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A saúde não tem preço?

josé carlos carvalho

Quanto custa fazer uma cirurgia? E ficar internado num hospital público? Qual o preço das análises, de uma TAC, de um tratamento de quimioterapia ou de um simples penso? O Expresso esteve no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, para conhecer os doentes e, pela primeira vez, as respetivas contas. Houve cateterismos de 2347 euros, operações ao apêndice por €1111, consultas de 52 euros e consumo de centenas de frascos de paracetamol — a 55 cêntimos cada. O dia custou 1,2 milhões de euros. Esta é a história de uma inédita operação de somar

Às 9 horas da manhã, no bloco operatório do quinto andar do edifício principal do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o cirurgião José Rocha opera uma mulher, de 43 anos, com síndroma de Conn. Ao lado, noutra sala de cirurgia, o colega João Paulo retira um tumor do estômago de um homem de 85 anos. Noutro bloco operatório, a médica Natália Alves tem à sua frente um rapaz de 19 anos com uma apendicite. Enquanto isso, no 1º andar, numa sala de tratamento da urgência, o pneumologista António Miguel entuba uma doente de 53 anos com doença pulmonar obstrutiva crónica. No hospital de dia, no primeiro piso, é a essa hora que a alergologista Ana Mendes começa a vigiar a quimioterapia especial dada a um doente oncológico de 62 anos. A uns metros dali, no edifício onde funciona a obstetrícia, faz-se o parto de um rapaz, no bloco, situado no 6º piso. Nasceu às 9h25 e foi um dos seis bebés daquele dia.

Naquela segunda-feira, dia 13 de fevereiro, ao longo de 24 horas, no maior hospital do país gastou-se mais de um milhão de euros — precisamente, 1.271.459,42 euros. Fizeram-se 92 operações, foram atendidos 719 doentes na urgência (incluindo a central, a pediátrica e a de obstetrícia), realizaram-se 3642 consultas externas e efetuaram-se mais de 27 mil análises. Ultrapassou-se os 600 mil euros de despesas em medicamentos e consumiu-se 634 metros cúbicos de água e 64 mil quilowatts de eletricidade. Pelo meio, foram servidas 6500 refeições aos doentes internados ou em tratamentos. Pelos 28 elevadores e pelos enormes corredores dos edifícios que compõem o hospital circularam 5080 funcionários, entre médicos, enfermeiros e outros profissionais, como 32 seguranças, que durante aquelas 24 horas picaram o ponto. As taxas moderadoras a pagar pelos utentes atingiram 21.884 euros, mas só 42,3%, isto é, 9248 euros foram logo saldados naquele dia.

Dois doentes de helicóptero numa hora

O custos dessa segunda-feira, de acordo com dados cedidos ao Expresso pelo Serviço de Planeamento e Informação de Gestão do hospital, foram “anormalmente superiores à média diária de 2016, que foi de 1.129.080,62 euros”. Mas 13 de fevereiro foi um dia complexo. Logo pela manhã, passavam 14 minutos das 9 horas quando três elementos do INEM entraram a correr pela porta da urgência levando na maca uma senhora de 72 anos em estado muito crítico. Tinha sido transportada de helicóptero do Hospital de Portimão (uma hora e dez minutos de voo). Como o aparelho era um Kamov, muito pesado, não pôde aterrar no terreno da unidade de saúde e teve de ir para o aeroporto de Lisboa. Daqui foi levada de ambulância. Quando chegou estava em risco de vida. Teve uma fibrilhação ventricular, ou seja, uma arritmia cardíaca que pode causar morte súbita, explica Margarida Lages Beirão, de 44 anos, a médica da equipa dedicada da urgência que a recebeu e a colocou na sala de reanimação, onde foi entubada e ventilada.

Em Portimão, uma equipa de suporte imediato de vida tinha-lhe já dado quatro choques, mas ninguém sabia o que originara o problema. Por isso, à volta da doente de pulseira vermelha (usada para os casos emergentes), juntam-se logo vários médicos a trocar opiniões sobre o que fazer para tentar detetar a causa do que acabara de suceder ao coração daquela algarvia. Enquanto isso, às 9h36, os enfermeiros fizeram-lhe um raio X, um exame que custou 10 euros. A decisão dos médicos foi, entretanto, tomada. “Optámos por fazer já um cateterismo cardíaco e depois irá para os cuidados intensivos”, detalha Margarida Lages. Fizeram análises clínicas, onde foram gastos 129,78 euros, um eletroencefalograma, que custou 91,70 euros, e medicaram-na com produtos no valor de 41,10 euros. O cateterismo foi o ato mais caro: 2347,11 euros. Já a estadia na urgência custou 156,2 euros — este o valor gasto por cada pessoa na urgência, naquele dia no Hospital de Santa Maria. Até ser transferida para o internamento, o que os médicos tinham feito à mulher chegava a 2775,89 euros. Ficou depois instalada no Serviço de Medicina Intensiva, onde há suporte de vida e onde cada 24 horas têm um encargo de 1505 euros. Ao final do dia, os seus tratamentos situavam-se nos 4280 euros.

