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O meu nome é Popov. Dusko Popov

Duplo. Dusko Popov era o homem dos alemães que trabalhava para os britânicos. O espião jugoslavo foi decisivo em várias operações dos aliados e viu o seu melhor amigo ser raptado e morto pela Gestapo

“Espiar não é coisa de cavalheiros”, disse o agente duplo jugoslavo que inspirou James Bond. Esta é a história da sua vida no Estoril durante a Segunda Guerra Mundial

Texto Margarida Magalhães Ramalho*

Há sempre algo que fica para trás. Pode ser uma velha mala, esquecida no sótão de uma quinta. Pode ser uma história. Por vezes, raras vezes, a primeira guarda as memórias de que é feito o mistério da segunda. Durante quase setenta anos esta mala ficou esquecida no sótão da Quinta dos Grilos, em Carnide, residência dos Bajlonis, uma abastada família jugoslava que viera para Portugal, em 1941, após a invasão do seu país pela Alemanha. Amigo de longa data dos Bajlonis, Dusko Popov, figura central desta história, foi visita assídua da quinta durante o tempo que esteve em Portugal. No interior da mala, em avançado estado de degradação devido ao pó e à humidade, entre outros objetos, encontrava-se um muito deteriorado manual de radioamador, em espanhol, um nécessaire com vários frascos de medicamentos (Popov tomava Benzedrina, uma anfetamina, para se manter ativo, e comprimidos para dormir, além de outros para as úlceras que ia colecionando), elementos de equipamento de rádio, um punhal de fabrico britânico e quatro rolos de filme Kodak de 35 mm.

Dois dos rolos estavam virgens. Mas, surpresa das surpresas, dos outros foi possível obter cerca de 37 fotografias tiradas em Portugal no início dos anos 40. Além de algumas desfocadas, que não permitem qualquer identificação das pessoas, e de mais algumas de paisagens, a maior parte são fotografias de homens e mulheres jovens que fariam parte provavelmente da entourage social, necessária à manutenção do seu disfarce de Popov. Numa destas imagens, foi identificado posteriormente, por um filho, Milenko Popovié, adido de imprensa na Embaixada jugoslava em Lisboa durante a guerra.

Portugal foi, como se sabe, um dos poucos países neutros num continente em guerra. Essa condição tornou Lisboa praticamente o único porto livre da Europa. Foi por isso um ponto de confluência para muitos dos que fugiam ao nazismo. Além da massa de refugiados anónimos, vinham também cabeças coroadas, membros de antigos governos, banqueiros, diplomatas, homens de negócios, intelectuais, cientistas, artistas de cinema, etc. A neutralidade portuguesa permitia ainda que em Lisboa circulasse a propaganda dos países beligerantes e que fosse possível encontrar quase todos os jornais (à exceção dos da União Soviética) que se editavam no mundo. Por essa razão, Lisboa e o eixo Sintra/Cascais/Estoril tornou-se o palco privilegiado de uma intrincada rede de espionagem onde se cruzavam e enredaram agentes secretos, muitas vezes duplos e até triplos.

Inspiração Ian Fleming, criador de James Bond, assistiu de perto ao trabalho de Popov no Estoril e recriou os nervos de aço do espião jugoslavo na mesa de bacará em “Casino Royale”. A vida de Popov inspirou outros dois livros publicados recentemente em Portugal: “Na Toca do Lobo”, de Larry Loftis, e “Estoril”, de Dejan Tiago-Stankovic

Inspiração Ian Fleming, criador de James Bond, assistiu de perto ao trabalho de Popov no Estoril e recriou os nervos de aço do espião jugoslavo na mesa de bacará em “Casino Royale”. A vida de Popov inspirou outros dois livros publicados recentemente em Portugal: “Na Toca do Lobo”, de Larry Loftis, e “Estoril”, de Dejan Tiago-Stankovic

No início do verão de 1941, vão cruzar-se no Estoril, no Hotel Palácio e nas salas do casino, Ian Lancaster Fleming, da Divisão de Informações Navais britânica, e o agente duplo jugoslavo Dusko Popov. Dez anos depois, Fleming, inspirando-se em Popov e no ambiente que vivera no Casino Estoril, escreveria o seu primeiro romance de espionagem, “Casino Royal”, e criaria 007, o mais famoso agente secreto de todos os tempos, Bond, James Bond.

