a perseguição do seu povo.

Também Saman foi perseguido. E por isso fugiu. Do Iraque para a Turquia, da Turquia para a Grécia. “Por estradas perigosas”, a pé e de carro. “Tenho muita pena mas não posso voltar nunca mais ao meu país Natal, ao Iraque”, revela. É um ponto assente; tanto quanto recomeçar em Portugal. “Hoje sinto que nasci de novo. Sinto-me seguro e acolhido. Eu tenho muitos muitos sonhos bonitos aqui em Portugal. Primeiro quero aprender a língua, depois quero retornar os estudos porque eu tenho um mestrado em biologia médica e quero prosseguir para ter o doutoramento e servir a sociedade portuguesa. Sinto que este país é o meu segundo país para sempre.”

Saman esteve na Grécia em campos de refugiados e em residências autónomas de acolhimento. Foi aí que ouviu falar de Portugal, um país europeu que se disponibilizava para receber 400 yazidis. Quando lhe propuseram a recolocação, disse sim.

Esta segunda-feira, ele e o grupo, já jantam em Guimarães. Os laços vincados ditaram que sejam todos acolhidos na mesma cidade, em alojamentos individuais (de instituições da rede social do concelho) mas que não distam entre si, mais de 15 minutos de carro. Nas primeiras semanas terão o acompanhamento permanente de dois tradutores e também apoio psicológico.

Estão sinalizados para recolocação em Portugal mais 91 yazidis. O próximo grupo deverá chegar em abril e será acolhido em Lisboa.