Falar de preços não é comum num hospital público e quando os doentes têm alta não imaginam o preço de tudo que lhes foi feito. Há, porém, quem defenda que cada um devia saber o que gasta, até para se usar racionalmente os serviços. A ideia, polémica, é aplicada em alguns países, como Espanha, onde desde o ano 2000 há hospitais a emitir uma ‘fatura sanitária informativa’, onde revelam a cada espanhol quanto e como gastou dinheiro no serviço público de saúde. Os custos do Hospital de Santa Maria, assim como de todas os outras unidades públicas portugueses, são apurados com base em médias fixadas na portaria 234/2015, onde um grupo de peritos definiu o valor de cada ato médico. Ainda não há, como nos privados, custos reais e efetivos definidos em função da intervenção feita a cada pessoa.

Os doentes não fazem ideia dessas contas. É isso que acontece entre os milhares de utentes que por ali passam naquela segunda-feira, dia 13 de fevereiro. São 9h30 e cada vez há mais pessoas na urgência. Enquanto alguns médicos e enfermeiros tratavam da grave doente enviada do Algarve, outros atendiam os que iam chegando A cada minuto, o movimento nos corredores cresce. Às 9h42, uma doente com uma bata do hospital colocada ao estilo dos Flintstones por cima da roupa, é levada por um dos seguranças para a sala da urgência psiquiátrica, de onde tinha saído. Ao mesmo tempo ouve-se uma idosa, deitada numa maca, gritar de dores; veem-se as ‘camas’ colocadas no corredor a ficarem cada vez mais ocupadas; e nota-se que a fila de pessoas sentadas à espera de análises aumenta. A coordenar tudo está Ana Bela Oliveira, de 52 anos, a diretora das urgências que dispõe de uma equipa de 22 elementos, distribuídos por dois turnos, um das 8h às 14h e outro das 14h às 20h. “As segundas-feiras são sempre dos dias mais complicados”, desabafa.

Com pulseira verde, considerada por isso pouco urgente pela triagem, uma empregada de refeitório, de 59 anos, aguarda a chamada para ir recolher sangue. “Senti-me muito mal com tonturas e não consegui ir trabalhar”, conta. Mal ouve o seu nome, levanta-se, devagar, e entra na pequena sala, onde as enfermeiras lhe fizeram a colheita às 9h15. Foi uma das 27.402 análises realizadas ao longo do dia. As suas custaram 13,87 euros. Ainda fez um raio X de cinco euros e um eletrocardiograma de 6,50 euros. O preço da sua ida ao hospital naquela manhã foi de 181,57 euros.

josé carlos carvalho

Urgência. Muitos dos doentes que recorrem ao hospital são idosos e aparecem também muitas pessoas com problemas respiratórios

Urgência. Muitos dos doentes que recorrem ao hospital são idosos e aparecem também muitas pessoas com problemas respiratórios

josé carlos carvalho

Uns metros à frente, na sala de tratamento 3, está Maria, de 53 anos. Encontra-se sentada numa das 10 cadeiras azuis destinadas aos doentes com problemas respiratórios. Ainda não eram 10 horas e já havia quatro lugares ocupados. Maria está num dos cantos, entubada e com grandes dificuldades em respirar. Tem pulseira amarela, sinal de que é urgente. Chegara às 8h20, cansada, aflita com falta de ar. Passado mais de uma hora ainda tossia e não respirava tranquilamente. É reformada por invalidez com 89% de incapacidade devido à doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), que lhe foi diagnosticada há seis anos. “Fumava muito, sabe...”, começa por contar quando se sente um pouco melhor, explicando que há um ano apanhou um susto tão grande que deixou o vício de 35 anos. “Mas ainda não sinto que valeu a pena”, confessa com as lágrimas nos olhos, de desespero. Melhora quando recorda os tempos em que foi ginasta do Sporting: “Adorava saltar o trampolim”. Antes de ficar doente, ainda trabalhou como vendedora de time-sharing de uma empresa no Algarve, mas agora, diz, pouco faz. “Passo os dias a ver televisão.”