Numa noite, entre fins de julho e 10 de agosto de 1941, Fleming testemunharia uma das proezas de Popov, um homem com nervos de aço, como seria de esperar de alguém que durante anos conseguiu passar a perna aos alemães mesmo quando todas as aparências estavam contra ele. Fleming tinha sido encarregado de seguir discretamente Popov, portador de uma pequena fortuna, proveniente de “Midas” (um mirabolante plano, concebido para os Aliados lavarem dinheiro nas barbas dos alemães). Numa das mesas de bacará do casino, Popov resolve dar uma lição a um apostador irritante de nome Bloch, que anunciara apostas ilimitadas de forma arrogante e inapropriada. Popov colocou, então, em cima da mesa os 50 mil dólares que recebera dos britânicos. Escreve Larry Loftis no seu recente livro “Na Toca do Lobo” (Vogais, 2017) que se fez um silêncio sepulcral na sala, enquanto Fleming se mantinha expectante. Como Bloch não tinha possibilidade de acompanhar a aposta, Popov retirou o dinheiro da mesa dizendo: “Espero que a gerência não permita ações tão irresponsáveis no futuro. São uma vergonha e um incómodo para os verdadeiros jogadores.” Mais tarde, como se sabe, a história seria recriada no livro “Casino Royale”, no qual os hotéis do Estoril, Palácio e Parque, passaram a ser designados por Splendid e Hermitage.

A abertura dos arquivos relativos à II Guerra Mundial do MI5 e do MI6, e os muitos trabalhos de investigação realizados entretanto, têm trazido luz sobre a vida de Dusko Popov, um dos maiores agentes secretos de todos os tempos e um dos que mais contribuíram para a vitória dos Aliados. Recentemente, foram publicados em Portugal dois livros a não perder para quem goste de histórias de espionagem deste período. O primeiro, sob a chancela da Book Builders/Contemporânea, intitula-se “Estoril”, um romance de guerra (Prémio de Romance, Academia Sérvia Artes e Ciências, 2016), e é da autoria do escritor sérvio, agora naturalizado português, Dejan Tiago-Stankovic. Apesar de ser uma obra de ficção, com óbvias liberdades criativas, segue muito de perto a realidade, baseando-se em documentação histórica. Foi Dejan Tiago-Stankovic, também ele ligado por laços familiares aos atuais proprietários da Quinta dos Grilos, que, já com o seu livro na gráfica, irá encontrar a mala e, por descargo de consciência, mandar revelar os rolos. De resto, uma das fotografias, a do adido de imprensa na Embaixada jugoslava, é utilizada por Stankovic na capa do seu livro.

O segundo livro é o já citado na “Toca do Lobo”, do advogado americano Larri Loftis. Tendo como subtítulo “A História do James Bond da Vida Real”, é uma importante coletânea de documentação de fácil leitura, onde se pode acompanhar a par e passo a vida atribulada de Dusko Popov desde os seus tempos de estudante na Alemanha, na década de 30, até 1945. Parte considerável passa-se em Portugal, naquela Grande Lisboa onde se jogava o “tudo ou nada” e a que o historiador Douglas Wheeler chamou, com perspicácia, Spyland. Também o jornalista refugiado Eugene Tillinger, escreveria, em 1940, no britânico “Daily Mirror”: “Os melhores agentes da Gestapo estão aqui [em Lisboa]. Acontece o mesmo com os serviços secretos ingleses. Muitos destes espiões já se conhecem de encontros prévios: em Praga, em Varsóvia, em Bruxelas. Desde que a Gestapo fez de Lisboa a sua coutada favorita, os comerciantes de diamantes fugidos da Bélgica, após a ocupação do seu país, foram-se embora à pressa. Eram seguidos de perto pelos alemães, porque se houvesse qualquer pretexto para serem presos, estes procuravam ficar com as pedras preciosas.”

