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20 portuguesas com História

ilustração Alain Gonçalves

Quando está a chegar mais um Dia Internacional da Mulher, fomos ao Arquivo Expresso resgatar uma seleção de 20 portuguesas que inscreveram o seu nome na História de Portugal. Este artigo foi publicado originalmente na revista do Expresso de 6 de março de 2010

Anabela Natário (texto) Alain Gonçalves (ilustrações)

Teresa de Leão (1080-1130). No dia da boda, ela talvez ainda seja menor, ele terá pouco mais de 25 anos. Ela é filha de Afonso VI de Leão e da sua 'amiga' Ximena Muñiz, e quinta neta de Mumadona Dias, a primeira condessa da Terra de Portucalis. E ele - filho do duque de Borgonha, bisneto do rei de França, sobrinho-neto de Hugo de Cluny - recebeu-a de prémio, juntamente com os condados de Coimbra e de Portucale.

Da união, nasceram três filhas e Afonso, que se fez primeiro rei de Portugal. Ao ficar viúva, auto-intitulou-se rainha e continuou a luta do marido, ou seja, a conquista de terras, o alargamento dos seus domínios. Para si, fazia sentido unificar o Norte da Península Ibérica sob o seu cetro. Governará o condado portucalense durante 16 anos, muitos dos quais com o conde de Trava a seu lado, prosseguindo ambos a ideia de autonomia, até mesmo após serem derrotados por Afonso Henriques. Morrerá dois anos depois, sendo sepultada na Sé de Braga, ao lado do primeiro marido, o conde Henrique.

2. Teresa Henriques (1151-1218)

Gentil, varonil, altiva, dadivosa, formosíssima, esbelta, de bom feitio, uma das mulheres mais belas da Europa, desejada por todos os príncipes da terra... eis alguns dos qualificativos atribuídos a Teresa (para os portugueses), Matilde (para os flamengos) e Mahaut (para os franceses), à filha do primeiro rei de Portugal e da rainha Mafalda de Sabóia. Saiu ao pai e à avó Teresa de Leão, a portuguesa que casou com Filipe de Alsácia, o conde mais poderoso e rico que alguns reis da Europa do século XII. Os qualificativos parecem encaixar-se, mas é curioso apontar este tipo de atributos quando se fala numa mulher que foi corregente de um reino, herdeira do trono e se transformou em condessa-rainha, e num grande obstáculo à anexação da Flandres pelos franceses. Que governou viúva e comandou exércitos, fez do irmão grão-mestre da Ordem dos Hospitalários, voltou a casar para ganhar outro condado independente, o da Borgonha, e...

3. Antónia Rodrigues (1580-?)

Nasceu Antónia e fez-se António para rumar ao Norte de África. Em menos de 20 anos, foi menina, menino, grumete, espingardeiro a pé e a cavalo, herói, mulher, heroína, esposa, mãe. Nasceu em Aveiro, mas deveria ter 12 anos quando fugiu de Lisboa, da casa de uma irmã, já com uma estratégia: com uns tostões que amealhara comprou um fato de marujo e cortou o cabelo, de modo a apagar qualquer traço feminino. Correu, então, para o cais, onde convenceu o mestre de uma caravela a levar consigo um ajudante. Chegou grumete à praça portuguesa de Mazagão, onde se alistou como soldado. Aos 15 ou 16 anos, já lhe chamavam o 'Terror dos Mouros'.

Quando a filha de um militar se apaixonou pela sua personagem, Antónia revelou o corpo e regressou a Portugal. Aqui, passaram a chamar-lhe 'Cavaleira Portuguesa' e atribuíram-lhe uma tença anual por ter servido com bravura no exército do reino.

4. Josefa d'Óbidos (1630-1684)

Filha de pai obidense e de mãe andaluza, nasceu em Sevilha, na época em que o mesmo Filipe reinava em Espanha e Portugal.