Um dos médicos que está a acompanhar os doentes naquela sala é o pneumologista António Miguel, que em setembro se mudou de Ponta Delgada, onde trabalhava. “A doente já cá tinha estado sexta-feira, mas hoje regressou”, explica. Maria confirma: “Passo cá a vida.” Já perdeu a conta às vezes que ali esteve internada, no Centro Hospitalar Lisboa Central, que inclui os hospitais de Santa Maria e o Pulido Valente. Na realidade, desde 2011 Maria já foi internada 38 vezes. E cada uma delas teve um preço médio de 1070 euros. Ao todo, foram mais de 40 mil euros. Naquela segunda-feira o cenário repetiu-se e ficou ali a dormir. Antes fez análises (12,97 euros), recebeu oxigénio (8,40 euros), um eletrocardiograma (6,50 euros) e um raio X (5 euros). Quando, ao final da tarde, foi para o quarto no hospital, tinha gasto também 33,87 euros em procedimentos na sala de tratamento e mais os 156,2 euros da urgência.

Quimioterapia . Carlos Alberto Mendes, de 62 anos, reagiu mal a um medicamento eficaz para o cancro. De 15 em 15 dias faz um tratamento especial de 17 horas. Doze num dia e cinco noutro

Quimioterapia . Carlos Alberto Mendes, de 62 anos, reagiu mal a um medicamento eficaz para o cancro. De 15 em 15 dias faz um tratamento especial de 17 horas. Doze num dia e cinco noutro

Com o andar dos minutos, a sala onde estava Maria, exclusiva para os doentes com problemas respiratórios, ia enchendo. Mas, entretanto, um episódio que costuma acontecer apenas uma vez por mês, sucedeu duas vezes naquele dia: chegou às urgências um outro doente, transportado de helicóptero — transporte pago pelo Estado ao INEM ao abrigo de um acordo. Trata-se de um indiano de 44 anos que sofreu uma queda de quatro metros dentro do navio cargueiro onde seguia, quando o barco passava ao largo de Peniche. “Foi resgatado pelas Forças Armadas”, conta a diretora Ana Bela Oliveira. Às 10h04 é colocado na outra sala de reanimação. Deitado na marquesa, apenas com as calças de pijama aos quadrados que trazia. Fala pouco, ou quase nada, e o que sai é em inglês. Tem um traumatismo craniano. Dão-lhe cloreto de sódio e examinam-no. Às 10h51 é levado para o 2º andar para uma TAC — Tomografia Computadorizada. Fez seis, ao todo: ao crânio, por 67 euros; à coluna vertebral, por 72,40 euros; ao tórax, por 74,70 euros; ao abdominal superior, por 84,50 euros; uma TAC pélvica, por 61,59 euros; e outra maxilo-facial, por 67,60. Para opacificar os vasos e mostrar nas imagens a atividade dos tecidos, os técnicos ainda usaram um composto que contém iodo e custa 12 euros. Só com as TAC, a despesa deste utente ultrapassou os 474 euros.

Ao longo do dia, outros doentes fizeram esses mesmos exames. A máquina da TAC foi usada 213 vezes. Cada uma teve um preço, em média, de 75 euros. Depois de os médicos captarem as imagens que pretendiam do doente indiano, juntaram algumas análises (45,19 euros) e enviaram-no para os cuidados intensivos, onde naquele dia gastou mais 1003,8 euros. A sua conta será paga pela companhia de seguros da empresa que o colocou a trabalhar no cargueiro e que navegava na hora do acidente em águas portuguesas.

A lutar contra o cancro

A meio da manhã, uma multidão enche a zona de espera para as consultas externas, no 1º piso. Victor Lopes, de 78 anos, vem tirar os pontos de uma cirurgia vascular feita há uns dias. Está acompanhado pela irmã Susete, de 71 anos, e calhou-lhe a senha M0225, onde ficou registada a hora de chegada: 10h11. Cem minutos depois tinham-lhe tirado os pontos e feito um penso simples, o que custou sete euros. Já havia passado por uma consulta de enfermagem que valia 16 euros e estava na consulta de cirurgia vascular com o médico Luís Silvestre, que tem um preço de 52,10 euros. Mostrava-se animado e mais tranquilo quanto ao aneurisma que lhe tinha sido diagnosticado na aorta.