Apesar da forma romanesca com que a literatura e Hollywood têm retratado os agentes secretos, a vida destes homens e mulheres que trabalhavam por necessidade, convicção, gosto de aventura ou por dinheiro, era desgastante e perigosa, sobretudo se jogassem em dois ou três tabuleiros ao mesmo tempo. Não abrangidos, como os militares, pela Convenção de Genebra, os espiões corriam demasiado perigo. Se fossem apanhados, mesmo em território neutro, tinham como destino quase certo a tortura e a morte. Foi o que aconteceu, em abril de 1944, a Johann Jebsen, amigo íntimo de Dusko Popov, que o tratava por Johnny. Raptado em Lisboa pela Gestapo, será levado durante a noite, com outro agente, na mala de um carro para França e depois para Berlim, onde foi torturado e posteriormente executado.

Colegas desde o tempo da faculdade, Johnny e Popov estavam unidos por uma sólida amizade. Em junho de 1937, quando tinha acabado de entregar a sua tese de doutoramento em Friburgo, Popov foi preso pela Gestapo. Em causa estava um discurso proferido a favor das democracias num clube de estudantes estrangeiros. Será Johnny Jebsen que irá mexer alguns cordelinhos e alertar o pai de Dusko, que por sua vez pedirá a intervenção do primeiro-ministro sérvio. Dusko acabará por ser libertado e expulso da Alemanha. Nunca esquecerá que o amigo lhe salvara a vida.

Como muitos outros membros das velhas famílias alemãs pouco simpatizantes do novo regime, Jebsen ingressaria depois do começo da guerra nos quadros da Abwehr, o serviço de informação do exército germânico. Foi a forma encontrada por muitos para não serem considerados traidores à pátria. Na Abwehr continuariam a servir a Alemanha, só que sob as ordens, apesar de tudo mais independentes e arejadas, da Wehrmacht e não propriamente da elite nazi. Aliás, o líder desta organização, até 1944, o almirante Wilhelm Canaris, viria a ser uma das figuras da resistência secreta ao regime de Adolf Hitler, tendo sido executado em abril de 1945 no quadro do atentado contra o ditador.

Após a expulsão da Alemanha, Dusko Popov instalara-se em Dubrovnik e, em 1940, era um advogado de sucesso, que falava fluentemente várias línguas e se especializara em direito empresarial. Tinha uma importante carteira de clientes, entre os quais se destacava Karlo Banac, um dos homens mais ricos da Jugoslávia, e os Bajlonis, donos do banco Savska. O meio em que Popov se movimentava interessava à Abwehr, que via nele uma possibilidade de acesso a alguns círculos empresariais britânicos. Nesse ano é-lhe feita uma proposta de colaboração. Popov não aceita. Seria mais tarde, por influência de Johnny Jebsen, e com o acordo dos serviços secretos britânicos, que começaria a trabalhar para a Abwehr. Durante a primavera de 1941, Dusko já trabalhava para os dois lados. Nesse âmbito, conseguiu convencer os alemães da existência de minas fictícias em toda a Grã-Bretanha e ajudou a criar o famoso plano “Midas”, que levou a Alemanha, através de um esquema de trocas de dinheiro inventado, a “financiar” operações do MI5.

Será também nessa altura que começa a trabalhar na preparação de uma rota de fuga da Jugoslávia (através da qual Jebsen conseguiria fazer vir, mais tarde, o irmão de Dusko, o médico Ivo Popov, que trabalhava para a resistência jugoslava e que viria a ser também um agente duplo da rede “Trycicle”, gerida por Dusko). Alegadamente, a criação desta linha tinha como objetivo fazer sair daqueles territórios agentes alemães para serem colocados noutros locais. Na prática, serviu para trazer para o Ocidente agentes duplos leais aos Aliados.