Fez uma viagem de Sevilha a Óbidos, ainda menina, e a partir daí nunca se deslocou mais longe do que a Alcobaça, Coimbra ou Buçaco. Dizem que morreu emancipada mas donzela, doente mas lúcida. Ao longo da vida, à parte de alguns negócios, para os quais demonstrou sabedoria, não terá feito outra coisa se não pintar telas e tábuas, gravar cobres e, talvez, modelar barro, apaixonadamente, cheia de fé. As primeiras obras que se lhe conhecem são as gravuras de Santa Catarina e de São José, trabalhadas a buril, aos 16 anos, quando tudo indicava que iria ser freira.

Mas Josefa d'Ayala e Cabrera, filha de artista plástico, resolveu seguir as pisadas do pai, combinando os ensinamentos deste com a espontaneidade de quem pratica a arte sem sentir influências. Numa época em que não é fácil ser mulher, ela fez o que quis e entrou na História com a sua arte barroca.

5. Filipa de Lencastre (1360-1415)

Neta do rei Eduardo III de Inglaterra, filha de João de Gaunt e de Branca, passou a infância de terra em terra, conforme o pai decidia viajar para melhor gerir os bens da mulher, herdeira do duque de Lencastre. E veio para o Porto, já com 27 anos, para ser rainha de Portugal e iniciar com João I a dinastia de Avis. Será uma das impulsionadoras da modernização e da expansão do reino, além de educadora dos seus filhos, a chamada Ínclita Geração. Sentindo-se a morrer, chamou-os e pediu três espadas para entregar aos mais velhos. A Duarte, herdeiro do trono, pediu que governasse com justiça e piedade; a Pedro, o das Sete Partidas, que cuidasse da honra das mulheres; a Henrique, o Navegador, que cuidasse dos homens; e a Isabel (futura duquesa de Borgonha) que olhasse pelos irmãos mais novos, João e Fernando, o Infante Santo. Tal como a avó paterna Filipa de Hainault, o avô Henrique de Lencastre e sua mãe, que a deixou órfã aos 9 anos, morrerá de peste. "Que enigma havia em teu seio que só génios concebia?", interrogou-se o poeta Fernando Pessoa.

6. Juliana Dias da Costa (1657-1734)

O 38º vice-Rei da Índia andou alguns meses de 1712 bastante preocupado - a "potência do Mogor" conquistara todo o Industão até à fronteira dos domínios de João V na Ásia. Mas talvez não tivesse razões para isso, o rei mongol era considerado um amigo e quem mandava no harém de Bahadur Xá tinha um nome português, falava a língua portuguesa, assim como a persa, a latina, a francesa e outras. Acarinhada por cinco monarcas mongóis, cujos conselhos escutavam, fossem no campo da medicina ou no da diplomacia, Juliana, além de superiora e clínica do serralho imperial, desempenhou com êxito o papel de procuradora do reino português e serviu de intermediária a holandeses, franceses e italianos, proporcionando também a expansão aos jesuítas. Filha de um português, e de uma escrava de uma princesa de Agra, veio ao mundo em Bengala, onde, nos séculos XVII e XVIII, a língua portuguesa servia para todos se entenderem.

Edmée Marques, Vieira da Silva e Filipa de Lencastre

Edmée Marques, Vieira da Silva e Filipa de Lencastre

ilustração Alain gonçalves

7. Antónia Pusich (1805-1883)

Teria uns 15 ou 16 anos quando passou a primeira prova de fogo. Esgueirou-se de casa para participar num combate, pronta a morrer, queria estar junto do pai, correr os mesmos riscos que o governador de Cabo Verde, terra onde nasceu. Há de voltar a desafiar o medo, noutras circunstâncias, como quando tentou salvar da morte um dos maridos. Casada duas ou três vezes, conforme a sua vida é contada no século XIX ou no seguinte, mãe de cinco filhos, escritora, Antónia Gertrudes Pusich foi a primeira mulher a fundar e dirigir um jornal, sem pseudónimos - por isso, há quem defenda ser ela a primeira jornalista portuguesa.

Monárquica, escritora, compositora, defensora do direito da mulher à educação, dizia que não era política, sim racional, mas esgrimiu argumentos políticos até morrer, em Lisboa, aos 78 anos.