Fora operado a 27 de janeiro, para lhe colocarem umas próteses endovasculares. “São feitas no estrangeiro, à medida para cada doente”, explica Manuel Barbosa, diretor do departamento de Medicina. As próteses de Vítor foram planeadas por um centro em Londres e custaram 10 mil euros ao hospital. Por virem de fora de Portugal, teve de esperar oito meses para ser operado. “Era seguido pela médica de família por ter diabetes e outras doenças quando, num exame, detetaram o aneurisma assintomático. Em julho de 2016 foi encaminhado para uma consulta aqui no Santa Maria”, recorda Susete. Ao ouvir a história, Manuel Barbosa, que começou a trabalhar neste hospital em 1974, interrompe para deixar um aviso aos críticos do Serviço Nacional de Saúde (SNS): “Este é um caso que mostra como o serviço público é eficaz. A médica de família detetou o problema e enviou o doente para a consulta do hospital, que estudou a situação e a resolveu com as técnicas mais recentes.”

Diagnóstico. Cada TAC custa, em média, 75 euros. No dia 13 de fevereiro a máquina foi usada 213 vezes

Diagnóstico. Cada TAC custa, em média, 75 euros. No dia 13 de fevereiro a máquina foi usada 213 vezes

josé carlos carvalho

Victor é um homem com humor, bem disposto. E o dia é para festejar. “Disso já não morre”, garantia-lhe Manuel Barbosa. O utente ri-se e recorda os meses em que, enquanto esperava pela chegada das próteses, deixou de ir ao Algarve vender eletrodomésticos e outros produtos para o lar, como fazia todos os meses, com medo de se sentir mal. “No Algarve não há cirurgia vascular. Se me dava alguma coisa...” Victor encontra-se num dos 35 gabinetes para consultas que existem naquela zona do hospital. Em média, calcula Manuel Barbosa, são atendidos três doentes por hora em cada um, a grande maioria são consultas subsequentes. Das 3642 feitas naquela segunda-feira, só 950 foram pessoas que ali iam pela primeira vez.

Carlos Alberto Mendes, de 62 anos, sabe bem o que é estar habituado aos corredores do Santa Maria. É seguido em Oncologia desde 2010. Tinha ele uma vida tranquila e um café na zona de Vendas Novas quando lhe foi diagnosticado um carcinoma no cólon. “Não me esqueço. Foi a 10 de janeiro e a partir daí não me livrei mais disto.” Desde as 8h30 da manhã que se encontra sentado numa das dez cadeiras da sala de um dos hospitais de dia, onde os doentes são tratados em ambulatório, em vez de ficarem internados.

Como reagiu mal, fazendo alergia a um tratamento de quimioterapia que é o mais eficaz para combater a sua doença, está ali a receber o mesmo tratamento através de um processo que evita que tenha nova reação adversa (chamado dessensibilização). O medicamento, que ao longo de 12 horas irá consumir, custa 1423,43 euros. Costuma fazer esta quimioterapia regularmente. “De 15 em 15 dias”, detalha. Além do fármaco, tem ainda de fazer, de hora a hora, aquele processo de dessensibilização: fez 12 vezes, e cada uma custou 26,40 euros. Ao longo do dia avaliam-lhe os sinais vitais, como a temperatura, o pulso, a tensão arterial, a respiração e a dor, procedimento de 3,80 euros que lhe executaram duas vezes. Quando às oito da noite acaba o tratamento e vai para casa, o hospital tinha investido nele 1869,03 euros. Carlos tem noção do que o SNS já fez por si. “Já fui operado cinco vezes: ao cólon, ao fígado, aos pulmões, às cordas vocais e a um aneurisma. Além disso, fiz vários tratamentos de quimioterapia.” Também não tem dúvidas de que a evolução da medicina o tem ajudado. “Quando ia ser operado às metástases no fígado, não esqueço que o médico disse: ‘Se fosse há 10 anos não o operava, mas hoje vou operá-lo e vai sair daqui limpo’”, recorda, acrescentando: “Livrei-me deste bicho no fígado, mas apareceu agora nos pulmões.” Foi, aliás, a quantidade de tratamentos que o expôs a reações.