No verão de 1941, Dusko partiu para os Estados Unidos da América, numa missão da Abwehr. Ficaria quase um ano. Os objetivos eram estabelecer no país uma rede de espionagem, investigar as aquisições de urânio, que poderiam estar relacionadas com a bomba atómica, e fornecer dados sobre as defesas da base naval de Pearl Harbor. Seria durante esta missão que Dusko, juntando pontas soltas, compreendeu que os japoneses iriam atacar Pearl Harbor dentro de quatro meses. De imediato, fez chegar as suas desconfianças ao FBI, a quem já teria oferecido os seus préstimos — que as ignorou totalmente. O desinteresse americano e o resultado dramático do ataque nipónico serão um rude golpe para Dusko. Setenta anos passados e mesmo depois de os arquivos britânicos confirmarem a inépcia americana neste episódio, o FBI continua a empatar, mostrando apenas aos investigadores a documentação que lhe convém.

Documentos. O Hotel Palácio Estoril foi palco do trabalho de dezenas de espiões e as fichas de registo dos hóspedes, com nomes como Ian Fleming, Dusko Popov e Saint-Exupéry são verdadeiras preciosidades

Documentos. O Hotel Palácio Estoril foi palco do trabalho de dezenas de espiões e as fichas de registo dos hóspedes, com nomes como Ian Fleming, Dusko Popov e Saint-Exupéry são verdadeiras preciosidades

A missão de Popov nos EUA não foi fácil. Sem a ajuda dos serviços secretos americanos para enviar informações plausíveis, as únicas que poderiam convencer os alemães da sua utilidade como espião, Popov encontrava-se mais uma vez no fio na navalha. Além disso o seu disfarce obrigava-o a uma vida de luxo. A escassez de informações enviadas por este agente levara Berlim a parar o financiamento e Popov começava a acumular dívidas. Mas o pior foi quando se voltou a envolver amorosamente com uma antiga namorada, Simone Simon, bela atriz francesa, agora estrela de Hollywood. O facto de o romance ter sido divulgado com todos os pormenores num tabloide americano deixou Berlim em estado de choque, ganhando força a suspeita de que Dusko os estaria a enganar, trabalhando para os americanos.

Os britânicos, acreditando que Dusko poderia ser executado, tentam dissuadi-lo de regressar a Lisboa, onde se encontrava o seu controlador, Ludovico von Karsthoff. Dusko não acreditou no perigo e decidiu arriscar. Perante isso, os britânicos tentaram reunir algumas informações credíveis que o pudessem ajudar a manter o disfarce. De regresso a Portugal, o encontro com von Karsthoff vai fazer-se não como era habitual na sua residência, o chalé mourisco Toki-Ona, na estrada de Bicesse (Estoril), mas num andar no nº 8 da Avenida de Berna. O sangue frio e as respostas de Dusko, que assume desde início o fracasso da missão embora culpe os alemães disso por terem deixado de o financiar, acabam por inverter a situação. Depois de alguns interrogatórios, a confiança no agente Ivan, como era conhecido pelos alemães, regressou e Popov continuou até 1944 a ‘trabalhar’ para eles. Sobre a decisão de Popov de regressar a Lisboa escreveria mais tarde um dos oficiais da Divisão de Informações Navais Britânica, Ewen Montagu: “Foi o mais elevado grau de coragem e sangue-frio com que me deparei.”

Para os Aliados, Dusko Popov faria mais quatro missões determinantes para o desfecho da guerra. A “Mincemeat”, enganando a Alemanha quanto à iminência de uma invasão da Sicília; a “Cícero”, em que expôs um agente alemão; a “Fortitude”, cujo objetivo era dar uma falsa localização do desembarque do Dia D; e a “Copperhead”, convencendo os alemães de que Montgomery estava em Gibraltar e não a planear a invasão da França.