8. Antónia Ferreira (1811-1897)

Nasceu em Godim, perto de Peso da Régua, onde passou a infância e a adolescência. Casou-se por conveniência da família com um primo, boémio e mulherengo, que a deixa viúva com pouco mais de 30 anos e duas crianças, mas herdeira de uma fortuna. Sozinha, negoceia, controla, investe, ajuda os necessitados, necessitados, acode aos filhos, processa os filhos... e morre octogenária, bastante mais rica do que nascera, com as quintas a produzir 1500 pipas de vinho por ano. Deixa uma fortuna avaliada em 5.907.323$000 réis, que inclui 30 quintas, armazéns e palácios bem recheados, coleções de arte, joias, títulos, créditos e dinheiro. O seu exigente testamento - uma divisão entre os dois filhos e os 18 netos - foi cumprido sem reservas. A sua última grande iniciativa foi em 1887, contra a opinião geral, mandou plantar vinha no Monte Meão, lugar alto de terras bravias de onde sairá o famoso "Barca Velha". Muitos lhe chamaram 'santa' e 'mãe dos pobres', mas o nome que ficará nas memórias é o popular 'Ferreirinha'.

9. Maria II (1819-1853)

Chamam-lhe a Educadora... De facto, empenhou-se na educação dos filhos, quando o habitual era entregar essa tarefa a outrem. Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, nascida no Rio de Janeiro, tinha consciência de que vivia em tempos muito diversos dos dos antepassados.
No seu, é preciso que quem governa seja uma pessoa ilustre e instruída, como ouvira dizer a seu pai, Pedro IV, primeiro imperador do Brasil. E fez um grande esforço para se cultivar, aprendendo, sobretudo, com o terceiro marido, Fernando de Saxe-Coburgo-Gota-Koháry. Mas resumi-la a esse papel de 'boa-mãe', como sucedeu até ao século XX, é injusto para uma mulher que foi rainha aos 7 anos de idade e reinou, efetivamente, a partir dos 15, num período de grande conturbação do reino de Portugal, de combates entre irmãos, guerra civil, revoltas populares.

A mulher que conseguiu fazer cumprir a Carta Constitucional morreu aos 34 anos.

10. Luísa Holstein (1841-1909)

Ela é a herdeira de uma das famílias mais ricas do reino e não abdicará da gestão dos bens a favor do marido, como era uso e costume.

É a única escultora que se destacou no século XIX em Portugal. Artista premiada no Salão de Paris, onde expõe já com 43 anos e uma filha de 20, tinha diversos interesses para lá da arte. Dizia-se socialista, dizia ser o supérfluo dos ricos o património dos pobres, e é exemplo desta sua postura na vida a cantina destinada àqueles cujos ordenados mal davam para se sustentarem, mas que deveriam ter direito a comer uma boa refeição num lugar decente e limpo. As Cozinhas Económicas, uma obra que a implantação da República não desprezou, representam a parte mais visível da filantropia de Maria Luísa Domingas de Sales de Borja de Assis de Paula de Sousa Holstein (de Palmela). Ela foi a Duquesa, sem mais, como a chamavam em Lisboa.

Teresa de Leão, Lourdes Pintasilgo e Florbela Espanca

Teresa de Leão, Lourdes Pintasilgo e Florbela Espanca

ilustração alain gonçalves

11. Adelaide Cabete 1867-1935)

Sobreviveu, menina, trabalhando a dias, aprendendo de ouvido, até se apaixonar por um homem 18 anos mais velho, moderno, pronto a transformá-la em igual. Nascida em Elvas, filha de operários, Adelaide de Jesus Damas Brazão casou-se aos 18 anos, concluiu a instrução primária aos 22, terminou o liceu aos 29 e licenciou-se em Medicina aos 33. "A proteção às mulheres grávidas pobres como meio de promover o desenvolvimento físico de novas gerações", foi a sua tese de licenciatura, em que, extravasando as fronteiras da ciência, propôs a criação de uma lei que permitisse às trabalhadoras repousarem no último mês de gravidez, beneficiando de um subsídio retirado dos lucros da empresa, do Estado e de uma quotização entre os trabalhadores.

E propunha a criação de maternidades, creches, asilos para a infância, instituições de solidariedade social... um prenúncio das matérias que há de defender até ao fim da vida. Republicana, feminista, maçona, lutou pelos direitos das mulheres, das crianças, dos pobres, dos animais... lutou por uma sociedade equitativa e saudável.