Operações. Só no dia 13 deste mês, o hospital fez 92 operações e atendeu 719 doentes nas urgências. Nasceram seis bebés e morreram quatro pessoas

Operações. Só no dia 13 deste mês, o hospital fez 92 operações e atendeu 719 doentes nas urgências. Nasceram seis bebés e morreram quatro pessoas

josé carlos santos

Agora só pode receber tratamento através do processo de dessensibilização. “Trata-se de dar o mesmo fármaco, mas com diluições sucessivas, e com medicamentos acessórios, para que o corpo o tolere”, concretiza Ana Mendes, a alergologista de 42 anos destacada na unidade de dessensibilização (onde, desde que foi criada, em 2009, já foram ajudados 227 doentes oncológicos). Mas não só. Na cadeira ao lado de Carlos, por exemplo, está um doente que é alérgico à aspirina e encontra-se ali porque precisa de a consumir para os problemas de sangue. É nesta sala que costumam sentar-se alguns dos que ali vão ser tratados com medicamentos biológicos, feitos a partir de células vivas, e que são caros. É, aliás, entre os doentes que não estão internados que mais se gasta em medicamentos. Naquele dia 13 consumiu-se em todo o hospital mais de 610 mil euros em remédios — 70% foi em ambulatório.

Em breve, adiantou Carlos Martins, 55 anos, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte, terá início o tratamento de um só doente com um fármaco que custa 900 mil euros por ano. Trata-se de um portador de uma doença hereditária rara, chamada défice de lípase ácida lisossómica, que, por falta dessa enzima, leva o corpo a acumular gorduras em vários órgãos, como no fígado, no baço e nos vasos sanguíneos. O gabinete do presidente está 4.º piso do edifício central. Há reuniões atrás de reuniões. Carlos Martins admite que gerir o maior hospital do país é uma “enorme responsabilidade” e garante que o grande desafio foi equilibrar as contas e “ultrapassar os 11 milhões de euros de prejuízo que havia todos os meses” quando assumiu funções, há quatro anos. Para 2017, avança, as estimativas apontam para que o orçamento anual seja de 420 milhões de euros.

Internamento custa 721,5 euros por dia

A calma que se vive nas salas de tratamento contrasta com a agitação da zona principal das urgências, onde muitos doentes que chegam têm de ser operados de imediato. Desde manhã que os blocos operatórios não têm descanso. Natália Alves, de 55 anos, a médica de cirurgia geral responsável pela unidade da mama, é naquele dia chefe de banco e tem que definir as prioridades de entrada nas duas salas de operações exclusivas para os casos urgentes, que se situam no 5º andar. A meio da tarde, já tinham sido feitas duas cirurgias plásticas a traumatismos na face, uma neurocirurgia e duas cirurgias gerais, estas últimas realizadas por Natália e pela sua equipa. Uma delas para resolver um abcesso perianal a um doente, de 85 anos, e outra para tratar um jovem de 19 anos que chegou à urgência com uma apendicite.

A operação demorou 20 minutos. Deram-lhe anestesia geral e resolveram o problema por via aberta, sem recorrer a laparoscopia. Correu tudo bem. Só a operação custou 1111,68 euros. A isso, somou-se o preço dos medicamentos (4,58 euros, entre eles dois frascos de paracetamol a 1,11 euros e uma ampola de penicilina a 1,59 euros), as análises clínicas que fez (66,50 euros) e o raio X e três ecografias que lhe realizaram (49,43 euros). Fica internado no serviço de cirurgia do 5º andar, onde a diária vale 721,50 euros. As operações a outros doentes sucedem-se. Foram feitas 92, ao todo. E 13 foram urgentes.

São quase 16h30 quando os cirurgiões de banco na urgência se preparam para iniciar outra neurocirurgia. A essa hora também Natália Alves está em vias de começar nova operação, esta muito complexa. Por isso, decide ouvir a opinião do chefe de Departamento de Cirurgia, João Coutinho, que está no seu gabinete. Trocam informações, a médica despede-se e segue caminho para avançar com a intervenção às 17h. Sabe que tem entre mãos um caso complexo: um doente com 44 anos e um cancro em progressão. A operação, uma ressecção segmentada múltipla do intestino delgado, dura três horas e custa 4340,13 euros. Isto sem contar com os 24,47 euros das análises e os 30 cêntimos dos medicamentos. Ao todo, naquelas horas foram gastos com o doente mais de quatro mil euros para que tenha melhor qualidade de vida. Nos dias anteriores tinha estado internado nos cuidados intensivos, onde a cada dia eram gastos mais de mil euros.