Em setembro de 1943, quando passava uns dias na Quinta do Grilo, em Carnide, alguém sabotou o seu belo descapotável BMW, que acabaria por explodir, sem vítimas. Popov emprestara o carro à filha dos seus anfitriões. Sem saberem que Dusko era, na verdade, um leal agente britânico, os americanos tinham tentado eliminá-lo. Nesse mesmo ano, Jehnny Jebsen, o grande amigo de Popov, era cada vez mais antinazi e trabalhava também para a causa aliada. Contudo, não seria essa a razão do rapto. Tempos antes, Jebsen tinha recebido notas falsas de um agente da Gestapo. Quando reclamou, percebeu que tinha ‘tropeçado’ num negócio chorudo que estava a enriquecer alguns membros do III Reich. Como refere Loftis, a partir dessa altura “Himmler ficou com ele na mira”.

Ciente do perigo que o seu agente corria, a Abwehr continuou a dar-lhe proteção, sugerindo mesmo que, se se sentisse ameaçado, fugisse para Inglaterra. Jebsen nunca quis, para não deixar a mulher e o filho, que continuavam na Alemanha nas mãos da polícia secreta. A queda do almirante Canaris, em 1944, e o enfraquecimento desta organização deixaram Johnny Jebsen numa posição muito fragilizada. Quando a Gestapo descobriu que, associado à rede de fuga da Jugoslávia, Jebsen estava a fazer ganhar dinheiro ilegalmente a oficiais da Abwehr tudo se precipitou. O seu desaparecimento, em abril de 1944, lançou o pânico entre os serviços secretos aliados, que não sabiam a razão da sua detenção. Se tivesse que ver com o facto de trabalhar com os britânicos, os métodos implacáveis da Gestapo podiam levá-lo a falar e a colocar em risco todo o trabalho de contrainformação em curso para encobrir o local do já agendado desembarque na Normandia (“Operação Fortitude”). Além disso, poderia ainda expor outros agentes duplos, a começar pelo seu amigo Dusko Popov, rebatizado “Trycicle”, em fevereiro de 1941.

Ao contrário do que é muitas vezes dito e escrito, este segundo nome de código não lhe foi atribuído por Dusko ser um amante do ménage à trois, que eventualmente poderia ter sido, mas, segundo o relatório do MI5, por ter passado a controlar outros dois agentes duplos: Friedl Gaertner, com o nome de código Gelatine (Ivonne para os alemães), e Dickie Metcalfe, conhecido por Baloon (Ivan II para os alemães). Para Popov, a prisão de Jebsen, em abril de 1944, representou muito mais do que o perigo da sua exposição. O problema era o destino que o seu maior amigo iria ter de enfrentar. Até à confirmação, em 1945, da morte de Johnny, Popov moveu céus e terra para o tentar ajudar. Obrigado a sair de cena, deixará Lisboa rumo a Londres, onde seria eventualmente encenada a sua captura e prisão. Tentavam assim os britânicos proteger Trycicle, um dos seus mais preciosos agentes e evitar que os alemães questionassem a veracidade das informações remetidas pelo agente Ivan.

Para trás, Trycicle deixava saudades em muitos corações femininos, algumas dívidas à família Bajlonis e uma mala de pele com alguns pertences. Pela análise das fotografias e do vestuário encontrados no interior da mala, percebe-se que as imagens não foram tiradas todas no mesmo dia nem no mesmo lugar. Algumas parecem ter sido captadas algures entre o Cabo Raso e a Praia do Abano. Outras parecem ter sido feitas junto ao Cabo da Roca, outras ainda foram captadas numa zona rural, onde alguém conhecido residiria — há fotografias tiradas no exterior e no interior de uma casinha saloia. Pelo tipo de envolvente parece ser nos arredores da Praia das Maçãs/Azenhas do Mar. Recorde-se que aqui se concentrava um grande número de refugiados holandeses, nomeadamente jovens que se tinham vindo oferecer aos britânicos para trabalhar na Resistência.