12. Irene Lisboa (1892-1958)

O seu nome lê-se em placas de escolas, bibliotecas, avenidas, ruas, largos e pracetas, mas a sua obra poucos conhecem. A maioria dos livros que escreveu editou-os a suas expensas e os publicados pela editora pouco se venderam. "Tudo é dos outros/e me foi sempre negado", escreveu a pedagoga inovadora, nascida perto da Arruda dos Vinhos, obrigada à reforma pela ditadura quando tem apenas 46 anos. Escritora de prosa e poesia, que o tempo há de impor como a precursora da escrita moderna em Portugal, Irene do Céu Vieira Lisboa fora bolseira na Suíça e ali aprendera a acabar com a monotonia e a repressão na escola, levando os alunos a uma aprendizagem brincando. Sem poder dar aulas, sofre em silêncio, escrevendo, vendo os seus artigos nos jornais serem censurados pelos mesmos que a proibiram de proferir conferências.

Mas não desiste. Será a única mulher entre 34 homens, no jantar do 20º aniversário da revista de oposição democrática "Seara Nova", em que colabora com nome de homem. Trinta e um anos após a sua morte, foi-lhe atribuída a comenda da Ordem da Liberdade.

13. Maria Lamas (1893-1983)

Batizada com o nome de Maria da Conceição, nasceu em Torres Novas, numa família da média burguesia, sendo a primeira dos quatro filhos de Manuel Caetano da Silva e de Maria da Encarnação Vassalo. Pensou ser freira, mas o pai e o casamento logo lhe apagaram o lado místico. Foi jornalista, escritora, feminista, lutadora... pagou com a prisão e o exílio a defesa dos seus ideais. E não queria cair no esquecimento: por diversas vezes dirá à filha mais nova que não rasgue as suas cartas por ser importante que se conheça o seu pensamento. Aos 81 anos, por uma questão de coerência de vida, filiou-se no Partido Comunista Português. É um símbolo da luta pela emancipação da mulher e pela democracia. Impossível esquecer o seu papel.

14. Florbela Espanca (1894-1930)

Embolia pulmonar foi o que ficou na certidão de óbito. Uma meia verdade na morte tal como no nascimento: na cédula constava "filha de pai incógnito". Ora, a poetisa escolheu suicidar-se e todos sabiam que seu pai era João Maria Espanca. Um pai que a educou, que a ajudou, mas que só a reconheceria, oficialmente, 19 anos após o suicídio, para beneficiar, na certa, dos direitos de autor da grande obra poética da filha e porque daí a dias seria inaugurado o busto da poetisa na cidade de Évora, onde vivia e onde também ela residira. Flor Bela Lobo, como ficou registada, nasceu em Vila Viçosa, sob o signo de Sagitário. Foi uma mulher arrojada, a quem de vez em quando faltou a coragem para contrariar os preconceitos.
Morreu com a sensação que sempre teve, a de que nunca ninguém gostara dela. Dela, que deixara escrito “eu quero amar, amar, perdidamente”...

15. Edmée Marques (1899-1986)

"Certifico que Branca Edmée Marques fez um trabalho bastante útil no meu laboratório desde o início de Novembro de 1931", assim começava a carta de Marie Curie que não sensibilizou o Governo português para prorrogar a bolsa de estudo atribuída à cientista. Quem pegou no seu trabalho fez descobertas importantes, mas a lisboeta foi obrigada a voltar a Portugal, onde a mulher e a Ciência valiam pouco, muito embora já se caminhasse no século XX. Apesar de doutorada desde os 36 anos, de chegar a diretora do centro de estudos de Radioquímica do Instituto de Alta Cultura, da insistência de Curie no seu regresso a Paris, e das excelentes classificações nos concursos para progressão na carreira universitária, só será professora catedrática, efectivamente, em 1966, quando conta 67 anos e já contribuiu grandemente para a investigação científica do país, em especial, quanto à utilização da energia nuclear para fins pacíficos.