Ao mesmo tempo que decorrem estas cirurgias urgentes, noutros blocos realizam-se as cirurgias programadas. Dois dos 47 cirurgiões que integram a equipa de cirurgia geral liderada por João Coutinho estão a fazer intervenções ao esófago e estômago e às suprarrenais. Logo pela manhã, uma senhora de 58 anos foi curada de um problema nas glândulas suprarrenais (conhecido como síndroma de Conn e que causa hipertensão arterial) com uma cirurgia que custou 2874,52 euros. Nesse dia, a doente ainda gastou mais 86,21 euros: 74,59 em análises, 9,70 em ecografias e 1,92 em medicamentos — três frascos de paracetamol, cada um a 55 cêntimos, um anticonvulsivante de três cêntimos, um comprimido que inibe o fluxo gástrico por 17 cêntimos, dois calmantes de três cêntimos e um comprimido também de três cêntimos para reposição hormonal. A doente seguiu para internamento, cujo preço é de 721,5 euros por dia. A operação que fez demorou cerca de 1h15, conta José Rocha, o cirurgião de 64 anos que liderou a intervenção. O médico admite que foi uma operação complexa até porque a doente tinha uma anatomia difícil. Foi feita por laparoscopia com três buracos: um de um centímetro onde colocaram a câmara, e dois de cinco milímetros onde trabalharam com as pinças. Dentro do bloco estavam, além de José Rocha, mais três pessoas: o cirurgião ajudante José Girão, a instrumentista Paula Gil, a anestesista Isabel Neves.

À hora do almoço, a mesma equipa volta a operar. Desta vez, uma doente de 40 anos com um nódulo benigno de quatro centímetros, também na glândula suprarrenal. É com sucesso que ao fim de 55 minutos o tiram através de uma laparoscopia e com uma despesa de quase três mil euros, A única diferença é que, desta vez, a operação foi feita do lado direito do corpo da doente e, por isso, teve de ser feito mais um furo de cinco milímetros para que pudessem afastar o fígado. Para isso, a equipa foi reforçada com Ana Gomes, uma segunda ajudante. A paciente recebeu medicação (2,31 euros) e fez análises (14,02 euros).

Tecnologia . Hoje toda a informação clínica está informatizada e durante a operação, os profissionais indicam num programa de computador os procedimentos realizados e os consumos

Tecnologia . Hoje toda a informação clínica está informatizada e durante a operação, os profissionais indicam num programa de computador os procedimentos realizados e os consumos

josé carlos carvalho

Na sala ao lado, que integra o bloco destinado à cirurgia geral, José Paulo, cirurgião especialista em operações ao esófago e ao estômago, também não parou de operar desde manhã. Começou às 8h30 com uma idosa de 85 anos com um tumor no estômago, uma operação de 5059,22 euros. Continuou com uma operação para dar melhor qualidade de vida a um doente, de 62 anos, com um grave tumor maligno. Cirurgia avaliada em 2934,85 euros. E seguiu para uma terceira intervenção, numa doente cabo-verdiana, de 36 anos, que sofria de acalásia — uma perturbação no esófago que dificulta a ingestão de alimentos. O problema fica resolvido e os três mil euros serão faturados ao abrigo de um protocolo que o Governo tem com Cabo Verde, permitindo que os doentes sejam tratados em Portugal.

Às 17h30, a equipa de José Paulo ainda opera uma senhora a uma hérnia ventral. Trata-se, explica José Paulo, de um defeito do músculo causado por uma cirurgia anterior. Os custos da operação foram de 1676,05 euros. Quando o cirurgião, que não gosta de ouvir falar de preços por recear que acabem em críticas às opções dos médicos, termina as suas operações já anoiteceu.

O dia está prestes a acabar. O doente indiano está estável nos cuidados intensivos, de tal forma que recebeu alta às 10 horas da manhã seguinte. A senhora de 72 anos que tinha entrado em risco de vida, encontra-se ainda mal na medicina intensiva — tendo vindo a falecer no dia 17 de fevereiro. Muitos dos outros juntaram-se aos 1085 doentes que naquele dia dormiram no Hospital de Santa Maria, onde um milhão de euros salvou muitas pessoas. Na urgência geral, chega às 23h25 um doente com um problema num ouvido que foi atendido pelo otorrino e sai com um plano de fisioterapia. Pouco depois, às 23h33, aparece na urgência de obstetrícia uma jovem grávida de 20 anos que não tinha nada de especial. Medem-lhe a tensão, tranquilizam-na e pouco depois volta para casa. Foi a última doente daquele dia 13 fevereiro.