Descoberta. Fotografias reveladas a partir dos rolos encontrados na mala deixada por Dusko Popov na Quinta dos Grilos, em Carnide

Descoberta. Fotografias reveladas a partir dos rolos encontrados na mala deixada por Dusko Popov na Quinta dos Grilos, em Carnide

Entre as imagens desfocadas, consegue-se perceber uma, talvez de uma estação de caminho de ferro, já que se veem os carris. Outra assemelha-se a um dos acessos ao aeródromo da Granja do Marquês (Sintra), utilizado durante a guerra até à abertura da Portela. Uma terceira mostra um homem armado com uma espingarda. Quem teria sido o fotógrafo? O próprio Popov? A que se teria ficado a dever a má focagem das imagens? Aselhice do fotógrafo ou instantâneos feitos às escondidas? Riscadas ou desfocadas, o interessante destas imagens, algumas das quais agora se publicam pela primeira vez, é terem pertencido a Dusko Popov e terem sobrevivido, nos rolos, em péssimas condições, sete décadas. Talvez a sua divulgação sirva para que algum leitor consiga também brincar aos detetives e identificar lugares e intervenientes.

Quem passa hoje pelo Estoril dificilmente consegue imaginar os anos conturbados da guerra, os seus dramas, os jogos de espelhos e de sombras que ali tiveram lugar. Desse imaginário dá-nos conta, através de uma escrita inteligente e lúdica, o livro de Dejan Tiago-Stankovic, “Estoril”. A par das personagens reais, criadas a partir do que elas próprias escreveram ou da documentação histórica, Stankovic construiu outras totalmente fictícias. A mais interessante é, sem dúvida, a de Gavriel Franklin, um miúdo de dez anos que chega sozinho ao Hotel Palácio, em 1940, onde ficará a residir até ao final da guerra. Decalcado do “Petit Prince”, de Antoine de Saint-Exupéry (também ele retratado em ambos os livros), Gabi, como passará a ser designado, acabará por servir de ligação entre as personagens deste romance ao tornar-se amigo, entre outros, de Saint-Exupéry, de Popov, e do campeão de xadrez Alexander Alekhine, que morreria de forma pouco clara no Hotel Palácio.

Quanto ao livro de Larry Loftis, embora não sendo uma biografia de Dusko Popov, já que dedica poucas páginas à sua vida antes e depois da guerra, é um relato apaixonante das aventuras e desventuras deste famoso agente secreto. Utilizando o que o próprio Popov irá deixar escrito nas suas memórias, Loftis refere a forma como Dusko não descansou até se encontrar frente a frente com o carrasco nazi do seu amigo Johnny. Apesar de a sua intenção inicial ser eliminá-lo, acabaria por o deixar inconsciente e muito maltratado depois de descarregar nele toda a fúria, stresse e frustração que acumulara durante os anos da guerra. Contudo, para o autor de “Na Toca do Lobo”, que conversou com Marco Popov, um dos filhos de Trycicle, o destino do assassino de Johnny teria sido porventura bem diferente. Ou seja, Popov tê-lo-ia de facto eliminado.

Terminado o conflito, Dusko Popov volta a ser um homem de negócios de sucesso. Depois de um casamento falhado, casar-se-ia, em 1962, com Jill Jonsson, 31 anos mais nova, de quem teve três filhos. O reconhecimento dos britânicos pelo seu trabalho como agente secreto, em 1947, fez-se, como seria de esperar, à porta fechada numa sala do Hotel Ritz, de Londres, onde lhe foi entregue a Ordem do Império Britânico. Quando, em 1974, já depois de ter publicado as suas memórias, Dusko Popov foi entrevistado para a revista “Parade”, afirmou: “De certa forma, é um insulto à minha inteligência ser conhecido como o James Bond da vida real.” Como afirmou várias vezes, se Bond tivesse sido mesmo um agente secreto teria sido morto em 48 horas.

*Investigadora do Instituto de História Contemporânea