Antónia Ferreira e Natália Correia

Antónia Ferreira e Natália Correia

16. Vieira da Silva (1908-1992)

Em 1956, a revista "Elle" elegeu-a a francesa do ano. Vivia há algum tempo em França, todavia, não aceita a distinção, fazendo lembrar que é portuguesa, nascida em Lisboa.
Mas, nesse mesmo ano, optaria pela nacionalidade do país que a acolhera. Optaria, logo depois de Oliveira Salazar lhe ter proposto aquilo que lhe recusara quase duas décadas antes, quando ela e o marido quiseram ser cidadãos lusos e o ditador a chantageou, condicionando a aceitação ao divórcio. Maria Helena Vieira da Silva perdera a cidadania ao casar-se no ano do seu 22º aniversário, com o pintor Arpad Szenes, judeu apátrida nascido na Hungria, o amor da sua vida... Só na década de 70 do século XX, Portugal reconhecerá que o seu talento para a pintura fazia História.

17. Cesina Bermudes (1908-2001)

Pudesse escolher a próxima reincarnação e escolheria uma vida que lhe proporcionasse educação musical. Acreditava que se faziam várias passagens pela Terra para aperfeiçoar o espírito e, desta feita, só se dedicara à investigação científica... só se formara em Medicina, se especializara em Obstetrícia, se doutorara com 19 valores, introduzira em Portugal o parto sem dor, defendera os direitos das mulheres, se inscrevera no Partido Comunista para combater o salazarismo, ajudara a nascer inúmeros bebés de mães perseguidas pela ditadura que também a há-de prender... Nesta vida, em nada proveitosa do ponto de vista musical, ainda se interessou pela literatura e pelo desporto. Mas, para si, a Medicina foi tudo.

18. Amália Rodrigues (1920-1999)

Cantora, fadista, atriz de teatro, cinema...

uma 'estrela' do século XX. A sua vida já foi escrita e rescrita. Mas há sempre algo a contar sobre esta mulher que se podia ter chamado Maria do Carmo... sobre esta mulher que escolheu o dia para festejar o aniversário... sobre esta mulher intuitiva que não se sentia fadista, sim artista... que dizia dever o êxito à tristeza, ao medo, à timidez... que dizia que cantava, cantando... que dizia ter ganho o direito de ser só Amália e não Dona Amália, como lhe chamavam os admiradores, por julgarem mostrar, assim, mais respeito pela mulher que levou o fado ao mundo e, ao longo de meio século, gravou mais de centena e meia de discos, entrou numa dezena de filmes, deu inúmeros espetáculos. E não fez mais porque não quis.

19. Natália Correia (1923-1993)

Açoriana de São Miguel, deixou a ilha aos 11 anos, e rumou a Lisboa para estudar, mas na escola pouco estudou. Fez da vida aquilo que poucas contemporâneas suas se puderam gabar, tornando-se numa das grandes figuras do século XX. Romancista, poetisa, boémia, dramaturga, ensaísta, deputada, proprietária de uma loja de antiguidades, dona de um bar... Natália de Oliveira Correia, com as suas écharpes, longas boquilhas e um grande talento oratório, distinguiu-se pela inteligência e pela obra. Casada quatro vezes, nunca teve filhos, dizia que a sua maternidade era universal. Quando menina, queria ser poetisa, detetive e dona de um casino clandestino. "Eu pareço entusiástica, exuberante, mas é só por fora. É a minha forma de me libertar das tensões que as pessoas mordem dentro de si. Interiormente, tenho a imobilidade de um ídolo oriental. Mas não sou fria. Sou até um ser profundamente afetivo", disse.

20. Lourdes Pintasilgo (1930-2004)

Primeiro-ministro, primeira-ministro ou primeira-ministra? Não se sabia como lhe chamar. Nunca uma mulher desempenhara esse cargo em Portugal, mas ela foi convidada a fazê-lo pelo Presidente da República a braços com uma crise política.

Aceitou liderar um governo de homens durante 149 dias. Pode ter sido pouco tempo, todavia, deixou as bases de um sistema de segurança social para todas as pessoas, quer trabalhassem ou não. Maria de Lourdes - Pintasilgo, apelido herdado de um antepassado que recebeu a alcunha por assobiar como esse pássaro - foi uma pioneira que dedicou a vida à luta por uma sociedade mais justa, influenciada pelos ideais cristãos, pela experiência dos padres operários em França.