Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O sítio da Amy

© Alessia Pierdomenico / Reuters

Meio ano depois ter aberto as portas, o "Amy's Place", a casa de recuperação de jovens mulheres que lutam contra as drogas e o álcool, criada no rasto da cantora Amy Winehouse, já resgata vidas. São 16 "moradoras", dos 18 aos 30 anos, naquela que é (estranhamente) a única casa de recuperação no Reino Unido destinada a ajudar jovens adictas

A 23 de julho de 2011, uma talentosa cantora desaparecia. Amy Winehouse tinha 27 anos e como tantos outros talentos como ela, sucumbia aos vícios do lado negro da vida artística. Depois de vários tratamentos contra o vício das drogas, Winehouse viria a falecer devido a uma intoxicação com álcool - no dia em que morreu, tinha 5 vezes mais de álcool no sangue do que o limite permitido para conduzir. Cinco anos depois, em sua memória, abria o "Amy's Place", uma casa de acolhimento para jovens mulheres, dos 18 aos 30 anos, que queiram reconstruir a vida e recuperar-se da dependência do álcool ou das drogas. Seis meses depois, já é possível fazer um pequeno balanço. Houve mulheres que recaíram, sim – mas, em regra, as 18 habitantes da casa estão a conseguir encontrar um rumo.

Cada rapariga dispõe do seu próprio apartamento, e pode ficar até dois anos. Tem de cumprir os apertadas regras da casa, que implicam zero drogas e álcool, análises ao sangue a qualquer momento, e a proibição de visitas noturnas. A parceria com a "Center Care and Support" foi pioneira num programa centrado especificamente nas necessidades das mulheres adictas, com causas muitas vezes "mais complexas que os seus homólogos masculinos", dizem. As residentes da "Amy's Place" já completaram um programa de reabilitação, pelo que a casa serve para lhes proporcionar "um ambiente seguro em que consigam reconstruir as suas vidas e pôr em prática todo o conhecimento que adquiriram no seu tratamento", partilha Jane Winehouse, madrasta de Amy e uma das principais responsáveis pela existência da Fundação Amy Winehouse e da "Amy's House". Ela explica: "Conhecemos pessoas em tratamento aterrorizadas com o que lhes iria acontecer quando acabassem a reabilitação". Um dos principais problemas passa por regressar aos mesmos sítios, onde se têm os mesmos conhecidos e muitas vezes se cai em velhos hábitos. Foi a pensar nessas pessoas que se construiu esta casa.

Nos piores momentos, Amy Winehouse nem em concertos conseguia deixar de beber

Nos piores momentos, Amy Winehouse nem em concertos conseguia deixar de beber

© Juan Medina / Reuters

Para Judith Heryka, uma das residentes da Amy's House, viver ali é "100% a razão" pela qual ela se tem conseguido manter limpa e o primeiro sítio em que vive e se sente segura. Esta jovem de 26 anos, mãe de dois filhos de 5 e 7 anos, tem feito uma caminhada no sentido de se limpar de drogas. Viciada em crack e cocaína, o seu momento definidor chegou quando lhe disseram que os seus filhos iriam entrar em processo de adoção. Este foi o click que ela precisava para se limpar. E algumas das obrigações da "Amy's House", como fazer trabalho voluntário, frequentar formações ou encontrar paixões, como o desporto, só ajudam.

Grace Gunn é outra das residentes da casa. Foi aliás uma das primeiras. Tem 19 anos e está sóbria há um. "Tomei a minha primeira bebida com 8 anos", contou à BBC News, "e quando tinha 12 escapava-me para fazer coisas que não devia. Entre os 13 e os 14 anos fui colocada numa instituição, e foi nessa altura que o hábito escalou por completo, já que não tinha os meus pais por perto". O problema agigantou-se quando a adolescente foi para um hostel para sem-abrigo, onde no quarto ao lado se vendia droga. No seu caso, tudo mudou de figura depois de quase ter morrido: "Em novembro de 2015 tomei 57 antidepressivos com um litro de vodka e outro de licor e quase morri. Acordei a espumar da boca, em pânico. Quando me estavam a desintoxicar, na área de ressuscitação do hospital, disseram-me 'é uma questão de tempo até perceber se os teus órgãos vão falhar ou não'. Passei 4 dias a rezar para não morrer".

A responsável pela casa, Hannah Crystal, partilha que é "muito empolgante" assistir aos progressos das mulheres na casa. E acrescenta: "Penso que as raparigas que aqui estão vão chegar a um ponto em que estão prontas para se autonomizarem e teremos novas entradas na Amy's House". Amy Winehouse, a cantora de "Rahab", ficaria seguramente contente.

O pai de Amy Winehouse na altura do anúncio da Fundação que levaria o nome da cantora

O pai de Amy Winehouse na altura do anúncio da Fundação que levaria o nome da cantora

Michael Loccisano